terça-feira, 18 de outubro de 2016

Rubem Braga, sem o afeto de outro tempo

No final da minha meninice e início da adolescência li com afinco e imenso prazer as crônicas de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Rubem Braga. Ler era uma espécie de descanso, nos poentes dos recheados de aulas e futebol. Por entre as horas tudo soava eterno, como se a vida e o tempo fossem dissociados por uma poesia entranhada por sentimentos puros.

De um modo geral, as crônicas me levavam ao cotidiano não vivido e, assim, lançava-me ao imaginário mais largo. O Rio de Janeiro, o Brasil, a praia e, sobretudo, os grandes personagens sociais e políticos, os artistas e os escritores acabavam por inundar o meu mundo tão distante de tudo aquilo. Creio que, observado da cadeira do futuro, eu me fartava mais dessa aproximação cognitiva e emotiva com algo que não vivia ou convivia - não era catarse literária.

Na juventude mais avançada e agora na denominada “idade adulta” afastei-me da crônica e mergulhei nos livros mais densos, nos romances e na poesia. Foi abandono sem rodeios ou reflexões. Imagino que o afastamento da crônica se deu pela constatação de que aquilo que via no cotidiano já preenchia as minhas especulações mentais. Meu desinteresse ocorreu no momento em que, pouco a pouco, todos os cronistas que povoavam a vida foram morrendo. Drummond em 1987, Mendes Campos em 1991, Rubem Braga em 1990 e, mais tarde, Sabino em 2004.

Recentemente ganhei uma belíssima caixa, cujo conteúdo me revestiu de melancolia, saudades e certa ansiedade. Refiro-me aos três livros de crônicas de Rubem Braga (1913-1990), organizados por André Seffrin, Bernardo Buarque de Holanda e Carlos Didier, sob o selo “Autêntica”. Trata-se de coleção recentemente lançada e cujos títulos são “Os Moços Cantam”, “Os Segredos Todos de Djanira”, “Bilhete a Um Candidato”.

Tais crônicas foram publicadas nos mais importantes jornais e revistas do país. São textos curtos e versam sobre pessoas e fatos, na maioria conviventes de Braga e conhecidos do público. Foi uma surpresa, da qual insistentemente procurei afastar.

A cada texto vi-me tolhido do prazer da leitura. Muito se comenta sobre a tal “objetividade” dos textos de Braga. Desta “objetividade”, contudo, não consegui retirar o extrato literário que me dá o prazer ao percorrer linhas. Já tinha para mim que a crônica não é propriamente um gênero literário quando se defronta com a grandeza da poesia e do romance. Todavia, em Rubem Braga encontrei a barreira que não consegui transpor.
Achei-o espinhoso, cooptado pelos personagens e fatos que descreveu, hermético a ele mesmo, miúdo nas observações, sem psicologia e insistente em provar que não recalcitra em sentimentos e, inclusive, humor. Com o passar das páginas e o avanço nas datas de cada crônica vi o meu ídolo da meninice e adolescência tomado por mais e mais descompromisso literário e mais seguro de que o seu nome, per se, já consagrava a própria escrita. Não há em Braga aquela “estranheza” necessária à literatura e também não via a tão decantada poesia quando se lê a crítica e a reflexão sobre a obra do escritor capixaba. A própria ausência de firulas linguísticas e a economia das palavras não se traduz em maiores avanços no campo da perdição literária.

Naquela reunião de textos restaria o jornalista, pensei eu. Todavia, achei-o ora laudatório, ora subjetivo demais, propenso as digressões menos factuais e mais imaginárias, sem a completude de poética. Ou seja, se como cronista me frustrou, como jornalista não me conquistou. Triste mesmo.

Por fim, ao sentir toda a escassez de meandros sintáticos que aguçassem o lirismo ou, sei lá, o riso, notei que a tal objetividade de Braga acabava sempre em subjetivismo no qual ele inexoravelmente se tornava personagem da estória que ele tentava contar de forma especial. Pode-se dizer que há “leveza” no texto, mas a mensagem híbrida, sempre contando com a presença do próprio escritor o que acaba por deixar a sensação de aleatoriedade de sentimentos que não tem muito a ver com aquilo que se lê, mas com o que o leitor especula por si mesmo.

Não encontrei em Rubem Braga os meus tempos e idos, mas também não encontrei os faróis o cotidiano agudo ou outra qualquer motivação mais especial. Ali, naquelas páginas, constatei facilmente o modernismo das construções frasais e, de certa forma, a própria linguagem. Todavia, se colocarmos Rubem Braga frente aos seus pares, cronistas ou não, vê-se uma figura menor e, até mesmo, microscópica.


Saí daqueles três livros com a sensação de que o presente de outrora era mais feliz. Tudo que li de Braga no tempo em que o tempo não passava foi a generosa parcela que a vida me deu daquele escritor capixaba. Por ora, senti que a falta de intensidade dos livros que tão belamente reuniram as crônicas dele talvez sejam parte integrante da vida que percorro, cética em meio às obviedades. A imbricação que ainda não ser por onde começar a deslindar.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Um pouco de poesia em meio ao tempo chuvoso

Verso Livre


Quando nasce um poema
De longe ele vem
De perto ele chega
Tão junto a mim
Tão longe do ser

Às regras não de entrega
Sua forma é não tê-las
Sentimentos não se perdem na rima
Fazem a rima!
Ilustram uma página do dia
Que na noite do pragmatismo não teria
Aquela palavra, aquele vocábulo não entendido,
Longe de certo ser, por certo é sentido

Quero te captar, poesia!
Como tu és, pura e límpida
Tão singela que faz da heresia
De não ser captada
Uma ameaça em vão

Minha boca, teu portão
Tua boca, o poeta!
Tão interado em ti
Tu em mim
Que quando te abro
Deliro na forma que não tens
Mas que sinto
Sentimos

sábado, 17 de maio de 2014

Lisboa, poética e mundana



    Lisboa com suas casas  
    De várias cores,

    Lisboa com suas casas
    De várias cores,

    Lisboa com suas casas
    De várias cores ...
   

    À força de diferente, isto é monótono.
    Como à força de sentir, fico só a pensar. 

   

    Se, de noite, deitado mas desperto,  

    Na lucidez inútil de não poder dormir,  

    Quero imaginar qualquer coisa
    E surge sempre outra (porque há sono,
    E, porque há sono, um bocado de sonho),
    Quero alongar a vista com que imagino
    Por grandes palmares fantásticos,
    Mas não vejo mais,
    Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
    Que Lisboa com suas casas
    De várias cores. 

   

    Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
    A força de monótono, é diferente.
    E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo. 

   

    Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,

    Lisboa com suas casas
    De várias cores.



(Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio/Poesia de Álvaro de Campos 11-5-1934)



Lisboa é um eterno recomeço para os portugueses e uma pedra angular para nós brasileiros. Um lugar no qual a saudade parece começar antes da despedida. Fernando Pessoa, este “indisciplinador de almas” é uma espécie de retrato humano desta capital que se reveste de extratos melancólicos, bucólicos e suaves. Olhar o Tejo para nós brasileiros é como nos puséssemos a retornar do exílio na direção da ensolarada costa de nosso Nordeste. Enquanto isso, para os portugueses, o Tejo, nas suas profundezas, é para os lusitanos um mergulho no passado, na busca do Sebastianismo enfim restaurado, de um Portugal, pequeno no tamanho, mas grandioso nas ambições.

Antes de ir as beiradas do Tejo, recomenda-se um passeio descompromissado e lento pelo Chiado e pelas cercanias da Rua dos Douradores, pelo bar Martinho das Arcadas e pelo Café “A Brasileira”. Nada melhor que nesta andança cercar os olhos em uma livraria próxima e, quando dela se aproximar, despreocupar-se com os temas certeiros dos livros de autoajuda, dos romances medíocres (tal qual, “Comer, Rezar, Amar”, de Liz Gilbert). O momento é para o lirismo de Pessoa, para a ironia refinada e ilustrada de Eça de Queiroz e para o romance tortuoso de José Saramago. Ou ainda, para revisitar “Os Lusíadas”, estes sim!, versos para se ler silenciosamente ao longo das margens do Tejo. Depois, solte um grito de glória como se independente fosse.

Lisboa é como um vinho estruturado, mas, ao mesmo tempo, simples, doce e com bouquet cheio de nuances e referências imemoriais. Não cabe perder tempo se preocupando com o último post do Twitter ou do Facebook. Senão, Lisboa se torna um vinho varietal sem o frescor necessário à curtição da cidade, nas suas fotos vívidas e sem as encostas dos “amigos” da rede que nunca passam na sua casa.

Os bondes em Lisboa são lentos até nas ladeiras do Forte de São Jorge. Na parada do Largo de São Carlos desça e veja o que se passa nos vitrais que anunciam o espetáculo do momento no teatro de mesmo nome. Tudo é elegante, gentil e culto, sem que seja argentário ou cercado dos flanelinhas de Copacabana. Não há a pressa do tempo moderno, por certo.

Se misture ao povo e sinta-se um “emissário de um rei desconhecido”. Verá que aquele sotaque que despenca dos lábios carnudos das belas raparigas que passam nas largas avenidas é cheio de sensualidade e beleza. Se estiver ao lado de alguém amado (amado mesmo!), espete um beijo nos seus lábios para conter o ímpeto que nasce nas entranhas. Se estiver só como um berbere no Marrocos, sinta-se alado para o amor. Anime-se, mas com lucidez.

As horas em Lisboa sempre hão de interrogar sobre onde e quando parar e sorver um café, um doce de ovos ou um pescado à moda portuguesa. Não hesite em responder: pare no “Martinho das Arcadas” para o café e sinta-se recebendo os amigos como Fernando Pessoa recebia. Coma um “pastel de Belém” na rua de mesmo nome e pergunte, depois da primeira mordida, se foi por ali que os anjos que cercaram a manjedoura passaram antes de irem para a Judéia no tempo daquela criança que mudou o mundo. Quanto ao pescado, bem isso é um mar (ou oceano?) de possibilidades. Se quiser fugir do mais ordinário, vá ao “O Polícia”, ali na Rua Marquês Sá da Bandeira, 112ª. Recomendo o vinho Quinta Pacheca para acompanhar os pescados, sejam quais forem estes. Este branco é um corte do Douro, das castas Cerceal, Malvasia Fina, Gouveio e Moscatel. Diferente, muito diferente.

Em Portugal se comemora neste ano os quarenta anos da Revolução dos Cravos que encerrou (para sempre) a ditadura do período de Salazar. Vá a Alfama e comemore a liberdade (que também é sua). Não deixe nunca de passear por entre os parques da cidade. Não é apenas um lugar de repouso para a elevada luminosidade que penetra nos olhos. Dá para se encantar com as variedades de árvores, algumas trazidas do Ultramar, dos recantos quase infinitamente distantes que Vasco da Gama ousou singrar.

Lisboa deveria ser sempre a primeira cidade a visitarmos na Europa. De lá podemos partir mais humanos e simples, mesmo que revestidos pela Graça de sentir Pessoa nos seus versos que abrem este singelo texto. A Europa tem fronteiras que se expandem para dentro das pequenas comunidades, suas relvas próprias, sua comida típica, seus vinhos sedutores, seu povo provinciano. Lisboa, por sua vez, nos avisa que “a poesia é a maneira figurada de se viver”. As suas bordas, portanto, nunca se firmam em definições, mas numa leveza cândida que nos leva a viajar: o rio e o mar, os conventos e os puteiros, as avenidas e vielas, o universo e o canto de um bairro, as casas grandes e os pequenos palácios. Não há amarguras quando sabemos que ficamos sozinhos em Lisboa, cercados de nódoas de amor juvenil por todos os lados...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

"A Grande Beleza" Mimetiza o Mundo e o Renova

Reinou durante a segunda metade do século XX até a queda do Império Soviético, a crença de boa parte do pensamento de que os valores burgueses necessariamente corroíam as perspectivas do proletariado. Em seu famoso livro "A Sociedade do Espetáculo" de 1967, Guy Debord afirma que "toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação". Não é preciso nos desgastarmos excessivamente para que possamos enxergar que a síntese de Debord manifesta-se claramente por todos os afluentes e vazantes da sociedade moderna. Além disso, falta-nos um sentido de totalidade e um "sentimento de mundo" com a licença ao poeta Drummond.  Espalha-se, ademais, uma cultura vazia de valores (individuais e coletivos), descartável e, permitam-me o termo, "brega" e "grosseira".
É a partir da premissa brevemente enunciada acima que passo a comentar o filme A Grande Beleza (La Grande Bellezza, Itália/rança, 2013, 142m, dirigido por Paolo Sorrentino, com Toni Servillo,Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso e Serena Grandi), ganhador do Globo de Ouro (2013) de melhor filme estrangeiro. . Trata-se de um filme que pode ser visto por variados ângulos, mas de muitas formas estes fluem para uma ácida critica para a "sociedade do espetáculo" que transborda por todos os lados de nossa vida, digamos, "burguesa". 
Jep Gambardella, interpretado brilhantemente por Servillo, é um jornalista que escreve sobre as faces da vida da alta sociedade romana, especialmente sobre arte contemporânea. É uma espécie de colunista de arte/social, um observador agudo e crítico daquilo que vê, um escritor de apenas um livro, escrito em sua juventude (ele tem 64 anos). Nada, após seu primeiro livro, o empurrou para escrever outro. É como se um tédio se abatesse por décadas, sem um grande amor (que teve quando jovem) e sem um insight que justificasse um novo empreendimento do pensamento.
O filme é um flanar de Gambardella por sua Roma querida, observando as cenas urbanas e delas retirando, com humor e perspicácia, a vulgaridade, o vazio e a inconsequência daquilo que vê. Sorrentino, o jovem e talentoso diretor do filme, constrói um roteiro (juntamente com Umberto Contarello) que consegue ser explícito por meio de um cultivo precioso do detalhe. É a partir das particularidades cênicas que Sorrentino expande as ideias e o imaginário do espectador. Não é um filme "fácil" no sentido de que é preciso estar atento ao que se passa, pois quase tudo parece importante (e, às vezes, não é). Há cenas que são verdadeiramente hilariantes na medida em que o trajeto dos personagens e a progressão das cenas mostra cenas bizarras e explícitas, absurda mesmo, sobre a vulgaridade e o vazio mundano. Paolo Sorrentino carrega para a tela toda a tradição de Federico Fellini ("A Doce Vida"), seja na temática estupenda, seja na forma inovadora e cheia de "estranhamentos artísticos". Há, inclusive, várias cenas que põe a nu a vontade de Sorrentino em expor ao público a pura fonte felliniana. 
São muitas as divagações de Jep Gambardella (Servillo): o amor, a arte contemporânea, as relações sociais, o papel dos intelectuais, a gastronomia, a loucura humana, o sexo, as drogas, e assim vai. Em tudo há espírito crítico, mas o diretor/roteirista não se furta a contradizer o fato vulgar com uma visão alternativa (seria uma fuga?). Em palavras singelas, Sorrentino "bate e rebate". Mostra disso é a cena em que uma criança joga aleatoriamente e violentamente tintas de todas as cores sobre uma imensa tela. Está a "elaborar" um quadro de arte. Nas cenas seguintes, a câmera desliza lentamente por entre obras de arte renascentistas como se mostrasse uma porta de saída para aquela coisa horrorosa de uma tresloucada menina. É como se o diretor gritasse: "parem o Romero Brito!"
O filme conspira sem solenidade contra a "sociedade do espetáculo" que passamos a vivenciar conforme o desenvolvimento capitalista se expandiu desde o início do século passado. A corrosão não é mais capitalista. É da alma mesmo. A Grande Beleza contesta a ausência de espírito na matéria, a alma penada e perdida do nosso cotidiano e, em meio a uma bela e cuidada contestação, ela abre os portões para o belo. Sorrentino não tem medo de combater numa trincheira na qual dificilmente haverá vitória. A realidade parece um jogo perdido, mas sempre devemos construir oásis em meio ao deserto. É preciso ver e sentir a realidade, mas é necessário sonhar e superar o espetáculo vazio por meio de um sonho.
Do ponto de vista artístico Toni Servillo dá um show de interpretação. Ele combina rara capacidade de se mostrar delirante e, ao mesmo tempo, sóbrio e irônico. Lembra muito Marcelo Mastroianni, morto em 1996. Esteja o seu olhar na câmera ou no horizonte, Gambardella transmite com perícia a linguagem do filme e, criativamente, constrói um personagem que serve ao roteiro e vice-versa. Espero ver Servillo mais vezes na tela.
A Grande Beleza é, enfim, um filme espetacular. O seu nome condiz com esperança que devemos cultivar. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Sob a Influência de Harold Bloom

Temos de reconhecer que os livros, tal qual ainda o vemos, são peças cada vez mais raras no cotidiano humano. Interessante que a leitura mais escassa, fugidia da superficialidade que domina o mundo, não é sinal de progresso. Ao contrário: na era da informação há uma concatenação entre o excesso de notícias, dados, descrições, fofocas e, de outro lado, pouco conhecimento e uma visão além do meramente aparente. Diz Harold Bloom, no seu magnífico livro "Como e Por que Ler": "Nos dias de hoje, a informação é facilmente encontrada, mas 
onde está a sabedoria?"
Harold Bloom é daqueles oásis no qual repousa a sabedoria. Trata-se de uma virtude torneada de conhecimento que se expande por um campo definido, o da literatura e outro indefinido, a vida.
 “A crítica literária como tento praticá-la é em primeiro lugar literária, ou seja, pessoal e apaixonada. Não é filosofia, política ou religião institucionalizada. Em sua melhor forma, (...) é uma espécie de literatura de sabedoria e, logo, uma meditação sobre a vida”, diz com singeleza e profundidade, ao mesmo tempo. 
Aos 83 anos, Harold Bloom leciona há mais de 57 anos, sem nenhuma interrupção significativa. É professor da Yale University, entidade na qual a literatura ainda ocupa lugar de imenso prestígio dentre as ciências mais modernas. Também foi professor da New York University de 1988-2004. É imensamente recompensador escutá-lo sobre o seu papel de professor aos 83 anos, mesmo para aqueles que jamais serão seus alunos: 
"— Dar aulas hoje significa tudo para mim. Quando você chega a uma idade como a minha ainda dando aulas, aprende a amar os estudantes de uma forma muito elevada." Trata-se inequivocamente de uma vocação amorosa e não propriamente de uma profissão, daquelas que estão filiadas a um determinado sindicato.
Em Anatomia da Influência (Anatomy of Influence, Yale University Press, 2011, lançada no Brasil em outubro de 2013 pela Editora Objetiva, tradução de  Renata Telles e Ivo Korytowski), Bloom retoma, após largo período, desde 1973, o texto que o lançou como um dos ícones da crítica literária, "The Anxiety of Influence". Esta obra calçou uma concepção de crítica literária diversa daquela que dominou o século XX, sobretudo após os anos 20, quando T.S. Eliot lançou o seu estrondoso poema The Waste Land (1922). A partir de Eliot, críticos literários, tais como William K Wimsatt e Monroe Beardsley, passaram a pregar que autores não podem ser vistos ou avaliados por intenções, mas apenas pelo texto produzido de onde se extrai a fonte pura de sua arte. Portanto, esta crítica jogava um balde de água fria nas concepções historicistas da literatura, em geral, e da poesia, em particular. Creio, de minha parte que esta concepção se afastou, inclusive, daquela preconizada originalmente por T.S. Eliot, que diz em seu famoso ensaio A Função da Crítica (1923) "que nenhum poeta, nenhum artista, tem significação sozinho". Ademais, Eliot defendia que um artista tem herança e causa comum com outros artistas e, neste sentido, há uma submissão que deve ser superada para que um autor se torne único, especial. Ora, esta visão Eliotiana está mais próxima de Bloom que os seguidores do primeiro. Os Neocríticos, ao rejeitarem a investigação da crítica sobre as variáveis da criação literária (as intenções e contemporaneidades), acabam por se afastar da ideia da influência de uns autores sobre os outros. É neste campo que Bloom navega com grande intensidade teórica e versatilidade estética. É o ágon de Bloom.
Em Anatomia da Influência Harold Bloom explora as "lutas" e "as relações" entre escritores de diferentes épocas, em diferentes momentos e, até mesmo, por diferentes razões. Não é, contudo, uma relação marcada pela temporalidade, mas pelo ego literário de um autor em relação à outro. Nesta diapasão, Bloom imagina que Freud pode ter antecedido a Goethe. A construção de um autor não pode ser completamente  afastada de outras influências e esta interação se dá por meio de uma "luta" do autor para superar o influenciador. Deste princípio, Bloom analisa com maestria os vetores da influência dos autores canônicos (para usar uma expressão que Bloom popularizou) sobre outro autores igualmente canônicos. Milton, Shelley, Whitman, Crane, e, sobretudo, Shakespeare, este ganhador da "luta" com Homero. 
Há outro aspecto notório na obra de Harold Bloom que é a interação permanente, não passível de ser ontologicamente separada, entre a vida e a literatura. Para ele, a literatura é a própria vida e não se pode estabelecer um "momento" ou qualquer outro critério que possa delimitar onde uma começa e a outra termina. A independência destas ideias literárias de Bloom parece fácil aos olhos do leitor, mas é preciso entender que em Anatomia a forma e as conclusões das investigações de Bloom tem repercussões elásticas sobre a apreciação da arte literária. Não há, por assim dizer, nenhuma concessão às facilidades da era moderna. Para Bloom, a busca da sabedoria é uma atividade que demanda tempo e dedicação. Deve ser realizada de forma "experimental e pragmática" (neste sentido, não é educacional) o que implica na desleitura do texto literário em busca de sua influência anterior (e, como dito, posterior). A partir da influência é possível que encontremos o autor ou sejamos encontrados por ele. Shakespeare é, ao mesmo tempo, a sublime experiência do humano, seja em Hamlet ou Rei Lear, ou é o encontro com a nossa própria alma. A desleitura proposta por Bloom é sempre um inevitável encontro. Daí, porque não há como separar a vida da literatura.
Creio que a leitura de Anatomia é uma tarefa relativamente difícil quando temos por referência o texto fácil da cibernética que nos rodeia. Certamente não é um texto que será valorizado no Twitter ou no Facebook. Em tempos de redes, Harold Bloom pode parecer demais. Todavia, ao percorrermos o seu livro, vai nos tomando conta da alma uma série de referências estimulantes que nos levam a querer apreender mais e mais do sabor das influências entre os autores e os leitores. É uma tarefa muito mais "barata" que os muitos reais que boa parte da classe média dispende para "educar" os seus pimpolhos. 
Em Bloom estamos diante de um desafio, é verdade! Mas, trata-se de um desafio alimentado pela sedução literária desprovida das presunções que estamos acostumados a fazer de quase tudo. É uma navegação livre e infinita e que pode ser reavivada no tempo que se quiser, pois a literatura é uma invenção não apenas do autor, mas de cada um dos leitores que solitariamente navegam por mares já navegados e jamais totalmente conhecidos. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Alessandra Maestrini, Bom Gosto, Beleza e Arte

As fronteiras daquilo que é arte ou não estão cada vez mais complexas de serem definidas. Seja em função das barreiras, digamos, metodológicas, que permitem trabalhar e construir "conceitos" sobre arte, seja pela crescente utilizações de "presunções éticas e politicamente corretas" que impedem que as pessoas possam dizer em alto e bom tom aquilo que gostam ou desgostam, ou que consideram ou não que seja arte, sem que sofram as ingerências e críticas que são facilitadas pelo senso comum de que toda expressão um pouquinho mais elaborada merece um lugar na prateleira daquilo que se chama arte. Chegamos a mesmice, assim.
Ora, grande parte da música chamada de "sertaneja" é de uma chatice impressionante, seja pela estridência das vozes, pelo ridículo das letras e pela débil criatividade musical. Esta é uma opinião e, possivelmente, seja minoritária dentre aqueles muitos que apreciam esta espécie de "arte". 
A música brasileira é uma das manifestações culturais mais edificantes de nossa brasilidade. A diversidade de estilos e formas sempre guardou proporção com a qualidade das produções, das letras, das melodias. Do baião ao samba (dois pilares de nossa musicalidade), do chorinho ao rock nacional (ele existe per se!), passando pelos "cantores do rádio" e pela inesquecível bossa nova, se pode ouvir uma "arte" que merece ser apreciada sem os "hermetismos" que na aparência sugerem que "tudo pode ser arte", mas que na realidade escondem os preconceitos e barreiras das coisas politicamente "corretas". Bom, estes dois parágrafos são apenas introdutórios e são incapazes de margear uma discussão tão ampla sobre o "que é e o que não é arte" (no sentido de "música"). Mesmo assim, prefiro ser claro e dizer que a atual música sertaneja - apenas para citar um exemplo - é um verdadeiro horror, muito embora seja bem ouvida por algumas multidões.
Num contexto tão pobre da atual música popular brasileira, sobra-nos os grandes autores e cantores: Caetano, Chico, Milton, Paulinho da Viola, Gil, Betânia, Marisa Monte, Rosa Passos, etc e etc. Estes persistem com o estandarte da beleza, da variedade, do multicolorido, da melodia instigante (e encantadora) daquilo que é chamada de "música popular brasileira". Esta geração, na qual muitos chegam aos setenta anos ainda é a nossa melhor geração musical dos últimos cem anos, muito embora Noel Rosa, Lamartine Babo e outros tantos possam brilhar com igual valor. E é raro podermos selecionar novos intérpretes, compositores e músicos que tenham o valor artístico desta geração dos anos 60 e 70. Somos devedores destes e temos de devotar a nossas maiores homenagens a eles de forma a que possamos escapar do sofrimento de escutar Chitãozinho e Xororó, Jorge e Mateus, Leonardo, César Menotti e Fabiano e outros tantos gritantes que estão a se espalhar por aí, inclusive nos centros acadêmicos.
Em meio a tudo isso, acabei de descobrir uma cantora excepcional e que produziu um CD doce e belo, seja pela qualidade artística-musical, seja pela cuidadosa e espinhosa produção. Trata-se de Alessandra Maestrini e o seu CD Drama`n Jazz (2012). É realmente impressionante a voz desta cantora, sua versatilidade e a "elasticidade" vocal que permite que suas versões de velhas músicas (tal qual a The Man I Love de George e Ira Gershwin) se tornem de fato em "outra canção". Isso prova a imensa fortaleza desta intérprete maravilhosa que destoa de tanto mau gosto solto pelas rádios e shows. A produção primorosa deste CD coube a Rodolfo Rebuzzi (também responsável pelos arranjos).
Tudo neste CD é permeado por grande talento, pela soma de inventividade e elegância, por uma produção gráfica inteligente, criativa e bela e por uma voz que parece se levantar em meio à "velha guarda" ainda cheia de vida e a pobreza musical que destoa da história da MPB. Saudemos Alessandra Maestrini. Para o nosso bem. 

Liv & Ingmar, Poeticamente Conectados

Foi o cineasta soviético Andrei Tarkovsky (1932-1986) uma das maiores influências de Ingmar Bergman, apesar de o primeiro ser bem mais jovem que o sueco. Tarkovsky considerava, por sua vez, a obra prima Persona de Bergman um dos maiores filmes de todos os tempos. Ambos os autores tinham preferência pela linguagem metafórica e poética. Para eles as ideias, sentimentos, percepções não podiam ser contidas pela linguagem simbólica, pela utilização de signos e ícones. Nessa diapasão, os filmes de ambos tem conteúdo vasto, às vezes com a aparência de imperceptíveis, outras tantas sinalizam um vazio (existencial?) que, de fato, são recheados de substância, de coisas verdadeiras. Aqueles que veem os seus filmes sentem-se recompensados em poder refletir sobre a realidade humana de forma expansiva e gritantemente significativa. Um cinema que poucos fazem e outros poucos veem. Um cinema para se pensar...
Ao assistir o documentário Liv & Ingmar - Uma História de Amor (Reino Unido/Noruega/Índia, 2012, dirigido por Dheeraj Akolkar) o que vemos é uma declaração de amor da atriz Liv Ullmann na direção de Bergman. Ela conviveu com o grande diretor sueco por mais de 42 anos e fez 12 filmes sob a direção dele. Os anos de convivência incluem os 5 nos quais a atriz esteve casada com Bergman. Foi neste tempo de casamento que o sueco disse-lhe que eles estariam "dolorosamente conectados" por toda a vida. De fato, os anos de casados foram dolorosos, fruto da crescente solidão imposta por Bergman à Ullmann, na casa destes na isolada Ilha de Faro na Suécia, bem como pelos acessos de ciúmes (ele era 21 anos mais velho). Muito embora o casamento houvesse despencado num insucesso, foi desta convivência que aos poucos Liv Ullmann extraiu um profundo amor, um sentimento de crescente cumplicidade amorosa e intelectual, matéria-prima de seus filmes em conjunto e da própria relação que foi construída nos anos subsequentes.
A meu ver, este longa metragem de Dheeraj Akolkar (de fato, é o primeiro deste diretor indiano), não é propriamente um "documentário". Trata-se essencialmente de um depoimento sentimental de Liv Ullmann em relação a um silente Bergman, cuja voz não aparece sequer uma vez durante todo o filme apenas imagens que guardam uma relação com a estética dos filmes por ele dirigidos. É uma declaração de amor adornada de contradições (suas brigas e discussões), de docilidade (a candura das conversas reportadas, os telefonemas e cartas), de respeito e admiração, bem como de uma profunda saudade de um tempo que se foi e que de muitas forma ficou na vida da atriz norueguesa. O espectador perde o sentido do tempo histórico e não muito bem se localiza relativamente à carreira de cada um dos "personagens". De fato, o tempo mais importante é o poético (na linguagem de Tarkovsky) do qual se pode alimentar a alma pensando no significado do amor numa relação que ultrapassa as fronteiras objetivas da vida deles (e da nossa própria). Neste sentido, este documentário lembra Pilar e José (2011) do documentarista português Miguel Gonçalves. Este filme talvez tenha penetrado com mais profundidade na intimidade amorosa do casal que morava na Ilha de Lanzarote na Espanha. Todavia, ambas as obras contém uma seiva vívida de amor que pode ser percebida não apenas nas palavras proferidas, mas sobretudo nos olhos marejados de quem fala.
A temporada de 2013 nas salas de cinema de São Paulo começou muito bem. Estamos diante de um belo filme. Daqueles que se deve assistir em silêncio e com grande atenção, dispensando inclusive a sonora pipoca que em nada ajuda à compreensão da alma. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Leituras Para O Crepúsculo de 2012

Vai-se mais um ano. De fato, foram poucos os comentários neste blog em 2012. Prometo que em 2013 serão mais numerosos e, quiçá, a maior frequência seja companhia agradável para mais inquietação. Afinal, a ideia central deste blog é a de trazer à tona alguns traços daquilo que perseguimos de melhor em nós mesmos a partir do mundo que nos defrontamos. Seja um livro, um filme, uma receita, uma arte ou uma conversa entre amigos que desejamos compartilhar. Padéia.
Neste sentido, recomendo aos amigos algumas leituras que me parecem interessantes e que reflorem a nossa mente num jogo solto de ironia, alegria, amor, juízos de valor, compaixão, reflexão e outras tantas cousas.
Para os que gostam de poesia, recomendo Primeira Poesia da coleção Biblioteca Borges da Companhia das Letras, bem como Outras Inquisições da mesma coleção. Nos poemas podemos encontrar toda a elegância de Jorge Luis Borges sem as modernas travessuras dos poetas ditos vanguardistas. O traço de Borges, em estilo inconfundível, conta-nos poeticamente a tão amada Buenos Aires, seja a do passado, seja aquela que permanece intocada pelo tempo. Em sua linguagem, Borges sabe passar da idealização mais mítica até uma pletora de fatos, dados e coleções bem factuais. Nesse alinhavado de poemas podemos nos deliciar ao sabor das letras como se estivéssemos a sorver um delicioso vinho em algum lugar de Palermo Viejo. Uma delícia.
Nos textos de Outras Inquisições encontramos, ao mesmo tempo, um rigor de ideias  a cada pequeno ensaio e, de outro lado, um vagar de reflexões despojadas de pretensões acadêmicas. Assim, podemos conhecer o que seria o "pensamento" de Borges sobre diversos temas. De Nathaniel Hawtthorne até Kafka, de Goethe a Schopenhauer. Logicamente, o livro não se caracteriza pela fluidez singela de um texto de Lya Luft, mas não é um texto denso de Petrarca. O livro no fundo nos rivaliza conosco: deveríamos saber mais para sermos mais felizes. Borges é um dos caminhos rumo a esta sabedoria e felicidade.
Outro livro sensacional que merece leitura é Paris: A Festa Continuou de Alan Riding (Companhia das Letras). Trata-se de uma inquietante investigação sobre o papel desempenhado pelos intelectuais, artistas e "formadores de opinião" franceses (ou que lá moravam) durante o período da ocupação da Alemanha nazista. É incrível descobrirmos como o vazio político pode levar os "legisladores" do pensamento a um caminho tão equivocado quanto o suporte ao regime nazista e ao governo colaboracionista do Marechal Philippe Petáin em Vichy. Esta é uma história que sempre ficou acobertada pelo orgulho (e vergonha?) dos franceses. Ademais, é possível transpor muitas daquelas realidades para os limites atuais da Europa em crise. O desemprego, a desesperança, a ausência de perspectivas podem levar sociedades inteiras na direção de soluções que aumentem as imperfeições das estruturas e conjunturas e, até mesmo, nos levem para abismos como foi o regime de Hitler. Riding (que viveu no Brasil) fez uma pesquisa volumosa que foi destrinchada alocando informações e análise de forma lógica e com uma linguagem elegante e simples. Bela leitura.
Ler é um ato egoísta e saboroso. Um prazer que podemos nos dar e que nos leva a melhor das solidões. Aquela que nos liga ao mundo sem que necessitemos dele participar. Boa leitura. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Elles: Os Fantasmas Também Se Enganam

Na sua magnífica obra O Fantasma de Canterville de Oscar Wilde há uma passagem em que o fantasma se vê surpreendido com um cartaz nas mãos que narrava estas "horríveis palavras": " O Fantasma Otis, o único verdadeiro e original espantalho. Cuidado com as imitações, todos os outros são falsificados." Trata o evento de uma enganação, derrota, um acontecimento que leva a ludibriação . Até mesmo os fantasmas não escapam a este tipo de acontecimento.
O filme Elles (Alemanha/França/Polônia, dirigido por Malgorzata Szumowska, com Juliette Binoche, Anaïs Demoustier, Joanna Kulig, Louis-Do de Lencquesaing, Krystyna Janda,
Andrzej Chyra, Ali Marhyar) narra, no melhor estilo do cinema francês, a estória de uma jornalista de uma revista feminina empenhada em escrever um artigo sobre jovens universitárias que ganham a vida se prostituindo. Desta forma, a jornalista de meia idade acaba por interagir com as prostitutas, contando a suas experiências e, por detrás destas, acaba por descobrir os seus próprios e mais profundos sentimentos.
A tarefa da jornalista não lhe é neutra. Toda aquela realidade acaba por recair sobre a vida comum, ordinária e pouco transversal da jornalista. Não se pode ser imune à própria vida e, tal qual o Fantasma de Wilde, as falsificações não podem ser escondidas sob o tapete e as imitações podem ser evidentes, mas não obscurecem de todo a própria realidade.
A jornalista vê-se desnudada por completo. O que as universitárias fazem entre as quatro paredes nada mais é que a ilustração (ou imitação) da própria vida dela em distintos e assombrosos sentidos. Pouco importa que a narrativa trate das fantasias sexuais dos clientes, satisfeitas com perfeição pelas prostitutas. O roteiro é competentemente utilizado pela diretora do filme para se tornar uma especie de imitação da própria vida rotineira (e caseira) da jornalista. Não à toa, a fascinação com a história de cada uma, vai se tornando uma tortura crescente quando a jornalista reconhece a farsa de seu casamento, das relações familiares, das exigências da vida doméstica, das preocupações com os estudos do filho mais velho que insiste em transgredir e da absorção total do filho pequeno por um vídeo-jogo.
Notável no filme, o contínuo e crescente vazio que se vai despejando pela personagem de Binoche. Ao fim, a percepção, metafórica e real de que os clientes daquelas jovens estudantes, não passam dos homens comuns que rodeiam a vida dela e de sua família.
Tudo no filme parece ajustado para produzir a angústia da jornalista e, por conseguinte, daqueles que assistem as cenas. Tem-se de ter cuidado para não se verificar que muita coisa de nosso mundo é falsificado, assim como na cena do fantasma de Wilde.
Juliette Binoche dá outro show de interpretação. Sua beleza não é essencialmente plástica. É um conjunto que soma a própria artista e a sua obra que exercita com o corpo e com a alma. Um prêmio para os amantes do cinema. Da mesma forma, as jovens atrizes que cumprem o papel de prostituta conseguem engendrar cenas de sexo cheias de erotismo (pago e ambicionado pelos clientes) com a dureza e a doçura que brota de suas palavras.
A direção da jovem diretora Malgorzata Szumowska (39 anos) é impressionantemente segura. Ela faz jus a tradição do (excelente) cinema polonês, bem como consegue construir um ambiente tipicamente teatral dentro de uma perspectiva cinematográfica. Não é tarefa fácil transitar entre estes dois mundos da arte. Para Szumowska parece simples.
Eis um filme recomendado para quem deseja sair da zona de conforto. Curtir um filme e sair um pouco inquieto com os nossos fantasmas. Logo eles que também podem ser ludibriados como nos ensina Oscar Wilde.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Na Estrada Se Perdeu Um Filme

Jack Kerouac, John Clellon Holmes, Allen Ginsberg e alguns outros lançaram à prova e aos "consumidores de arte" o termo beat ou beatnik como forma de identificação e referência a uma geração pós-II Guerra Mundial que, inserida nas cidades, era excluída, marginalizada, tresloucada e viciada. Uma espécie de submundo do qual estes escritores extraíram inspiração para a produção de suas obras igualmente batizadas de beats. Creio que a principal virtude desta geração literária tenha sido a sintonia instintiva com o seu tempo e com os seus pares. Beberam direto na fonte. De outro lado, os seus leitores (e muitos que sequer pegaram em seus livros), criaram esterótipos muito além da própria qualidade ou virtude de cada escritor. Em função destes últimos , a geração beat pareceu-me exageradamente valorizada ao longo dos anos. Já nos anos 50 e 60, iniciava-se a "pasteurização" do pensamento e dos intelectuais: a força essencial das ideias era sublimada pela sua forma aparente. Uma camiseta beatnik era "bacana", mesmo que não se soubesse minimamente o que "significava" ou "expressava".
O filme Na Estrada (On The Road, EUA, 2012, dirigido por Walter Salles Jr., com Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Tom Sturridge, Viggo Mortensen, Amy Adams, Alice Braga, Steve Buscemi, Danny Morgan, roteiro de Diego Rivera) é a tentativa de resgatar para o cinema a principal obra homônima do beatnik Jack Kerouac. Os direitos do livro eram detidos há mais de vinte anos por Francis Ford Coppola, o notável produtor do filme e Salles Jr. resolveu filmá-lo há alguns anos e executou este projeto em outros tantos. Para isso montou um elenco que pudesse assumir o compromisso de longo prazo com as filmagens. Houve, portanto, um considerável esforço de produção para a consecução da tarefa. Neste ano, o filme foi badalado no Festival Internacional de Cinema de Cannes e recebeu algumas menções secundárias do júri.
O fato é que o filme não consegue minimamente converter a obra de Kerouac em ficção cinematográfica capaz de expressar a qualidade do livro. Nem mesmo, os esterótipos relacionados ao uso de drogas, aos excessos sexuais ou comportamentais, à música ou às personagens da "longa jornada na estrada" consegue se fixar nos olhos de quem assiste ao filme de Salles Jr. Ademais, um a um, os atores tem um desempenho muito ruim, sem dramaticidade, sem capacidade de tornar certas cenas comuns em algo "estranhamente artístico" o que sempre foi o objetivo de Kerouac. Sam Riley é visivelmente imaturo para um papel principal desta magnitude e não consegue desempenhar a personalidade complexa que Kerouac teceu ao (seu próprio) personagem. Kristen Stewart é apenas uma atriz bonita e sexy e não consegue ultrapassar esta fronteira, Kirsten Dunst parece conformada em seguir instruções do diretor e assim vai. O filme vai, logo nos primeiros minutos, se tornando enfadonho, sem maiores expectativas e do meio para frente, a torcida é grande para que tudo acabe logo. Nada de anti-materialista, espiritual, questionador, crítico ou reflexivo consegue ser extraído do filme. Apenas o que se vê é um amontoado de cenas que angustiam pela incapacidade de expressar e não por aquilo que expressam.
A direção é muito óbvia, com o jogo de câmeras sempre igual, especialmente ao longo da estrada. Uma eterna repetição. Aliás, lembra muito em alguns momentos "Os Diários da Motocicleta" do mesmo diretor sobre a trajetória de Ernesto Che Guevara na sua viagem pela América do Sul nos anos 50. 
Uma pena que este filme não tivesse atingido o seu objetivo de realimentar a memória de tão relevante obra da literatura moderna norte-ameircana. Perdeu-se uma excelente oportunidade de fazê-lo depois de tantos anos de o roteiro permanecer na gaveta. Perdeu-se e não foi na estrada. Foi na tela mesmo. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Um Novo e Grande Poeta: Fernando Dusi Rocha


Dentre os gêneros literários - a comédia, o drama, a tragédia, o romance, a novela, o conto - é a poesia aquela que encerra as maiores dificuldades para o autor e para o leitor. O poeta é essencialmente um criador em todos os aspectos deste gênero literário, restringindo-se não somente à forma do verso, mas ao caráter essencialmente subjetivo do texto e à sua elevação ficcional. Há um elenco de possibilidades que carrega o poeta cujas escolhas em verso traduzem um lirismo necessariamente irracionalista, mesmo que penetre à mente do leitor com poderes de produzir sensações mais diversas. Para o leitor, exige-se um grau de abstração resultante da ausência de um “estatuto próprio” deste gênero que possa situá-lo em termos de narrativa e forma. Tal qual a música, a poesia é recebida como uma espécie de sussurro ao pé de ouvido, uma confissão que não pode ser proferida em voz alta. Apenas mergulha na alma.
Nestes tempos em que a matéria domou o gênero humano, a poesia se acanhou enquanto preferência dentre os livros escolhidos nas prateleiras pelos leitores e com poucos editores capazes de redescobri-las em autores de qualidade no exercício da construção da qual nos falou Aristóteles na sua Poética. A poesia de qualidade brota com a flor de lótus por entre o imenso lamaçal de grande parte da literatura mundial e nacional. Parece um diagnóstico excessivamente duro, mas basta percorrer os corredores das livrarias para perceber esta realidade.
Há bênçãos, contudo. Fernando Dusi Rocha é destes poetas, escondidos em meio à vastidão do mundo e que é repouso para a alma do leitor e amante da poesia. Seu livro Crisol Com Açúcar (2011, Editora 7Letras) é simplesmente dotado de todas as virtudes para frequentar as boas prateleiras mentais e físicas, dos leitores e das livrarias. O poeta nasceu em 1961 em Ubá, a cidade carinho, terra de Ary Barroso, Antonio Olinto e Ascânio Lopes. Portanto, já tem raízes que deitam sobre a melhor terra da música e da literatura. É doutorando em literatura pela Universidade de Brasília, onde desenvolve pesquisa sobre o veio prosaístico das Cartas Régias do Padre Antônio Vieira. Seu primeiro livro, O exílio de Polifemo (2006), foi o 10º colocado na categoria Poesia do Prêmio Jabuti de 2007. É acadêmico voltado às letras, membro da Societè dês auteurs et poetes de la Francophonie, ensaísta e publicou artigos em diversos jornais e revistas nacionais e estrangeiros. Como se vê uma bagagem e tanto.
Todavia, seria apenas um acadêmico com estufada reputação, não fosse poeta do qual “escorre o poema” e se excede. Crisol com Açúcar é um livro bem cuidado, caprichado, ressonante. O termo Crisol, conforme explicado logo na abertura do livro, era o nome atribuído aos anarquistas catalães que se notabilizaram em 1922/23 no combate contra a “guerra suja” patronal contra os trabalhadores de Barcelona. Note-se, portanto, que o poeta, talvez revestido pela mansidão e delicadeza mineira, logo tratou de adoçar os combatentes revolucionários: eis o açúcar.
O livro é um compêndio poeticamente organizado de 36 poemas “afetados” e 32 “glosados”. São impressionantemente representativos da melhor poesia: o leitor vai passeando, nas palavras de Tvzetan Todorov, “na literalidade como uma pura configuração fônica, gráfica e semântica e, por outro lado, um discurso representativo (´mimético´) que evoca um universo de experiência.” Tudo isso, marcado por um lirismo transeunte entre o humor (contido) e certo ar fatídico. Vejamos uns poucos versos selecionados do poema  Ora et Labora, estúpido!:

tremi ao saber que jamais seria um anjo: apenas percebo
a angeolologia em papéis de cabeceira. Esse devão nunca
me degradaria nem me arrastaria a terras sem nódoas.

Ou no poema que dá nome ao livro:

que a humanidade oferecia:um verniz da verdade.
Nada mais faiscava no meu lado: só o gozo
daquele nosso crisol derretido em rapadura.

É rara a presença de um poeta entre nós com tanta versatilidade, sem que o uso desta palavra ressoe algo ligado ao utilitarismo do mundo hodierno. Como “poeta moderno” e mineiro, as formas do autor não estão circunscritas aos rondós ou aos modelos clássicos, mas bem que poderiam estar, uma questão de mera preferência formal. A temática poética que é proposta por Dusi Rocha para se expandir na mente do leitor pode perfeitamente ser reimaginada e novamente os versos são passíveis de serem reconstruídos para que a ideia possa ser completamente abarcada. É difícil, como já disse acima, esta tarefa poética. Não à toa, a sua escolha por formas mais fixas recai sobre os sonetos, a mais fecunda criação poética de vez que “vale mais que um longo poema” (Boileau) quando bem construído. A heterogeneidade da linguagem, as suas fábulas narrativas e as coletâneas de ideias são realmente merecedoras de leitura cuidadosa daqueles que tem a capacidade especial da abstração e do “entendimento” poético da apresentação/representação proposta pelo autor.
Crisol com Açúcar é um presente à poesia brasileira. Fernando Dusi Rocha, poeta mineiro de Ubá, precisa ser conhecido do público brasileiro e dos editores. È justo que os encontros literários voltem ao passado para comemorar os anos de nossos maiores escritores e poetas. Todavia, por tantas vezes, temos a chance de inaugurar o futuro e continuamos a cultivar apenas o passado. E apenas isso. Dusi Rocha está aí para, quem sabe com tantos outros poetas, inaugurar uma nova jornada com açúcar da poesia brasileira. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Gracias a Violeta Parra

Violeta Parra (1917-1967) pertence a um rol de artistas que se projetou diretamente de suas raízes para o mundo. Sem intermediários e influências laterais conseguiu ao longo de sua  carreira, iniciada aos nove anos, projetar uma musicalidade genuína e marcante nascida das montanhas chilenas diretamente para o mundo. Muito embora seu traçado artístico tenha sido aproveitado (e com a sua aquiescência) ideologicamente pela esquerda latino-americana pode-se afirmar que sua arte integra-se muito mais ao universo folclórico que ao tecido do pensamento da esquerda de língua espanhola da América. A isso também pode-se dizer de suas outras facetas artísticas menos conhecidas: as pinturas e o artesanato.


Interessante que apesar de sua vida estar fincada num período de extraordinária transformação política e econômica do Chile e da América Latina, a força de seus versos cantados está na intensa expressão artística das classes que ficaram permanentemente à margem destes processos. São os campesinos, mineiros, pequenos agricultores e os marginais do processo subcapitalista os inspiradores e os destinatários da obra de Parra. Todavia, esta obra ultrapassou as fronteiras chilenas e ganhou as mentes dos ideólogos e dos artistas mundo afora. Sua personalidade forte somada a uma imagem marcante e destoante da elite branca não impediu que a burguesia nativa se apropriasse de algumas de suas visões nacionalistas e raízes mais profundas do povo chileno. Além das músicas recheadas de conteúdo de protesto, há um lirismo penetrante em sua música, sendo a mais famosa Gracias a La Vida cantada por muitos intérpretes, dentre os quais a argentina Mercedes Sosa (1935-2009) e a brasileira Elis Regina (1945-1982).


Gracias a la vida, que me ha dado tantoMe dió dos luceros que cuando los abroPerfecto distingo lo negro del blancoY en alto cielo su fondo estrelladoY en las multitudes el hombre que yo amo

O recém-lançado filme Violeta Foi Para o Céu (2011, Chile/Brasil/Argentina, direção de Andrés Wood, com Francisca Gavillán, Tomas Durand e Christian Quevedo e roteiro de Eliseu Altunaga) recorda com certa veia poética a trajetória da cantora chilena. O mais impressionante do filme é a interpretação segura de Francisca Gavillán (atriz principal do filme Machuca de 2004). A semelhança física com Parra  é impressionante (a foto colorida é da atriz e a em preto e branco é da cantora) e a interpretação é firme e consistente, coisa difícil em personagens tão marcados e marcantes. O filme ganhou Prêmio do Grande Júri do Festival de Sundance, uma das razões para a ampla distribuição nos cinemas das principais cidades brasileiras. Violeta tem todos os ingredientes para agradar os públicos mais intelectualizados dos países do hemisfério norte. A composição de uma excêntrica musicalidade com os contrastes sociais que as letras de Parra projetam tem tudo para seduzir os públicos mais distantes da realidade deste canto do mundo. Para os brasileiros há algo de melancólico em ver a personagem e escutar as suas músicas. Afinal, tudo soa como se estivéssemos nos perdidos anos 60. De outro lado, é um aprendizado para os que não conhecem Parra. Neste particular, o roteiro deixa rastros de sua personalidade, mas falta para os que nada sabem da história de Violeta uma contextualização que permita que o espectador se situe temporalmente perante a personagem e a sociedade em que estava inserida.
Por estes tempos em que a antiga esquerda latino-americana perdeu suas referências políticas e artísticas é um deleite assistir a este filme e resgatar um pouquinho aqueles tempos nos quais algumas almas ainda se condoíam com os mais pobres, os marginalizados e os sofridos. A música era folclórica e a realidade dura. Hoje, as coisas parecem estar invertidas.