quarta-feira, 28 de julho de 2010

"Vincere": Um Filme Político que Alerta Sobre o Obscurantismo

Não deixa de ser impressionante como uma sociedade pode cair no obscurantismo político e social e fazer desmoronar os mais básicos dos princípios, tais como a liberdade e a justiça. A história nos ensina que há não tempo certo e nem ocasião própria para que os mantos escuros pousem sobre as sociedades. Ontem, hoje, sempre.
O filme franco-italiano Vincere (2009, dirigido por Marco Bellocchio, com Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi) trata destas questões de fundo ao contar a história de Ida Dalser que foi amante do ditador Benito Mussolini antes de sua ascensão ao poder em 1922. Mussolini teve com Ida um filho, batizado com o mesmo nome do ditador. Depois de abandoná-la, nunca reconheceu o filho e sequer o relacionamento que tivera com ela. Diante da insistência de Ida Dalser em ser reconhecida como "esposa de Mussolini", ela passa o resto da vida perambulando por monicômios como se louca fosse. A adesão das massas ao projeto político do ditador, o qual resultou no conhecido desastre da nação italiana, é o pano de fundo e a essência do filme. A história de Ida nada mais é que a tradução inequívoca de um drama pessoal que pode ser projetado além-muros da própria realidade de um ser. A morte de Ida e de seu filho, ambos enterrados em valas comuns e não-visitadas, é a morte dos próprios princípios da humanidade e da política. É difícil acreditar muitas vezes que isto possa acontecer.

Uma coisa é certa: a popularidade de um líder portador de um projeto como foi o fascista desmoraliza a idéia vulgar de que "a voz do povo é a voz de Deus". O adesismo momentâneo motivado por uma vida melhor diante das eventuais dificuldades pelas quais pode passar uma sociedade em troca do abandono dos mais profundos princípios é daquelas falácias que se tornam óbvias apenas quando se completa a tragédia. O nazismo e o fascismo foram o corolário das insatisfações sociais com as políticas liberais que dominaram o século XIX e início do XX. Hitler e Mussolini souberam extrair das insatisfações do povo a ação necessária para consolidar os seus projetos de horror. Os aplausos, inclusive da enorme parcela das elites, davam a impressão de que a história dava mais um passo à frente. Contrariamente, caía-se na mesma vala de Ida e seu filho. Franco, as ditaduras latino-americanas, Bush e seu 11/09, Stálin, Mao e tantos outros, nada mais são do que a variação tônica da mesma pauta. Todos tiveram substantivo apoio do povo. Ora, o povo! Partícipe ativo de sua própria traição. 
Vincere é um belo filme. Bellochio, o diretor, dá lições de cinema: incorporou um padrão modernizado do neorealismo italiano, usou a câmera de variadas formas e plenamente adequadas à cada cena: do close do jovem revolucionário Benito Mussolini  (nos anos iniciais do século) até o aproveitamento perfeito de imagens do verdadeiro Mussolini e seus histrônicos discursos. A bela atriz Giovanna Mezzogiorno é uma benção à interpretação: o sofrimento de Ida fica embelezado pelos lindos olhos verdes dela, mas a face não esconde o sopro trágico da alma de Ida Dalser .
Há poucos filmes de cunho político que atingem o objetivo de contar, ensinar, refletir e criticar a história. Bellochio consegue isto sem passar pelas "facilidades" do tema e as "vulgaridades" que facilitam a adesão da platéia. O povo aderiu a Mussolini. O filme é feito sem se importar muito em ser popular. A entrega filmada da história é um alerta para os nossos tempos, inclusive no Brasil. O obscurantismo é um fantasma eterno da liberdade. Ida Dalser vive para nos alertar.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Copa do Mundo é do Polvo! E do Jagger!

Caminhamos para assistir a final da Copa do Mundo da África do Sul entre a Espanha e a Holanda. De fato, não estamos diante de um espetáculo muito estimulante. Temos um concerto de interesses imensos, de empresas patrocinadoras, de empresários de jogadores, da mídia e da crônica esportiva cheia de opiniões, do turismo local, etc e tal. Em meio a tudo isto, um pouquinho de futebol porque ninguém é de ferro. Afinal como seria explicar a FIFA? Não há ironia que possa revelar algo diferente.
Talvez o único alerta que possamos fazer a esta altura da tertúlia futebolística seja o fato de que estamos diante de uma Copa já decidida. Não há razão alguma que justifique que a partida final aconteça. O campeão pode ser conhecido muito mais facilmente. Explico.
Desde sempre o homem é fascinado pela aferição do futuro. Os magos, profetas, gurus e assim vai, sempre estiveram a vigiar o futuro para os reis e poderosos. O povo ficava na espreita para ver se sobrava algum. No Templo de Delfos, na Grécia, as pitonisas entravam em transe e transformavam as suas palavras em previsões, ou melhor, em verdades incontestáveis. Aí residia o futuro e quem fosse sábio que apenas cumprisse o script.
Pois bem: temos de reconhecer que o polvo do aquário da África do Sul é a pitonisa moderna. Com os seus lustrosos tentáculos ele não erra: levanta a tampa do recipiente com comida e serve-se. Há dois recipientes, cada qual com a bandeira do país que vai disputar a partida. O recipiente escolhido representa o país vencedor da partida vindoura. O futuro está revelado.
Ora, pergunto eu: por que devemos perder tempo vendo TV se um polvo resolve a coisa toda?
Trata-se de um profeta de estirpe. Natan, Amós, Elias. Sei lá.
A única questão que me intriga é saber por que tantos "especialistas" em futebol não tem a mesma acuracidade. Por que aqueles comentaristas faceiros falam uma coisa e o que acontece em campo é outra?
Já especulei muito a respeito. Listei algumas razões (incertas):
1) O polvo tem muitos tentáculos e os "especialistas" tem apenas um cérebro. Nos dias de hoje melhor ter corpo que cabeça. Corpo bonito, é claro;
2) O polvo quer mesmo é comer o marisco dentro do recipiente. Vai lá e resolve. Os "especialistas" fingem que não comem, mas para comer tem de não resolver o problema;
3) O polvo é flexível. Os "especialistas" são cheios de convicções;
4) O polvo não precisa falar. Diz, assim mesmo. Os "especialistas" falam muito e não tem nada a dizer;
5) O polvo é remunerado por um marisco. Os "especialistas" tem de vender um monte de patrocínios;
6) O polvo sabe o que a coisa toda é simples. Os "especialistas" precisam explicar a tática, a técnica, o "momento da partida", o "craque da copa", etc.
7) O polvo não se importa com críticas, sequer tem ouvidos. Os "especialistas" precisam ser escutados, criticam, mas odeiam críticas e, antes de falar, verificam a quais interesses eles atendem.
Paro por aqui, pois chega de pensar, temos sete cogitações. Além disso, "sete" é número de mentiroso.
Há, porém, outra forma de decidir as partidas. Basta convidar o Mick Jagger e perguntar para que time ele vai torcer: como se sabe o ex-moço do rock´n roll é um pé frio danado. Mas, que ele decide, isso ele faz!!! Se disse que vai dar Inglaterra, escolha a Alemanha. Se torceu pelo Brasil, escolha a Holanda. Um craque magrela e com a boca beiçuda. 
Esta Copa do Mundo para mim não tem time bom. Tem apenas uma dupla que sabe de tudo: o polvo e o Jagger. Não assistirei a partida de domingo. Quero saber das coisas. Antecipadamente.



João Baptista, Entre a Saudade e a Compreensão

Para J.A.C, com o carinho que ainda é pouco...

“Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema,
Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos,
E que, para talhar-me um místico diadema,
Forçoso é lhes impor os tempos e universos.”    (Charles Baudelaire, As Flores do Mal)


João Baptista. Este era o seu nome. Nada mais, nada menos. Temos de reconhecer que o “p” de seu nome compõe um ar de nobreza, a absoluta ausência de obviedade. Podemos lembrar, ademais, o precursor do Salvador. Sua cabeça na bandeja, seu corpo, sei lá onde.
Todas as noites são frias. Afinal, as noites nunca são mais quentes que o próprio dia que as precedem. O sol ilumina, mas queima. A noite se vinga sem queima ou iluminação. Apenas esfria...
Em um certa noite, sem arrepios ou mitificação, João Baptista morria. Segurava a mão de uma moça que não era mais donzela, mas que naquele ato se travestia de dama. João Baptista. Quem há de lembrar este nome?
João Baptista era homem do romance.  Não tinha par, nem sequer tinha história. Era dono de bar, boteco, ou coisa assim. Vivia uma íntima opressão, torneada de palavras duras, conselhos óbvios: assim houve de ser, assim teve de ser. Tudo lhe parecia regado em saliva opressiva que o tornava ofegante, mesmo que não fosse fruto de uma caminhada mais acesa. Era dono de bar, boteco ou coisa assim. Todavia, o mundo era uma possibilidade e ele, sabedor de poucas coisas do mundo, sabia que este podia ser algo além da dimensão daquela pequenina cidade do interior de uma terra que não sei o nome.
João Baptista era um oprimido. Não que aquilo que o rodeasse fosse uma corrente ou amarra, mas porque o que o mundo podia ser algo mais universal, livre, belo e, assim mesmo, injusto.
Largou tudo porque o fizeram largar. Passivamente aceitava o seu destino. Amava as mulheres e se deleitava nos cântaros das bebidas e da boemia. Podia ser um negro liberto do século passado. Era um imigrante escravo dos tempos modernos.
Um belo dia apossou-se de feroz dádiva e disse: “existe algo além deste balcão de bar, boteco, ou o que quer que seja.”.
Comprou um caminhão e viveu a liberdade. Em cada porto, uma mulher. Em cada quilômetro um canto novo. Enfim, a liberdade. Lembrava as jogadas arrojadas de um certo artilheiro: Romeu, este era o nome do goleador do jogo de futebol. “Onde estará Julieta?” Nem sabia do velho Shakespeare, mas sabia de Julieta. O amor é óbvio, mas Julieta não é.
Andou sobre o motor quente daquele caminhão. Aonde foi? Onde pousou? Ninguém sabe. João Baptista era como os versos trôpegos de Pessoa:

“Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono
.”


A felicidade é como a sorte. Dura pouco, mas pode ser eterna. Como foi para João Baptista? Seu sotaque italiano não pode expressar por muito tempo a felicidade da solidão daquele caminhão a percorrer estradas infinitas. Sua sorte durou pouco. A eternidade veio-lhe como que sorrateira e lhe capturou os movimentos. Esteve doente e ninguém lhe socorreu. Estava sóbrio e ninguém o escutou. Estava preso e ninguém lhe visitou. Estava só e apenas ele compreendeu...
Doente e preso a uns poucos móveis João permaneceu. Sabia já na mente o significado da liberdade, mas sabia que esta era apenas um aforismo de suas tentativas vãs em vagar pelas estradas, sem ter aonde ir.
Sim, havia uma mulata ao seu redor. Antigo amor era agora uma trânsfuga de Deus: segurava a sua mão e acariciava o seu pé. Era tudo o que lhe bastava. Não era pouco. Era quase tudo.
João Baptista doente não era uma caricatura. A liberdade da vida é uma deformação, nunca ela existe límpida e fulgurante. Naquela cama a velocidade prometida já não era de caminhão caixeiro-viajante: a cadeira de rodas era a sua melhor promessa. Não havia reza que pudesse unir as suas mãos rígidas. O corpo ficara torto e amorfo tal qual os dogmatismos que nos empurram para os maiores julgamentos da história.
Não havia saudade porquanto tudo era presente. Não havia futuro, pois tudo era incerto. Meu Deus: João Baptista conheceu o tempo e o aboliu com sua própria enfermidade.
Há o tempo de se plantar, há o tempo de se colher. Há o tempo que não é tempo e este João Baptista conheceu.
Os sonhos nos projetam longe, mas o olhar dos homens nos aterra. João Baptista apenas sonhou, mas ele não sabia que eram sonhos. Nas mãos daquela mulata se sustentava o seu ser. A cama, a cadeira e a mesa num quarto frio (todas as noites são frias). Nada mais. Sem poesia e sem mistificação.
João Baptista morreu. Não houve obituário, nem versos solenes nem discursos. Houve apenas o seu próprio sorriso. Aquele homem sabia o que era a liberdade mesmo que nunca a tenha gozado. A liberdade não era tardia como em Tiradentes. Era apenas uma criação intestina da mente. Naquele caminhão, depois do balcão do bar. Numa direção que não tinha destino.
João Baptista não tem juízes e nem sentença. Tem apenas o seu próprio litígio com a vida. Deixa um legado infinito que apenas a ele próprio serviu. Não tem herdeiros, pois não tem herança. Passou na vida como um vento quente em meio à noite fria que lhe lavrou a própria alma.
Saudade de João Baptista. Ele não se importou com nada, mas eu me importei com tudo. Fosse preso no balcão do bar ou na ilusão de liberdade que carregou até a noite que o levou.
Saudade de João Baptista. Eu o enfrento de dia e o sinto à noite que já não é tão fria.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

De Sica: Genial, Humano e Elegante

O encontro da arte com a política sempre foi um tema complexo, mesmo que se reconheça de forma relativamente generalizada que não há possibilidade de separá-los. No caso específico do cinema, a projeção na tela é talvez uma das manifestações mais efetivas da realidade/arte humana. Não há como um diretor fugir do zeitgeist (espírito do tempo) em que vive.
O neorealismo italiano foi um dos movimentos de pensamento sobre o cinema que mais revolucionou a forma de pensar da "sétima arte". Seus principais expoentes, Luchino Visconti, Roberto Rosselini e De Sica deitaram raízes da realidade social e política na película de projeção. Um movimento marcado pelo excesso de criatividade e de coragem temática em meio ao desenvolvimento da moderna Itália. Daí para o mundo. Seus filmes influenciaram grandes diretores comtemporâneos, dentre os quais, Elia Kazan (Sindicato de Ladrões, Um Bonde Chamado Desejo), Paul Mazursky (Mulher Descasada, Tempestade), Woody Allen (Bananas), Steven Spielberg (Lista de Schindler) e tantos outros. Juntamente com a Nouvelle Vague, o neorealismo raiou como um sol de meio-dia e esquentou o debate sobre cinema com a sua estética arrojada e visão política e social.
O italiano Vittorio De Sicca (1901-1974) foi certamente o príncipe deste movimento: a beleza de seus filmes somada a uma personalidade instigante, sedutora e inteligente são marcos essenciais do movimento neorealista. É isto que está retratado com grande elegância, talento e vasto conteúdo no documentário Vittorio de Sica - Minha Vida, Meus Amores (Itália, 2010, dirigido por Mario Canale e Anna Rosa Mori). Esta dupla de diretores já assinou outro documentário que possuiu a mesma estética sobre Marcello Mastroianni (Marcello - Uma Vida Doce).

O documentário é fascinante como o diretor italiano. Pode-se perceber toda a humanidade de De Sica. O documentário mostra o diretor traçando cuidadosamente a cenas de seus filmes com o carinho que se dispensa a um bebê. Sabia colocar a câmera no olho da idéia e, a partir daí, variava a forma conforme o imperativo daquilo que desejava transmitir. Era jogador compulsivo e perdeu nas mesas dos cassinos grandes fortunas a ponto de fazer filmes bem comerciais para pagar as suas dívidas. Teve e amou duas mulheres ao mesmo tempo e de ambas teve filhos. Era capaz de dar o seu sobretudo para um morador de rua, um ato de abnegação sem a costumeira promoção que se extrai deste tipo de atitude no ambiente pop dos dias de hoje. Era um aristocrata no vestir e agir, mas amava os atores desconhecidos que protagonizavam os seus filmes, muitas vezes em detrimento de estrelas consagradas.
Do meu ponto de vista seus melhores filmes são Ladrões de Bicicleta, Umberto D. (sobre seu pai) e Milagre em Milão. Entretanto, Matrimônio à Italiana Ontem, Hoje e Amanhã são igualmente brilhantes.
Acredito que é uma espécie de dever republicano o cinema refletir sobre a realidade política e social, preservando, ao mesmo tempo, a elegância e o "estranhamento" na forma. Quando assistimos a um filme que nos ilustra o que vivemos em seus detalhes ganhamos um sentido de totalidade que perdemos nesta era em que a fragmentação dos meios e a avareza dos fins está por destruir o próprio ser humano. Por dentro e por fora. De Sica sabia disto e mostrou sem medo de errar. 

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago: Iconoclasta e Dogmático

Sobram análises e elogios a José Saramago depois de sua morte neste 18 de junho de 2010 aos 87 anos. O escritor português finalmente encontrou repouso na sua casa nas Ilhas Canárias (exatamente na Ilha de Lanzarotte). Sua obra sempre foi inquietante.
A obra de Saramago é muito comemorada como inovadora - utilizou a língua portuguesa com um estilo seco em meio a frases longas e pontuação nada obediente aos preceitos e tradições clássicas da gramática da última flor do Lazio. No que diz respeito à temática soube ultrapassar limites óbvios que estavam dispostos ao tempo e à realidade que viveu e conviveu. De todo o modo, dos temas de seus livros podemos destacar que, em cada parágrafo ou capítulo de seus livros, podia-se observar a oscilação constante entre a ficção e a não-ficção. Algo frenético, intenso, questionador e angustiante. É o caso de Ensaio Sobre a Cegueira e Memorial do Convento. Em poucos livros - destaco O Ano da Morte de Ricardo Reis - a profundidade da ficção se torna mais clara e muitos aspectos são explorados sob o manto de uma literatura, digamos, menos engajada à realidade, mais voadora e com latitude romanesca.
Suspeito que a sua maior preferência tenha sido a de ser um ficcionista polêmico.  Seu melhor papel. Aí é onde se destaca mais pelas inferências e intervenções racionais no contexto de sua literatura. O Evangelho Segundo Jesus Cristo é marco desta sua característica. Nele Saramago parece mais realizado e exercitando a sua imaginação em nome de uma coerência pessoal no que diz respeito ao seu ateísmo e seu anti-clericalismo. No mundo hodierno talvez esta sua face tenha se tornado mais sedutora aos olhos de críticos literários, bem como dos pensadores de nosso tempo. A rebeldia é sempre mais sedutora e, convenhamos, exerce além do fascínio uma espécie de "efeito congelante" sobre o pensamento crítico do leitor/pensador.
José Saramago reunia uma série de atributos que lhe permitiam que a coroa de iconoclasta lhe caísse bem: nascido de uma família pobre, foi trabalhador pouco especializado e tinha uma extraordinária capacidade autodidata. Logo aos 22 anos publicou seu primeiro livro depois de anos de uma educação formal deficiente. Foi um ícone da esquerda mundial e de muitas formas seu porta-voz.

A glória, não apenas literária, de Saramago é, obviamente, produto de seu tempo. Todavia, não se pode atribuir-lhe posições avançadas. Não era um visionário, era um crítico do presente que utilizava ferramentas arcaicas do passado. Nunca revisou seus conceitos stalinistas, estes muito além dos marxistas. Seu ateísmo sempre me pareceu uma decorrência natural de sua visão política e não fruto de uma mastigação demorada e intelectual. Deus não parecia caber no homem e vice-versa. Porém, o homem de Saramago foi igualmente construído à semelhança da visão cética de uma religião, no caso, o marxismo. Ele foi um devoto do materialismo que, pouco a pouco, na sua literatura e na construção de suas opiniões pessoais, foi fossilizado em dogmas rígidos. As críticas que dispensava ao mundo católico saíam de sua boca e pena, ambas devotadas aos mais duros e intransigentes dogmas. Neste sentido, não há revisão crítica nem em sua vida e nem em sua obra.
Há, ademais, uma incoerência intrínseca de seu pensamento - se é que existiu um. Saramago é fruto de muitas experiências que se propagaram mundo afora e lhe permitiram chegar ao Nobel de Literatura. A mais importante é a liberdade que gozou como poucos privilegiados e, muito provavelmente, não gozaria no regime soviético - apenas para citar o mais óbvio. Contestava um capitalismo que lhe deu abrigo e promoção. Criticava a Igreja Católica e os cristãos sem que fosse capaz de entendê-los no tempo. Falava de justiça, mas de uma justiça estrangulada pelos seu dogmas cultivados e deixados numa estante a vigiar os seus pensamentos. Afirmava que a "democracia agonizava no mundo", mas nunca foi capaz de estruturar o significado da própria construção frasal.

Em A Viagem do Elefante de 2008 ele nos contou a história do transporte de um elefante de Goa (Índia) até a Aústria, passando pela Espanha e Portugal. Tudo se passa no século XVI. Aquela transição exótica do elefante é uma espécie de uma longa tentativa de Saramago de transfigurar o ser humano. Não conseguiu. Sua mente ficou petrificada nos seus próprios limites dogmáticos. Embora voassem suas idéias literárias, o homem de Saramago permaneceu na sua tumba, sem chance de reviver e exercer seu potencial criativo. O homem de Saramago foi condenado pela Inquisição do célebre escritor português. Mesmo assim, a liberdade manda lembranças e aplaude a sua grandiosa obra literária. 



terça-feira, 8 de junho de 2010

Em "Sex and City 2" a Hipermodernidade é Explícita

Há aqueles que criticam o vazio e o consumismo do filme Sex and the City 2 (EUA, 2010, direção de Michael Patrick King, com Sarah Jessica Parker, Kristin Davis, Kim Cattrall, Cynthia Nixon, Jason Lewis, David Eigenberg e Chris Noth). Há aqueles, ainda, que se divertem com o filme e disfarçam as suas próprias ambições, o desejo de cada um ser aquilo que assistem e as suas próprias frustrações em não viverem o que as mulheres-personagens saboreiam intensamente. Bom, estas são duas percepções que podemos extrair do ponto de vista "negativo" do filme. Todavia, há algo no ar que sai das salas de exibições no sentido norte das sociedades modernas. Como nos ensina Gilles Lipovetsky em seu livro "Tempos Hipermodernos":  
"(...)a modernidade passou para uma velocidade superior em que tudo hoje parece ser levado ao excesso: são os hipermercados, o hiperterrorismo, as hiperpotências, o hipertexto, hiperclasses, enfim, o hipercapitalismo. O que isso significa? Que a modernidade não tem mais limites, não tem mais críticas fundamentais em relação a si mesma". 
Estamos inseridos neste mundo onde a significação intrínseca das coisas é a própria coisa, o seu sabor imediato, o seu caráter hedonista e que se esgota com grande impacto e de forma instantânea. Os limites da modernidade inexistem e são transportados para o interior de cada ser. As personagens do filme nada mais são do que o espelho concreto (e ao mesmo tempo imaginário) da sociedade que vivemos. E se não vivemos ainda nesta sociedade, por quanto esta pode nos ser inacessível, há ainda a ambição e o desejo que podemos motivar dentro de nossa alma.

Sex and City 2 é uma aposta ainda mais ambiciosa na "coisificação" do espírito, na excessiva individualização da vida. Em certos momentos aquelas mulheres parecem estar reunidas para "curtir" juntas os prazeres de uma viagem exótica. Todavia, elas estão sós, sem maiores divagações coletivas e, de momento em momento, olham para os lados para verificar se o script da hipermodernidade está sendo cumprido: as roupas e bolsas da moda são oportunidade inequívoca de se afirmarem, os comportamentos tem de estar enquadrados em uma moldura, ao mesmo tempo, previsível e obrigatória. A realidade é esta e ponto final.
Os esterótipos são reais e efetivos: a viagem aos Emirados Árabes Unidos é a manifestação mais cristalina de tudo isto. Os árabes são travestidos de idiotas, o exótico é incorporado como se fosse um adereço e as personagens secundárias estão ali para servir aquelas moradoras de New York. O sexo oscila entre o comportamento falsamente moralista de Carrie (Sarah Jessica Parker) e a volúpia descabida e possível da personagem de Kim Catrall. Esta última já beira a menopausa, mas tenta conter o inevitável do tempo com suas 34 pílulas diárias de hormônios. Mais um pouco poderia engravidar, mas o que ela quer mesmo é o pênis alheio.
Tudo isto pode parecer novo, mas nem tanto é. William Shakespeare, já sentenciava na voz de Lady Macbeth na cena II de sua famosa peça:
" Nada se ganha e tudo se perde, quando nosso desejo fica satisfeito sem contentamento.Mais seguro é ser o objeto que destruímos, mais seguro do que habitar uma alegria duvidosa, construída pela destruição."
Não sejamos tão céticos ao assistir este filme. Incorporemo-nos por entre os objetos e nos deixemos consumir. Nem importa que Sarah Jessica Parker (Carrie) não seja tão deslumbrante (tem as pernas excessivamente tortas), que Cynthia Nixon (Miranda) esteja visivelmente acima do peso, que Kristin Davis (Charlotte) manifeste explícita masculinidade ou, até mesmo, a Kim Catrall (Samantha) seja apenas uma mulher ex-sexy  e, até mesmo, meio caída. 
Nesta infinita aparência do filme, podemos nos divertir e assistir os passos dos personagens que incorporamos na nossa própria vida. A produção bem acabada do filme, sem nenhuma invenção cênica ou estilística, nos dá a oportunidade de nos ocuparmos em desejar, e se pudermos, consumir tudo que lá está. (Atenção: o filme tem quase três horas!). Neste contexto, sequer a defesa das liberalidades hipermodernas tem conteúdo valorativo: o casamento gay, logo no início do filme, não passa de uma ocasião para revelar toda frivolidade vivente. O espetáculo da festa seria homofóbico não fosse tão sintonizado com a forma e a aparência hipermoderna. Os gays também são objetos de consumo.
Por fim, podemos pensar no que as mulheres que empreenderam as primeiras lutas feministas poderiam pensar sobre Sex and City 2. A revolução que elas preconizaram quis jogar o "ex-sexo fraco" dentro do sistema de trabalho e dos valores culturais dominados pelos machos. Sex and City 2 não apenas mostra como demonstra que a tarefa daquelas revolucionárias foi cumprida. Com a vantagem de que não há muros de Berlim para tombarem. As mulheres continuam a viajar, a fazer sexo selvagem, a comprar roupas caras e a trabalhar para pagarem tudo isto. O universo que nós temos é este e não há ninguém que queira mudá-lo. Os machos simplesmente entenderam a jogada. Fazem o jogo com algum prazer e muito cinismo. 

domingo, 23 de maio de 2010

Robin Hood: Scott Mostra Serviço

"Magna Charta Libertatum seu Concordiam inter regem Johannen at barones pro concessione libertatum ecclesiae et regni angliae". Este é o nome do documento em torno do qual gravita o roteiro de Robin Hood (EUA, 2010, dirigido por Ridley Scott, com Russell Crowe, Cate Blanchett, Max Von Sydow e William Hurt). Trata-se da "Grande Carta das liberdades, ou Concórdia entre o rei João e os Barões para a outorga das liberdades da Igreja e do rei Inglês", ou simplesmente "Carta Magna" de 1215, assinada na Inglaterra entre o rei João Sem Terra e os nobres de seu reinado. Tal documento foi o primeiro, dentre os mais importantes, a traçar os limites básicos do constitucionalismo moderno. Nela estão contidos os deveres e direitos relacionados à aplicação da justiça, à cobrança de impostos, ao direito de ir e vir (habeas corpus) e à disposição generalizada da justiça e do direito aos cidadãos.

No contexto político de então, Ridley Scott arma o seu cenário: Robin não é ainda Hood, mas Locklsley. Não vive na floresta de Sherwood, mas inicialmente na companhia do Rei Ricardo Coração de Leão e, posteriormente, sente-se moralmente obrigado a cumprir uma missão de lealdade, a partir da qual, o filme segue mais celeremente e de forma empolgante. A alternativa escolhida por Scott não deixa de ser notável, na medida em que fugiu das mesmices que acompanham os filmes produzidos posteriormente aos malabarismos de Errol Flynn no filme "As Aventuras de Robin Hood" de 1938. Há na filmografia de Hollywood pelo menos cinco filmes que tentaram, em diferentes épocas, construir a imagem do "bom ladrão" de Sherwood. Mais recentemente (1991) Kevin Costner criou um patético Robin, mais afeito às temperaturas amorosas que aos recantos de Sherwood.
Se, de um lado, Ridley Scott, consegue fugir ao tradicionalismo dos roteiros do herói, de outro, este passo não é neutro: o que vemos na tela é um personagem mais sóbrio, menos romântico  (troca pouquíssimos beijos com o seu par romântico) e muito mais cavalheiro que cavaleiro. Sua flecha continua precisa nos intentos justiceiros que empreende, mas este é mais um recurso de imagem que o "centro" do roteiro. Há, mesmo sendo um filme para o grande público, traços políticos neste Robin. Sua percepção está alinhada com o povo que o cerca e ele é um credenciado político entre o baronato e o instável e sanguinário rei. Sabe ser republicano - perdoe-me o trocadilho.
Apesar do rosto mais sério de Robin Locksley, o filme é divertido e consegue entreter, apesar do barulho da pipoca do vizinho e de sua mastigada sonora. A fotografia é perfeita, os cenários, sobretudo os externos são adequados às pretensões de Scott, e os fatos contados estão muito bem editados do ponto de vista do tempo e do espaço. Interessante notar que os velhos truques cênicos e de câmera de Ridley Scott estão todos reproduzidos no filme. Em certos momentos a comparação com Gladiator são inevitáveis, ou mesmo, há sensação de que regressamos ao antigo filme sobre o Império Romano decadente.
Cinema foi feito para divertir, mesmo que isto não lhe retire o dever de esposar a alegria de estar diante da tela com certo espírito crítico e elevado. O Robin Hood de Scott consegue cumprir a sua parte. Acertou no alvo.

sábado, 22 de maio de 2010

O Documentário "Utopia e Tragédia" Trata do Ópio

Karl Marx afirmou que a religião era o ópio do povo. Parafraseava Hegel e Feuerbach. A religião era vista como uma anima que acalenta o espírito crítico e joga o homem na alienação. Em 1955, o filósofo francês Raymond Aron (1905-1983) escreve O Ópio dos Intelectuais no qual coloca a pecha alienante no marxismo e sentencia que "o marxismo é o ópio dos intelectuais". Ainda hoje a análise marxista seduz substancial parte da intelectualidade e pode-se afirmar que o marxismo é uma espécie de religião, cujo principal dogma é a convicção de que é possível construir um novo homem, não a partir de Deus, mas a partir de uma construção intelectual feita da ideologia.Ler a história é algo difícil. Percebê-la é tarefa árdua e algumas vezes impossível. Fazê-la pode parecer muito mais fácil.



O documentário Utopia e Tragédia, dirigido e produzido por Silvio Tendler é um caudaloso relato da história mundial e brasileira desde a última guerra mundial. Nele os conflitos humanos, políticos e militares são como digressões de uma narrativa, ao mesmo tempo cheia de esperança (e não propriamente utopia) e ideologia. Uma coisa é nítida: a tragédia humana está lá e, mesmo que a conheçamos muito, ainda é doloroso vê-la através da lente de um cineasta? os corpos dilacerados, decapitados e torturados. 
Sílvio Tendler (1950-      ) é o autor de alguns dos mais importantes documentários brasileiros, notadamente  Os Anos JK Jango. Em Utopia e Tragédia ele ilustra de forma mais evidente a sua própria personalidade de cineasta na medida em que faz o tempo correr em parâmetros bem pessoais: na velocidade que estabelece, na seleção particular dos fatos e, sobretudo, utilizando-se de uma interpretação de tais fatos com fortes temperos utópicos. Demorou 19 anos para concluir este documentário. Todavia, este ainda parece estar na sua fase primeva.

Para Tendler a utopia é o pano de fundo, conforme já escrevemos. Para quem assiste ao documentário a sensação é que toda aquela utopia não passa de uma esperança, de um devaneio ou, até mesmo, de um delírio. Se houve o holocausto dos judeus não é porque houve uma utopia nazista, mas um louco e assassino delírio que atendia aos anseios libertadores do povo germânico. Se duas bombas atômicas caíram sobre o Japão, não foi em função da utopia salvacionista de "milhares de vidas dos jovens americanos" (Truman), mas porque os EUA se firmavam como potência dominante, inclusive do ponto de vista militar. Bom, é possível que a primavera de Praga tenha engendrado utopias, mas é pouco provável que o famoso maio de 68 em Paris tenha ido além de um mal desenhado anarquismo estudantil.
Aqui, pelos lados da América Latina, a utopia da esquerda não era apenas limitada, mas assumida pela esquerda como uma fatalidade da história e não como processo de construção. A leitura de Marx ou do Livro Vermelho de Mao Tse Tung não engendrava utopias,  mas maquinava idéias de como alçar vôo rumo ao poder que, uma vez assumido, legitimaria massacres como os de Stálin e Mao. Não tenhamos ilusões. Hoje, ainda podemos ver cá no Brasil que a esquerda é apenas uma caricatura ideológica que nada tem de utópica.
Obviamente, sabemos que os anti-utópicos acabaram vencendo a peleja, mas isto não se deu em detrimento de uma utopia que existia do lado de lá. Ao contrário, a ideologia socialista e comunista era de um realismo sanguinário. Sejamos sinceros, ora pois. Nixon, Pinochet, Medici, Vedela, etc. e outros comparsas foram ditadores competentes na tarefa de prender, torturar, matar e exilar. Nunca apregoaram uma utopia, em que pese a propaganda tão apreciada pelas elites. Prá Frente Brasil é slogan de qualidade criativa em meio a fatos históricos deploráveis. Nada mais, nada menos.
Assim sendo, falta a Tendler um espírito crítico mais refinado e disposto a rever os fatos e separar farsas e acontecimentos e, cuidadosamente, dissecá-los sem as vendas ideológicas que brilharam em seu documentário. Sobra elegância narrativa, falta visão crítica. Tudo soa como os sons da juventude: cheios de vigor e inconsciência. O espectador merecia mais depois de tanto tempo e tanta história. Tendler se comporta como um jovem: seduz, mas não explica. Este filme vale a pena ser assistido, mas se faz necessário que o espírito desperte depois de assisti-lo para não se cair na tentação de ficar no devaneio da história. Há algo de ópio no ar. 
Por fim, utopia e tragédia não parecem lados de uma mesmo moeda da história. Vendo o filme, tudo se parece mais como um trem descarrilado, onde a locomotiva da história segue freneticamente em frente, enquanto os vagões da direita e da esquerda são arrastados. Certamente chegamos ao destino do futuro, mas não conseguimos entender o passado. A melhor representação desta imagem são os depoimentos de Apolônio de Carvalho e Dilma Rousseff: estão encantados com o seu próprio tempo, mas não conseguiram entendê-lo. 
Marx e Aron ainda estão a debater sobre os efeitos do ópio, sobre a alienação do povo e dos intelectuais e o filme de Sílvio Tendler é uma evidência disto.  

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Guerra Civil Espanhola Num Bom Livro

A esgarçadura do tecido social das nações e as suas trágicas conseqüências sempre foi um desafio para a análise e detecção dos fatos que provocaram a radicalização de correntes e segmentos políticos. A escolha dentre os fatos históricos estudados não é um processo seletivo simples. Certos movimentos, fatos e processos podem parecer determinantes para a eclosão de mudanças, mas nem sempre são. E vice-versa. Isto porque a política tem um andamento marcado por nuances que vão do proselitismo de seus partícipes até fatores que contribuem para consolidar mudanças estruturais e novos paradigmas. No caso dos processos revolucionários estas características se tornam ainda mais difíceis de serem destrinchados. O historiador não pode cair na cilada de agir nem como um repórter dos fatos e nem analisá-los como se estes fossem processos econômicos, sociais ou políticos. Há que se ter muita arte.
A Batalha pela Espanha – A Guerra Civil Espanhola 1936-1939 (The Battle for Spain – 2006 – Editora Record- Tradução de Maria Beatriz de Medina) do escritor inglês Antony Beevor é uma interessante obra que conta em detalhes a guerra civil da Espanha. O escritor é um ex-militar, membro do notável regimento dos Hussardos do exército britânico e autor de Berlim 1945: A queda e O mistério de Olga Tchekova e Stalingrado. Todos os livros do autor receberam aplausos dos críticos e boa recepção dos leitores em todo o mundo.
O livro é uma obra detalhada e que segue a cronologia dos fatos, amarrando-os de forma relativamente segmentada: relata a evolução das campanhas militares entre os Nacionalistas de Francisco Franco e os Republicanos, o amontoado de partidos de esquerda, bem como a lógica do poder e a sua conquista (ou não) por parte de cada uma destas correntes. Note-se que a Alemanha de Hitler fez a sua reestréia militar depois da I Guerra Mundial nos campos espanhóis, apoiando Franco e estabelecendo com ele uma relação solitária relativamente aos países democratas de então, sobretudo o Reino Unido. De outro lado, a jovem nação socialista, a Rússia, abria o seu front mais a oeste. Era a guerra fria de então.
A Espanha durante o final do século XIX e até meados dos anos 30 do século seguinte passou por mudanças bruscas, da Monarquia decadente para a República incipiente, pela dinamização das classes sociais dentro de um processo de urbanização, pela formação de sindicatos atuantes, pelas divisões e subdivisões dos partidos políticos (da extrema esquerda à direita reacionária) e pela crescente interferência do poder militar sobre o civil. Não houve naquele país nenhuma força centrífuga na política que evitasse a cristalização das posições de cada lado e o subseqüente choque militar que resultou numa das mais cruéis e fraticidas guerras civis no Velho Continente.
Estudar este processo é interessantíssimo não apenas para entender a Espanha de então e de hoje, mas também para perceber os enormes erros de diagnósticos dos políticos (e militares) no que se refere ao processo social e político. Destes erros nasceu a ausência de qualquer visão civilizada que neutralizasse os extremos e viabilizasse uma saída reformista. Beevor relata tudo isto e dá ao leitor múltiplas possibilidades anlalíticas, inclusive a de transportar para a nossa realidade atual algumas das visões equivocadas da direita e esquerda de então na Espanha e de seus parceiros estrangeiros.
Por fim, vale mencionar que Antony Beevor, dada a sua formação militar, dá um peso substantivo às estratégias militares e o desenrolar das batalhas. Isto torna o livro um pouco confuso em alguns momentos para os leitores leigos sem que isto comprometa o resultado abrangente ofertado ao público.
A guerra nunca é fascinante. Todavia, os processos por ela engendrados são fascinantes para aqueles que pensam as ciências sociais ou estão interessados na história de seu próprio país. Não fosse o custo humano, a guerra seria um jogo educativo no qual os resultados são sempre negativos, mas determinantes da história. Entendê-los é entender as contradições e sínteses das sociedades. Eis uma leitura interessante, muito além das suas pretensões específicas. 

terça-feira, 4 de maio de 2010

Alice no País das Maravilhas: Tecnologia e Fantasia

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA, 2010, dirigido por Tim Burton, com Mia Wasikowska, Johnny Depp e Helena Bonham Carter) é uma produção espetacular. O filme em 3D é um show contínuo que mistura uma estória bem estruturada com uma tecnologia de ponta que é capaz de conter até mesmo as emoções. Pouco importa o percurso de Alice no reino da Rainha Vermelha. A captura do espectador ocorre, tal qual em Avatar, por meio da impecável e detalhada produção. Sequer sinto-me capaz de tecer maiores observações sobre a direção do comemorado diretor Tim Burton. Nem mesmo o constrangedor óculos escuros retira o prazer de acompanhar a evolução do filme. (Diga-se de passagem que o óculos cumpre duas funções: assistir ao filme nas suas três dimensões e lembrar o espectador que o arcaico ainda persiste entre nós. Graças a Deus!).
Alice é uma criação extraordinária de Lewis Carroll (1832-1898). O livro foi lançado em 1865 e, desde então, tornou-se referência magna na literatura infantil. Interessante que os dois livros de Carroll (cujo nome verdadeiro era Charles Lutwidge Dodgson), Alice no país da maravilhas As Aventuras de Alice Embaixo da Terra são recheados de mensagens cifradas, enigmas, equações matemáticas e proposições de lógica. Um livro para crianças que possibilita aos leitores adultos (que lêem inglês) decifrar outros achados não-literários. Voltemos ao filme.
O grande tema de Alice é a relação entre fantasia e realidade. O fato de ser um filme em tese para crianças não lhe retira os predicados mais humanos e profundos: lá estão o bem e o mal, a esperança e o desespero, a malícia e a pureza e assim vai.
A bem da verdade, a mistura de uma estória tão iluminada do ponto de vista criativo com uma tecnologia impressionante que nos joga nos olhos as imagens em três dimensões não seria uma necessidade. A fantasia ilumina a mente e faz voar. Bastam as palavras para que a criança exale para si mesmo o bom cheiro da imaginação. Neste contexto, um filme 3D acaba por separar a fantasia do próprio show cinematográfico. Não há sequer tempo mental para que nos recaia uma fantasia no filme de Burton. As imagens tecnológicas são a essência do filme e não a fantasia. Aliás, diante do peso de tantos artifícios, a fantasia em verdade se esvai.

Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho), Herman Melville (Moby Dick), Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro), Daniel Delfoe (Robinson Crusoé) e tantos outros grandes escritores infanto-juvenis não precisaram de um filme em três dimensões para alimentar e engrandecer a fantasia de tantas gerações. Suas palavras, fossem lidas em silêncio ou escutadas dos lábios doces de mães e pais, eram capazes de produzir imagens variadas na mente de cada um. Tudo com o impulso da idéia transmitida e da sonoridade das palavras. Uma benção. A glória de um autor.
Todavia, a história não faz concessões aos fatos. as coisas são como são: as três dimensões estão aí e é para ficar. Resta saber se a ela sobreviverá a fantasia. Isto dependerá sobretudo da habilidade e inteligência dos diretores em incorporar a mística que os autores deixaram na forma de livros. No caso de Alice isto não foi conseguido. A realidade e não a fantasia é despejada para o público, o qual parece agradecer encantado com os rigores tecnológicos que produziram um cenário inesperado. Pegar um livro e ler está parecendo coisa para dinossauros. 


sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cidadão Kane: O Retrato do Poder

Ao assistir novamente Cidadão Kane  lembrei-me das últimas linhas de Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray que narram o assassinato de Basil Hallward e a destruição da tela que tanto atormentava Gray. No último parágrafo há uma lapidada sentença de Wilde: "No chão jazia o cadáver de um homem em traje a rigor com uma faca cravada no peito. Ele estava lívido, enrugado e repugnante. Só pelos anéis é que os seus criados conseguiram identificá-lo."
Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941, dirigido por Orson Wells, com Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Everett Sloane e outros) foi a faca empunhada por William Randolph Hearst  que matou a carreira de Orson Wells. Até o final de sua vida ele não conseguiu mais fazer nenhum filme significativo. Suas últimas "obras" foram comerciais de TV sugerindo o consumo de bebidas que jamais ele tomaria. Tinha 24 anos quando concluiu Cidadão Kane - foi o seu auge.
William R. Hearst (1863-1951), um dos maiores magnatas da imprensa norte-americana e mundial até os anos 40, destruiu a carreira de Wells, mas não conseguiu, como Dorian Gray, destruir a "tela" que tanto atormentou.
Cidadão Kane é uma obra que se projeta até hoje como uma magnífica interpretação cinematográfica das entranhas do poder, da manipulação da opinião pública, da megalomania frenética dos poderosos e da ausência de escrúpulos e limites éticos nas relações pessoais, sociais e políticas. Isto mesmo: tudo isto.
É tarefa hercúlea fazer restrições de qualquer natureza ao filme de Orson Wells. Ele não é a perfeição porquanto esta não existe. Todavia, a equação que Wells montou e decifrou para montar o filme é genial. 
O filme conta a trajetória de Charles Foster Kane, herdeiro de uma imensa fortuna, mas que prefere iniciar a sua carreira profissional a partir de um pequeno jornal. Desde sempre, Foster sabia que era mais importante controlar as mentes do que os meios de produção mais aparentes, suas minas, fábricas e imóveis. Kane é o retrato de Hearst, mas ao escolher esta história, Wells sabia que estava indo além dos limites biográficos daquele poderoso magnata. O poder é indescritível, mas as suas manifestações e mecanismos são passíveis de serem conhecidos. Maquiavel já tinha nos legado este ensinamento, não é mesmo?
O roteiro, do qual o próprio diretor é co-autor juntamente com Herman J. Mankiewicz, foi inovador ao selecionar um fato específico e desconhecido (a descoberta do significado da última palavra pronunciada pelo protagonista antes de sua morte "Rosebud") para encaminhar toda a estória. Tudo começa com a morte do personagem principal, também estrelado por Wells. A partir daí segue-se uma longa e detalhada descrição dos fatos da vida daquele poderoso chefão da mídia. Wells vai a fundo e escolheu meticulosamente os fatos e as cenas que melhor instruíam o público na direção do que desejava transmitir.
É possível achar defeitos em Cidadão Kane, mas esta é tarefa hercúlea: as tomadas das câmeras são excepcionais e inovadoras, a luz e os cenários são quase sempre perfeitos e a atuação do elenco - sem celebridades, exceto o próprio Orson Wells - é exemplar. Sente-se em todos os cantos da tela o toque genial de Wells, o menino de 24 anos. No filme, há uma mescla de teatralidade com uma calculada artificialidade, ou seja, ao assistir o filme, nota-se que Wells não se preocupou em ser realista do ponto de vista cênico. Ao contrário. Para ele o que era importante era criar o cenário, o diálogo , a fotografia, a música e as tomadas, como elementos "necessários" para que a "idéia" do filme chegasse não somente aos olhos dos espectadores, mas também às suas mentes. O resultado é tão explosivo quanto foi a raiva de William R. Hearst ao ver as suas tripas expostas pelo jovem diretor.
O tempo para Cidadão Kane continua a passar muito lentamente. O argumento do filme é não somente eficaz para a sua execução. Os seus efeitos permanecem no tempo: o poder e a sua manipulação pela política e pela mídia continua a ser assunto prioritário nesta era em que a democracia parece vazia de valores e com suas estruturas corrompidas, arcaicas e sem a representatividade imaginada pelos gregos.
Cidadão Kane ganhou apenas um Oscar (o de melhor roteiro), muito embora tivesse sido indicado para oito  (ator,direção de arte, fotografia, montagem, trilha sonora, filme e som)  - Orson Wells concorria a quatro. Hollywood estava comprometida com Hearst e seduzida pelo seu poder. No dia da entrega do maior prêmio do cinema americano vaiou o filme a cada vez em que ele foi mencionado. O filme apenas se consagrou aos final dos anos 50 e início dos 60. 
Orson Wells morreu ao 70 anos (em 1985) amargurado com a idéia de que sua carreira tivesse "se encerrado" aos 24 ou 25 anos. Lamentou em uma entrevista concedida em 1982 que tivesse continuado na indústria cinematográfica depois de Kane. Disse ele que "nesta indústria se gasta 2% do tempo fazendo filmes e 98% fazendo politicagem". Ele sentiu nas suas entranhas obesas o peso do poder relatado em seu brilhante filme. Mostrou as entranhas do poder, mas possivelmente não as tenha decifrado por completo. 

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Woody Allen: a Velha Piada Ainda Faz Rir

Lá se vai outro filme do cineasta norte-americano Woody Allen. Depois de Vick Cristina Barcelona (2008) e Match Point (2005), ele retoma o seu velho estilo em Tudo Pode Dar Certo (2010, EUA, Whatever Works, com Larry David, Michael McKean e Carolyn McCormick).

O filme conta a estória de um velho professor de física quântica que aposentado, ensina xadrez a jovens os quais julga imbecis e incapazes de articular as menores idéias. Em meio à pregação diária e rabugenta que faz contra a humanidade, a religião, a arte, a convivência social, etc. ele vem a conhecer inusitadamente a sedutora Melodie  St. Ann Celestine, uma sulista recém-chegada à Nova York. Ela lhe pede abrigo por uma noite, mas ele descobre que se trata de um abrigo (quase) permanente. Depois de algum tempo, ela se manifesta apaixonada pelo velho professor e o toma por esposo. Daí por diante começa o inferno dele: a jovem é encontrada pela mãe e pelo pai, conservadores cristãos, os quais passam a conviver com o novo (e surpreendente) casal. Nova York há de revelar aos seus novos moradores as angústias e faces mais escondidas. Woody Allen não é apenas um discípulo de Freud. É talvez a sua maior vítima na história do cinema mundial.
Woody Allen sempre teve como seu ponto mais forte a escrita de seus diálogos que combinam uma invejável vastidão de conceitos, preconceitos e afetações. Tudo isto numa velocidade impressionante e numa combinação frasal a qual não escapa sequer à sonoridade das palavras - estas parecem em muitos momentos cuidadosamente rimadas no ritmo new yorker. Além disto, ele mantém, assim como na maioria de seus filmes, desde Bananas (1971), uma saída estratégica: quando o personagem principal está a gastar a sua verborragia e a situação cênica não permite os diálogos com os outros personagens, a câmera é a saída. Na maior simplicidade, o personagem começa a falar com a platéia como se diálogo fosse. Note-se que, neste contexto interativo, o óbvio soa muito engraçado e, assim, sobrevive um ar de "participação" da platéia. Pouco importa que o distinto público seja eventualmente a "parte imbecil" a recepcionar as graças de Allen e seus esquizofrênicos personagens.
O elenco deste filme é, em geral, muito bom, mas não seria condição necessária o talento especial de cada um. O roteiro é tão forte, bem como o personagem principal, que o resto do elenco fica meio obscurecido. Do limão, Allen faz a limonada.
Há ainda a trilha musical que incide como elemento "dramático" especial quando os personagens estão a falar de sexo, religião, psicologia e, no caso deste filme, da imbecilidade que é o ser humano. De Beethoven até a nossa Bossa Nova a conjunção entre a imagem e a música é realmente algo especial. Ele cuida disto como se fosse um filho fosse.
De resto, sobra o velho Allen. O filme não agrega muito à filmografia do cineasta. Há muita repetição neste filme dos seus velhos truques, sendo o principal deles a forma dos diálogos conforme escrevemos acima. Além da indignação permanente dos personagens diante das coisas mais banais. O coloquial se soma ao banal. A palavra eleva a ambos. 
Se não fosse a sofisticação e inteligência Woody Allen o filme seria daquelas chatices que fazem com que olhemos para o ingresso e nos arrependamos nas entranhas por ter ido ao cinema. Afinal, este tipo de filme de Allen não têm outros recursos senão os que o consagraram. 
Ele age como os trapezistas ou os palhaços do circo. A platéia inteira sabe o que eles vão fazer, mas todo mundo se diverte e ri diante das coisas óbvias que os artistas estão a fazer. Com a diferença que Woody Allen é suave na forma e agudo na caracterização: o homem é quase sempre imbecil, mas não perdeu a capacidade de rir de si mesmo. 

domingo, 25 de abril de 2010

Lembrando o Centenário de Noel Rosa e Adoniran Barbosa

Escreve Eric J. Hobsbawn em A História Social do Jazz (The Jazz Scena, 1989): "(...) a essência do jazz é não ser uma música padronizada ou produzida em série (embora a música popular influenciada pelo jazz o seja) e, em segundo lugar, o jazz tem muito pouco a ver com a indústria moderna." Acredito que esta observação sobre o mais importante estilo musical da América seja possível de ser enquadrado à perfeição em relação ao samba no Brasil.
Muito embora o samba tenha evidente nascente africana, a sua batida e ritmo estão mergulhados em mistérios: de uma dança ritualística africana passou a integrar a linguagem popular por meio da difusão originada nas entranhas da escravidão da era do açúcar. Da favela do morro desceu à cidade e invadiu o Rio de Janeiro, e daí, passou a ser o ritmo do Brasil. No mundo, inclusive.
De outro lado, temos de reconhecer que o samba desperta certos preconceitos entre as elites brasileiras. Narizes são torcidos e dedos mudam a estação de rádio quando toca o ritmo mais genuíno do país. Mas, o samba vive e continua a sem poder ser contido seriado ou padronizado. Tal qual o jazz, o samba desfila uma capacidade extraordinária de manter sua raiz e ao mesmo tempo transmitir seus genes por diversos estilos - deita raízes. O samba é o nosso jazz.
Foi exatamente esta a sensação que recuperei na mente e na alma ao assistir ontem (24/04) a apresentação da Orquestra Jazz Sinfônica, regida pelo maestro João Maurício Galindo tendo como solista a excepcional cantora Fabiana Cozza. Era um concerto que comemorava o centenário de nascimento de nada menos Noel Rosa e Adoniran Barbosa.

Adoniran é daqueles mistérios brasileiros. De uma presumida malandragem exala uma poética popular, um cantarolar diferente que mistura samba e certos vestígios "italianados" da Paulicéia Desvairada. Interessante cantar Adoniran Barbosa (cujo nome verdadeiro era João Rubinato): entre os versos podemos destacar seu inconfundível humor e ao mesmo tempo uma lírica sofisticada. Vejamos em Bom Dia Tristeza:


"Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar"



Ou ainda em Carolina:


"Ela escreveu um livro
Sobre a vida de um cortiço
O que ela escreveu
Tá causando reboliço
Carolina é um sucesso
Vão levá-la pra cidade
Até querem que ela faça
Conferência na Argentina."


Eis a tristeza que se assenta numa mesa de bar e uma Carolina que abandona o morro, afinal o seu sucesso é o fim de uma "estação da vida". Tudo respira humor e afaga o lirismo daquilo que se perde em meio à turbulenta vida de um favelado ou maloqueiro. Adoniran é o gênio que  dispensa o seu olhar à realidade e desta traga o que há de mais óbvio numa forma inovadora. É o samba que lhe permite isto.
Noel Rosa é certamente, ao lado de Chico Buarque de Holanda, o maior letrista da música popular brasileira. Assim como Nelson Rodrigues fez na literatura e na arte dramática, Noel Rosa soube captar o espírito mais provinciano, malandro e eufórico do Rio de Janeiro. Ele foi tão a fundo nesta missão que suas músicas se tornaram transcendentais: canta-se até hoje suas belas e bem acabadas letras. Noel soma, por assim dizer, a expressão mais popular com as redondilhas mais especiais. Noel Rosa é um gênio que espanta qualquer discussão que não parta desta premissa. São mais de 300 músicas em pouco mais de sete anos de vida artística. O boêmio esteve aqui de passagem (morreu aos 26 anos), parece que tinha por única missão deixar o melhor acervo do samba nacional. Ele é a prova mais viva de que a assertiva de Hobsbawn cabe como uma luva no samba. Vejamos em Minha Viola a sofisticação da linguagem e a transmissão exata da idéia que persegue, além de um humor inconfundível:

"Eu tive um sogro cansado dos regabofe
Que procurou o Voronoff, doutô muito creditado
E andam dizendo que o enxerto foi de gato
Pois ele pula de quatro miando pelos telhado
Adonde eu moro tem o Bloco dos Filante
Que quase que a todo instante um cigarro vem filá
E os danado vem bancando inteligente
Diz que tão com dor de dente
Que o cigarro faz passá."

Em Mentiras de Mulher Noel Rosa consegue ao mesmo tempo ser o autor da descrição e o seu partícipe mais ativo (da própria idéia). É talvez a sua melhor marca e de onde sempre partiu para refinar seu repertório. Vejamos:

"Esta mulher jamais se cansa,
De fazer trança,
Na mentira é um colosso,
Sua visita tão cacete,
Que escrevi no gabinete:
"Está fechado para almoço".

Este centenário duplo de Noel Rosa e Adoniran Barbosa (sobre a sua data de nascimento há dúvidas) foi magnificamente bem lembrado pela Orquestra Jazz Sinfônica e pela paulista Fabiana Cozza. Uma pena mesmo é que esta lembrança seja modesta frente a importância destes dois para a música popular brasileira e para o samba. 
Seria uma benção para o país se se cantasse mais Noel e Adoniran. Olhando para o passado o país poderia construir um futuro mais promissor para a sua música popular. 


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Zona Verde, Um Filme Que Deixa Hollywood Vermelha

Comentamos no dia 16 de fevereiro deste ano, neste blog, o filme "Guerra ao Terror", talvez o maior ganhador do Oscar deste ano. Na ocasião escrevemos:
"Na essência é um filme fraco, sem idéia conseqüente, sem brilho de interpretação e com uma direção bem tradicional no que diz respeito aquilo que se vê em outros filmes. O mais incrível de tudo, é que a diretora (e seu filme) Kathryn Bigelow é comemorada entre a tigrada de Hollywood como a grande sensação deste período pré-Oscar." 
Além disto, naquela ocasião comentamos que "o sofrimento do Iraque e dos americanos nesta desastrada invasão de Bush Jr. é um poço de oportunidades para se construir roteiros criativos e inteligentes."
Pois bem: eis que chega a temporada de Zona Verde (Green Zone, 2010, dirigido por Paul Greengrass, com Matt Damon, Yigal Naor e Said Faraj). Trata-se de um filme de ação que soube ser construído dentro de um roteiro criativo e que é recheado de enormes, evidentes e catastróficas verdades de tudo o que ocorreu na segunda invasão do Iraque por parte do famigerado George W. Bush.

O sub-tenente Miller (Matt Damon) é responsável por achar as tão famosas "armas de destruição em massa". Para isto serve-se de relatórios da inteligência militar, produzidos antes da invasão norte-americana pelo Pentágono. Pouco a pouco, o patriota subtenente vai descobrindo que há algo errado naqueles relatórios de vez que os lugares indicados não passam de instalações irrelevantes do ponto de vista militar. Pergunta-se para si mesmo: "onde estão as armas de destruição em massa?"
Bom, esta pergunta é muito óbvia tanto quanto a sua resposta: simplesmente elas não existem a despeito do case feito pelo Governo Bush para se justificar perante à ONU e à opinião pública norte-americana e mundial. Sempre se soube que aquilo tudo não passava de uma farsa de quinta espécie e que sequer obedecia aos princípios da raison d´état tão caros ao velho Cardeal Richelieu. Afinal, as ameaças aos Estados ocidentais da parte do Iraque não passavam de puro interesse econômico e, em alguma medida, geopolítico. Nada havia relativo à segurança americana.
O filme, a partir da constatação do subtenente Miller, tem a coragem de ir à fundo na questão: denuncia não somente a farsa, mas expõe com surpreendente nudez os mecanismos de poder e as artimanhas que construíram a tomada do Iraque. Vidas humanas foram sacrificadas em torno de um complô internacional liderado por Bush e seu aliado transatlântico Tony Blair.
Há ainda uma particularidade no filme que me parece relevante: dentre as engrenagens maquiavélicas que operaram naquela invasão está a imprensa, tantas vezes chamada de Quarto Poder (como no filme homônimo do diretor grego Costa-Gavras). Não foram poucas as desculpas que órgãos de imprensa importantes tais como o New York Times, Washington Post, Wall Street Journal, CNN e BBC tiveram de pedir sem solenidades ao distinto público (ou será "opinião pública"?). Todavia, que fique bem claro: Zona Verde nos ensina que não está ainda na hora de dizermos "estão desculpados" para esta patota do Quarto Poder. Seu papel foi vergonhoso não somente pela incompetência, mas também pela associação privada que fizeram com o complô de Bush e Blair. Nas barbas dos parlamentos mundiais.
Por fim, quem deveria sair ruborizada do cinema era a claque de Guerra ao Terror. Aquele filme conta algo que parece eletrizante, mas, de fato, esconde a verdade. Serviu a capacidade midiática da diretora do filme (Kathryn Bigelow) para que o filme parecesse inovador e arrojado, inclusive do ponto de vista do roteiro. Zona Verde é, por seu turno, eletrizante e joga no rosto de espectador aquilo que foi (e é) a realidade iraquiana.
Hollywood, neste caso, deveria sair da Academia de Cinema e ir para a de ginástica. Afinal, sobraram malabarismos e contorções em torno de Guerra ao Terror. Ou, ainda, poderiam ir dar um pulinho no cinema mais próximo e assistir Zona Verde. Ninguém veria os membros da tal academia ruborizados no escurinho do cinema. 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mark Twain: O Centenário de Um Fundador Literário

Comemoraremos dia 21 de abril o centenário da morte de Mark Twain, pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens, certamente um dos maiores escritores norte-americanos. Ou para ilustrar melhor o seu papel histórico, uso uma frase cunhada por ele mesmo: I am not an American, but I am the American.
Mark Twain nasceu em 30 de novembro de 1835 na Flórida e morreu a 21 de abril de 1910. Em ambas as datas o cometa Halley pôde ser visto a olho nu na terra. Uma das razões justas para rememorá-lo é o fato do próprio Twain sempre ter cultivado a expectativa de que fosse relembrado ao longo do tempo. Sua auto-biografia, publicação póstuma de 1924 teve redobrada atenção do escritor em seus últimos anos de vida.
Vários livros foram lançados para comemorar o centenário da morte do escritor. Muitos aspectos são abordados neste compêndios biográficos (a relação de sua obra com sua vida, suas viagens, seus amores, sua vida mais íntima). Todavia, há um traço comum sempre que nos defrontamos com um escrito sobre Twain: foi ele o fundador da moderna literatura norte-americana e, assim, perpetrou a alma dos mais importantes escritores modernos norte-americanos. O próprio Ernest Hemingway relevou este papel e reconhece que inspirou-se na obra de Twain.
Certamente, este caráter fundador da obra de Twain deriva de seu profundo repertório sobre o arquétipo do Homo Americanus conforme cita o ensaísta norte-americano H.L. Mencken. De muitas formas, Mark Twain acreditou no American Dream, na possibilidade de que um simples mendigo pudesse se tornar um príncipe, apesar de nunca ter alcançado a fortuna material. A força literária desta idéia reforçou em vários momentos a ideologia política sobre o tema. Quase todos os presidentes norte-americanos do século XX utilizaram citações e o próprio espírito de Twain para dar moldura a seus discursos sobre a gênese do povo americano. De Theodore Roosevelt a Barack Obama. Interessante notar que a crença de Twain no espírito americano se revelou a despeito de todas as dificuldades que vivenciou na sua infância após a morte de seu pai o qual deixou elevadas dívidas. Este espírito que marcou a sua trajetória literária não sucumbiu à realidade factual de sua própria família. Ao contrário, forjou a personalidade de sua realidade e ficção.
Do ângulo estritamente literário, não deixa de ser muito notável que não foram muitos livros do autor que transbordaram este espírito americano vanguardista e crente no futuro, muito embora outros tenham tratado de estórias e histórias sob a mesma temática. Basicamente, foram dois: The Adventures of Tom Sawyer e Adventures of Huckleberry Finn. O grande Charles Dickens, apesar de sua imensa obra marcada pelo espírito do capitalismo inglês, não conseguiu trilhar o caminho que levou Twain a inaugurar uma nova era literária. Ao contrário, não há nenhum crítico literário que eleve Dickens a este patamar. Twain é e tido quase de forma unânime como portador deste título de "fundador".

No centenário deste gigante, gostaria de ressaltar dois aspectos marcantes em sua obra e que, nos dias atuais, tornam a sua leitura tão necessária quanto crítica: o seu humor e a sua reflexão despreocupada com as conseqüências aparentes que pudessem provocar.
No que se refere ao seu "humor" o que se vê em seus principais livros não tem o objetivo de arrancar risadas de seus leitores, mas utilizar uma linguagem coloquial e engraçada para tratar dos fatos. Como bem disse Ernest Hemingway quando recebeu o seu Prêmio Nobel em 1954, "Mark Twain não foi um autor cômico, mas um verdadeiro humorista". Adiante em seu discurso de aceitação do Nobel, Hemingway ressalta que dificilmente Twain lograria o prêmio da Academia Sueca dada esta característica a qual não é tão apreciada pelos literatos e os críticos. As reflexões consideradas mais profundas dos diversos grandes escritores sempre foram dissociadas da mescla de humor, realidade e ficção, muito embora em Twain este estilo tenha servido largamente para a consolidação de seus personagens como tipos notáveis de seu tempo. Twain foi, como Charles Chaplin no cinema, um observador e crítico voraz do imperialismo, da discriminação e da realidade contraditória da sociedade vigente em seu tempo. De maneira coloquial, ele soube extrair o melhor "estranhamento literário", necessário para que emergisse o significado real de seus relatos. Ao lê-lo, respira-se o exato espírito no qual estão mergulhados seus personagens. O seu maior feito estilístico é o próprio humor contido nas linhas de seus livros.
De outro lado, os escritos de Mark Twain eram recheados de expressões particulares, de uma aparente vulgaridade que até hoje motivam correntes que pregam o seu banimento das leituras obrigatórias no sistema de ensino norte-americano. Ora, esta matiz enraizada no "popular" é sinal vigoroso de seu vanguardismo. Os "politicamente corretos" julgam-na como discriminatória. Coitados, não sabem do que estão a falar, pois a "correção política" na maioria das vezes está ligada a um superficialismo pouco analítico e incapaz de penetrar na essência dos signos literários. Para além da lingaugem, temos a "mensagem".
A irreverência de Twain faz falta nos dias atuais. Refiro-me a irreverência que vai além da aparente vulgaridade, mas aquela que é capaz de traduzir por meio da "linguagem popular" e "esculachada" a realidade social mais profunda e injusta. No mundo de hoje, os intelectuais perderam esta capacidade e submergiram nas facilidades do lugar-comum, da ideologia fabricada e nas ligações com os interesses mais imediatos de seu público ou patrocinadores.
Neste centenário de Samuel Langhorne Clemens, o Mark Twain, vale a pena lê-lo e aprender mais além do que ele escreve. A irreverência que inaugurou uma nova época literária na América pode servir de exemplo neste país abaixo do Equador.