segunda-feira, 18 de julho de 2011

Tia Julia e o Escrivinhador: Além de Uma Sugestão de Leitura

Ensina-nos o crítico norte-americano Harold Bloom, um dos maiores especialistas em Shakespeare na atualidade, que "não existe apenas um modo de ler bem, mas existe uma razão precípua por que ler. Nos dias de hoje a informação é facilmente encontrada, mas onde está a sabedoria?" De fato, a sabedoria persiste como pedra rara em terra desconhecida. A literatura e a sua prática, a leitura, não é uma forma sistemática de nos informarmos e, de forma geral, sequer é uma forma de adquirir educação formal. Possivelmente, esteja mais relacionada ao prazer de uma relação consigo mesmo a partir do livro em frente aos olhos. Que os mestres das escolas não nos ouçam...
Tia Julia e o Escrevinhador do peruano Mario Vargas Llosa (1977,  La Tía Julia y el Escribidor, Editora Objetiva, 2007 Tradução de José Rubens Siqueira) é daqueles livros que nos divertem, causa entretenimento, faz pensar e imaginar. Reconheço que, desde quando inciei, há poucos anos, a leitura deste magnífico escritor, tenho certa facilidade em aceitá-lo mais facilmente na minha mesa de cabeceira de cama ou na minha mala de viagem. Seu repertório imaginativo e sua forma de causar furor, alegria, tristeza, amor e desamor, me jogam na satisfação desta variedade de percepções e sentimentos.
Há muito de autobiográfico neste romance, muito além da irremediável ligação entre a alma (e a história) do autor e a obra que produz. Varguitas, o personagem principal, é um mancebo de dezoito anos vivendo na Lima dos anos 1950. Trabalha como jornalista numa rádio local e cursa (insatisfeito!) Direito. Sonha diuturnamente em ser um escritor e, tentativamente, vai rascunhando contos e mais alguns contos. Se defronta no transcorrer dos primeiros capítulos com Pedro Camacho, um autor de novelas transmitidas pela rádio na qual trabalha Varguitas. Camacho consegue por meio dos capítulos diários de suas novelas atrair enorme multidão de admiradores. Ele sabe somar tensão ficcional dos fatos contados à forma literária e, assim, desperta a mente da audiência. Camacho é estranho, como deve ser a literatura: cheio de manias, apegado à reclusão pessoal e afeito ao perfeccionismo na forma e conteúdo da escrita. Ele é a "sombra" a encantar e, de muitas formas, atrapalhar as tentativas de Varguitas de ser um escritor.
Em meio ao relacionamento de Varguitas com o "colega" Camacho, surge na vida do jovem, Júlia, sua tia. Ela tem o dobro da idade de Varguitas, divorciada (na Bolívia) e Lima é o seu refúgio pessoal da vida anterior. Deste relacionamento, Vargas extrai do personagem muito vigor juvenil, desprovido da estreita racionalidade que os anos vão dando às pessoas que envelhecem, somado a uma afetividade traiçoeira e apaixonada. Vai-se lá boa parte do livro nos capítulos "verdadeiros" do livro - Mario Vargas Llosa intercala capítulos que contam o relacionamento de Varguitas e Tia Julia com outros com as estórias fantásticas de Camacho.
É exatamente esta multiplicidade de imagens e sensações expelidas das páginas do romance que constitui o sabor literário de Tia Julia e o Escrevinhador. Não há nada de monolítico ou "fechado" nos personagens, o que permite ao leitor um deslizar da imaginação diante da própria ironia (conjunta e específica) contida nos capítulos.
Já disse em outros posts anteriores que literatura é estranhamento. Para isso é preciso, ritmo e doses de outros tantos ingredientes que tornem um romance algo de valor sem o simulacro das "explicações acadêmicas" das obras literárias. Estranhamento nada mais é do que a sensação de que há algo escondido naquele romance que não sabemos o que é, mas que nos  draga e permite que nós nos coloquemos como se personagens fôssemos - esta é, aliás, a maior ironia da literatura. Pois é tudo isso que sentimos na leitura de Vargas Llosa. Uma lição elegante de como escrever um livro, sem a pretensão de ser Cervantes ou Faulkner, mas com um resultado que alegra e nos faz partir para o próximo livro com a sensação de que podemos ler mais quando o mundo nos convida a assistir, mesmo quando escrevemos. 


quarta-feira, 13 de julho de 2011

"Minhas Tardes com Margueritte": o Encontro e a Doçura

Ensina-nos, com farta argumentação, o filósofo francês André Comte-Sponville (1952-     ) que a generosidade se diferencia da solidariedade na medida em que esta última resulta de alguma modalidade de confluência de interesses, mesmo que elevados, enquanto a generosidade se reveste de gratuidade. O filósofo, ensaísta e historiador escocês David Hume (1711-1776), o maior precursor do utilitarismo, embora tenha elaborado toda lógica do comportamento humano sob a ótica da causalidade ("tudo se origina a partir de uma causa"), é  considerado um sentimentalista moral e, como tal, achava que princípios morais não podem ser justificados intelectualmente.
Esta "somatória" filosófica da gratuidade da generosidade e da não intelectualização dos princípios morais é lição que sobre nós se derrama quando assistimos ao filme Minhas Tardes com Margueritte (La tête en friche, 2010, França, dirigido por Jean Becker , com Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus), baseado no livro de Marie-Sabine Roger.
A história é de uma singeleza marcante: Germain (Depardieu) é uma quase analfabeto, meio campônio, sonhador e, ao mesmo tempo, pragmático, que inusitadamente passa a interagir com Margueritte (Sasadesus), uma senhora de idade avançada que sentada às tardes na praça de uma pequena cidade do interior da França, vive a ler como forma de preencher o poente de sua vida. Ali, naquela praça, há um encontro de almas generosas: de um lado a senhora que muito pode e conhece, mas que o tempo lhe retira os horizontes; de outro, um semi-analfabeto que ao ler livros com aquela senhora se encontra com seu passado angustiante - desde a infância era chamado de burro e hostilizado pelos seus pares. Ambos tem possibilidades, mas também severos limites. Ambos tem identidades, mas também tem largas diferenças. É preciso escolher. E eles escolhem um ao outro. Gratuitamente e sem maiores ilações, desprovidos de lógicas mundanas e cheios de amor. Eis a simplicidade tão complexa de se alcançar.
Não são poucas as pessoas que chegam às lágrimas com o transcurso do filme. Ao sair da sala, vê-se muitos correndo aos lenços que socorrem os olhos chorosos. Pode parecer que o filme é triste. Não é. Ao contrário, ele soa entre a boa repartição da alegria de podermos nos encontrar com a porta de saída da angústia de viver e a risada da brilhante interpretação de Depardieu. Ele realmente se torna o personagem e não é apenas um travesti cinematográfico. Ora, em sendo assim, fico a pensar de onde viriam aquelas lágrimas. Bem, tudo é uma enorme especulação. Aí vai a minha: a máquina do mundo nos retirou o que há de mais doce em nossa vida. Tornamo-nos duros e impacientes com o outro. O filme nos mostra que a doçura não é viela ínvia, é possibilidade concreta. Nada mais irresistível para o nosso coração duro.
Finalmente, uma advertência: alguns críticos pregaram na mídia que o filme é piegas. Nada mais fácil naqueles que gostam de ver a arte, em geral, e o cinema, em particular, como expressão da virilidade intelectual e moral de um mundo despedaçado por ideologias, interesses e diferenças. Daqueles que tecem ideias como se guerra fosse esquecendo-se que viver bem e docemente é mais importante que o próprio pensar. Já nos ensinou Buda, Cristo e Gandhi, aguerridos que foram na sua mansidão e doçura. Este não é um filme para os tapetes vermelhos dos festivais de cinema badalados. É o caminho da roça para os transeuntes que adentram ao campo para se perder e se encontrar consigo mesmo. Como nos versos de Rainer Maria Rilke, no poema "O Homem que Lê":
"E quando agora levantar os olhos deste livro, 
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa
."


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Woody Allen: Paris é Uma Festa

Ernest Hemingway em The Sun Also Rises (O Sol Também se Levanta), publicado em 1927 (em Portugal, sob o nome de Fiesta) conta, com forma e conteúdo magníficos, a boemia e o estado de espírito dos norte-americanos que se encontravam em Paris durante os anos 20 do século passado. Este período foi do ponto de vista artístico, sobretudo para as artes plásticas e a literatura, um tempo de criação marcado pela excepcional qualidade da técnica literária, bem como pela marcada reflexão sobre o niilismo que imperava nos anos entre as duas grandes guerras mundiais. Eu me arriscaria a dizer que foi neste tempo e ali, em Paris, que se formulou toda a percepção temática e linguística do restante do século para a grande literatura universal.
Em The Sun Also Rises, o principal personagem Jacob Barnes, ilustra a frivolidade e os conflitos existenciais (ou ausência destes) daquela geração. Brett Ashley, a paixão de Barnes, é o meio pelo qual Hemingway faz a sua excepcional reflexão romanciada.
Para se ter uma noção da importância literária dos anos 20 em Paris, F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ezra Pound e T.S. Eliot foram diretamente os protagonistas desta reviravolta. Além da influência indireta destes sobre Robert Frost, William Faulkner e Eugene O´Neill. A criação anarquista, já marcada pelo freudismo e pelo vazio existencial também se propaga a partir de Paris dos "anos loucos" e alcança toda a geração beatnik (Jack Kerouac, Allen Ginsberg, John Clellon Holmes). Como se vê, tempos férteis na literatura e, a partir dela, em toda a arte do século XX.
Escrevi tudo isso para dizer que o roteiro de Woody Allen para Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, EUA, 2011, dirigido pelo próprio Woody Allen com Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Kathy Bates e Mimi Kennedy) já estava escrito quando ele pôs-se a escrever os diálogos deste delicioso filme. A idéia do roteiro, portanto, não alcança a gramatura de um plágio porquanto Allen emborca o seu barco criativo por meio de uma estória bem construída com o claro objetivo cinematográfico. Ora, isso tem méritos, ainda mais quando ele acrescenta velada e, ao mesmo tempo, sutil crítica ao modus operandi do pensar moderno, especialmente o norte-americano. Em certo momento do filme a inserção dos comentários sobre o Tea Party e o besteirol dos republicanos alinhados com George Bush chega ao limite da tragicomédia.
Se o roteiro é uma feliz garimpagem e mineração do que há de melhor naqueles anos 20, o comportamento da câmera de Allen é condizente com a sua proposta. Ele abandona aqueles traçados e movimentos bestas que costuma fazer em seus piores filmes e se rende a fixação pura e simples das imagens e dos atores. Fica fácil quando ao fundo temos Paris e a beleza mágica de Rachel McAdams e, de relance, a primeira-dama francesa Carla Bruni. Allen explora os melhores detalhes e, assim, chega a essência daquilo que chamaríamos de um belo filme. Esperto este Woody, não é mesmo?
O desfile de diálogos inteligentes e de personagens como Fitzgerald, Stein, Picasso, Buñel, Duchamps, Dali, Hemingway, Eliot e tantos outros (incluídos os da Belle Époque e Art Nouveau, Toulouse-Lautrec e Renoir) é um festival de beleza e aprendizado. É fato que muitos expectadores, mundo afora (incluídos os do "primeiro mundo") se angustiam quando não conhecem todos os personagens, mas arte que vale a pena é aquela que nivela pelo alto, sem a grosseria e falta de consistência e beleza que impera pelas galerias, livrarias e outros recantos pretensamente "artisticos" ao redor deste sofrido globo.
Certa parte da crítica de cinema costuma atribuir a Woody Allen uma genialidade que, a meu ver, ele não possui. Meia Noite em Paris tem o mérito de apagar um pouco as chatices que ele espalhou na sua vasta obra, tais quais, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, O Sonho de Cassandra e Igual a Tudo na Vida, e fazer com que Woody Allen voltasse aos seus bons filmes.
A trilha musical é sempre o bocado precioso, charmoso, delirante dos filmes do diretor. A sua seleção é especial. No caso de Meia Noite em Paris a combinação da estética parisiense  -sobretudo, nos arredores de Montmartre - com a trilha é perfeita. Além disso, Paris, chuvosa ou ensolarada, agora e nos anos 20, sempre é um refúgio que permite que a face etílica dos seres possa se somar a musicalidade interior ao mistério clássico da Cidade das Luzes. Nos anos 20, em meio à lei seca do outro lado do Atlântico, muitos artistas americanos puderam mergulhar em bebedeiras homéricas que lhes permitia o refúgio do ambiente vitoriano e puritano da América. Para os músicos, as bebedeiras soavam como música. É o caso de Cole Porter, Louis Armstrong, Duke Ellington, Josephine Baker, dentre tantos geniais intérpretes. A trilha musical de Woody Allen também se reveste desta ambientação. Escutar as composições dispostas ao longo do filme é uma delícia, muita estrada além das doceiras e cafés da Rive Gauche daqueles anos 20, com as mulheres sensuais, com seus seios pequenos, os olhos escondidos pelos cloches,  - aqueles pequenos chapéus que caiam à altura dos olhos - as pernas parcialmente jogadas ao vento em meio aos vestidos cada vez mais curtos e os seus cabelos a la garçonne escasseados pelas tesouras dos salões de beleza cheios de fumaça de cigarros. Tudo além do lindo, sem o câncer destes dias atuais e sem a tuberculose, o mal du siècle dos séculos anteriores. 
Feliz de quem pode ver este filme do qual saímos cheios de felicidade, além das suas fronteiras aparentes e seus recheios cinéfilos. Como na abertura do belíssimo poema de T.S. Eliot, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock" de 1915:
"Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa..."

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Papo de Poeta com Francisco Petros

Amigos,

Fui entrevistado por um poetisa de valor, uma gaúcha de Rio Grande, Ana Cristina Matias, a alma de seu blog "A Solidão Nunca Está Sozinha" . Pessoa valorosa que promove a poesia em meio às águas turvas destes tempos de descrença. Luz, alegria e fulgor.
Gostaria de compartilhar os amigos o link de minha entrevista.
Beijos a todos!
Estive entre muitas viagens e trabalho. Volto com tudo!

Eis o Link:

http://anacpm.blogspot.com/ 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cópia Fiel Nega o Plágio à Vida

Nossos tempos são marcados por um relativismo atroz. Esta é uma constatação que possibilitaria uma vastidão de reflexões o que não parece ser o caso neste artigo. Apenas gostaria de extrair desta visão o fato de que tal relativismo nos leva a uma negação em pensar e refletir sobre a realidade vivente, aparente ou não. Há a passividade da razão. No âmbito subjetivo ainda nos defrontamos com a noção de que a ausência de passividade nos leva à perda da leveza. Escolhemos a passividade para cairmos no caminho do leviano.
Abbas Kiarostami, o diretor e roteirista do filme Cópia Fiel (Irã/Itália/França,2010, com Juliette Binoche e William Shimell) conseguiu elaborar uma obra que se aprofunda no tema a que se propõe projetar ao público e, ao mesmo tempo, utiliza-se de todas as (boas) artimanhas estéticas que o cinema possibilita no caso para criar uma obra bela e leve. Sobra coragem estética e escrita ao diretor iraniano que já dirigiu Shirin (2002) Dez (2008).
A estória transcorre a partir de uma conferência de um escritor (James Miller) na Itália por ocasião de sua premiação em função de um novo livro. Ali aparece a personagem de Juliette Binoche (Elle) com a qual o escritor se encontra no atellier dela no dia seguinte. A partir dái vem um desenrrolar plano-sequência com um diálogo em três línguas e que dura cerca de hora e meia. O espectador fica constantemente na dúvida sobre o grau de conhecimento mútuo dos personagens que dialogam como se estivessem a discutir muito mais que a própria relação.
Queixumes, reflexões e pequenas ironias saem da boca de cada um deles e propiciam um desfilar de possibilidades de reflexões sobre a vivência humana. A câmera vai e vem e os atores não podem sair dali. Eles tem de enfrentar com coragem a arte de rir, chorar, conversar, observar, dando vida ao excelente roteiro do iraniano. A coisa é prá valer. Tem de haver arte nos artistas.
Confesso que é difícil assistir o filme na medida em que a platéia facilmente pode começar a se remexer nas poltronas, não propriamente inquietos em relação ao filme-itinerário de Abbas Kiarostami , mas como se estivessem incomodados com os próprio preconceitos negativos: afinal por que deveríamos sair de nossa própria passividade? Ao fundo do cinema pode soar um "porre!" o que não é propriamente um elogio ao filme, mas de certa forma traduz o que é a vida do incomodato espectador.
Mais difícil ainda é fugir de duas ciladas. A primeira é a beleza artísitca (e pessoal) de Juliette Binoche. A francesa é simplesmente um espetáculo. Dá um show de interpretação que ilumina a já iluminada sequência de cenas. Verdade seja dita: "gosto não se discute", mas isso é apenas uma pequena verdade ou uma meia e vazia verdade. Somente quem quer ficar parado pode pensar assim. Juliette Binoche consegue mexer com quem quer dar uma "viajada" e pensar com leveza e seriedade sobre a vida.Seus dentes e pele branca são uma bela inspiração para a mente. O resto é para os olhos de quem ama as mulheres belas e geniais.
Na companhia de Binoche temos o barítono William Shimell que não fica pequeno perante Binoche por uma única razão: o cantor erudito sabe se aproveitar do roteiro e se enquadra perfeitamente. O resto ele deixa para a câmera. Não é nada mal ser fotografado ao lado de Binoche.
A segunda cilada infalível e positiva do filme é a lindíssima região da Toscana. Se se pode falar de beleza a Toscana é o belo. O renascimento italiano vívido e saboroso. O desfile dos personagens pela belíssima localidade de Lucignano é simplesmente tentadora, Dá vontade de pegar pela mão aqueles que amamos e ir conversar por entre aquelas vielas e piazzas. A luz (apostaria que da primavera) contribui para que os nossos olhos oscilem entre a beleza de Juliette e os contornos de seu corpo, no caso as imagens da Toscana.
Não vou contar aqui o significado do título do filme, mesmo porque este não é um segredo do tipo Hitchcock. Ao contrário, há algo de banal nele. Todavia, como o filme é uma provocação existencial, Cópia Infiel acaba por se tornar uma construção em cada mente que vê o filme. Dá até uma saudade de ver algo nouvelle vague ou, até mesmo, voltar aos velhos filmes de Frank Capra e John Ford. Passando por Orson Welles.
No fundo dá um certo medo de recomendar os filmes para os amigos. E se eles vão e acabam enfadados por tantas palavras? Bem, viver é perigoso. Ir a um filme, nem tanto. Ainda mais, quando vemos que o título dele sugere um plágio que não existe. O plágio, infiel e inquietante, está dentro de cada um de nós que assiste à Cópia Fiel.
  

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Cisne não é Negro. É Feio Mesmo.

Convenhamos, Natalie Portman tem lá suas virtudes como atriz, mas o que se sobressai é a sua imagem de mulher bonita com pitadas fortes de sedução. Tudo isso com o aporte sólido da mídia. Suas participações na trilogia de Guerra nas Estrelas (Guerra nas Estrelas: Ameaça Fantasma (1999), Guerra nas Estrelas: Ataque dos Clones (2002) e Guerra nas Estrelas: A Vingança dos Sith (2005)) são razoáveis. Em Closer (2005) consegue somar as habilidades de mediana dançarina com uma interpretação convicente e competente de uma stripper. No filme A Outra (2008) consegue impedir que Scarlett Joahansson ocupe todos os espaços disponíveis no filme por meio de uma rinha de beleza física e interpretações artísticas que carecem de alma.
Apesar de sua carreira de sucesso ter sido relativamente iluminada, quando analiso as suas interpretações e as cotejo com o seu sucesso midiático fico com a nítida impressão de que a essência de sua interpretação é maximizada além do real mérito que mereceria. Este não é fenômeno raro no cinema, em especial no norte-americano. Veja o caso de Gwyneth Paltrow e Amy Adams, cujos desempenhos sob as luzes do set são apenas razoáveis, mas a reputação publicada vai muito além.
No caso de Portman, temos agora o Oscar de melhor atriz pelo Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010, dirigido por Darren Aronofsky, com Vincent Cassel, Barbara Hershey e Wynona Ryder). O desempenho da atriz é razoável, embora esteja como sempre mascarado pela formalidade do papel a ela destinado e sem nenhuma invenção própria que mereça maiores observações. Portman não coloca e nem tira a máscara de atriz sem pedir licença ao diretor (e quem sabe aos produtores). Não é à toa que o seu papel de primeira dama do balé homônimo ao filme é tolhido pelo desastre do roteiro somado a uma direção cheia de virtuosismos com a câmara e que sequer consegue fazer o básico, atrair a distinta audiência.
A platéia, depois dos penosos primeiros trinta minutos de filme, deve ficar imaginando como é que aquele filme pode elevar Natalie Portman à condição de primeira dama do cinema em 2010. É interessante que o tempo inteiro, fica-se na expectativa de que algo merecedor de atenção vá acontecer na próxima cena. A desatenção apenas não prevalece pela chance generosa que a audiência dá para que "algo" ocorra logo adiante. Haja sofrimento. Neste contexto, Portman sempre aparece conduzida num andor, como se rainha fosse, mas não passa de uma boa performer na dança e um narizinho bonitinho na tela que se contorce conforme seja a necessidade. O resto é tortura.
É triste ver Vincent Cassel, com um inglês bem afinado, perdurar em diálogos sofríveis, sem luz e sem levar a lugar algum. Nem a pretendida pulsão erótica de certo diálogos consegue ludibriar os atores e, muito menos, aqueles que assitem o filme.
O lobby de Natalie Portman para ganhar os prêmios que levou (BAFTA, Oscar e Golden Globe) deve ter sido realmente enorme. Tal qual o lucro do filme, cujo faturamento já alcançou US$ 229 milhões para um custo estimado ao redor de US$ 13 milhões.
Bom, tudo no mundo de hoje é percepção, nada relacionado com a legitimação oriunda do intelecto ou mesmo da "arte". É possível que o que escrevo acima esteja em completa dissonância com as percepções que prevalecem na mídia e que vem dos críticos que colocam Natalie Portman no trono. Fica a minha opinião livre: se o amor ao cinema dependesse de Black Swan e Natalie Portman, Hitchcock teria de fazer um de seus clássicos suspenses para sabermos quem cometeu o crime passional e matou o cinema.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Alegria: Bertolucci Está de Volta

Eis aí uma excelente notícia: depois de quase oito anos sem filmar - seu último filme foi Os Sonhadores - Bernardo Bertolucci vai voltar ao seu "caso de amor" com o cinema. Será um filme sobre um menino adolescente que vive recluso em um porão na Cidade Eterna. O filme será adaptado do livro I"o e Te" do também italiano Niccolò Ammaniti. Este jovem escritor, de 45 anos, já teve uma novela de sua autoria adaptada para o cinema (com o nome italiano de "Io non ho paura") sob a direção do cineasta Gabriele Salvatores, aquele que filmou a comédia Mediterrâneo sobre a invasão italiana à Grécia durante a segunda guerra mundial.
Voltemos a Bertolucci. Aos 70 anos de idade, o cineasta italiano diz que "não está mais disposto a filmar grandes produções". Deseja tratar os seus filmes de "forma mais intimista", sem se ligar às parnafernálias tecnológicas do cinema contemporâneo. Não despreza a modernidade, apenas a coloca no exato lugar que merece. Aparentemente, Bernardo Bertolucci volta ao seu início.  Passou a ser conhecido internacionalmente em 1970 por meio de um filme espetacular O Conformista sobre o qual comento ao final deste texto. Em O Último Tango em Paris (1972) extraiu muito intimismo muito embora tenha sido um filme incompreendido de muitas formas. Até mesmo por Marlon Brando que não gostava do filme e passou a acreditar que Bertolucci o tinha atraído para uma espécie de cilada. Do Tango, Bertolucci passou para uma grande produção "1900" Novecento (1976) no qual conta dentro de uma forma épica a relação entre um bastardo camponês (Olmo) e o filho de um fazendeiro (Alfredo, interpretado por Robert de Niro). Bertolucci narra com enorme talento o contexto histórico de uma Itália agrária ao longo dos primeiros cinquenta anos do século XX. Uma produção e tanto, algo em torno de quatro horas de duração. O filme fracassou nos EUA, fundamentalmente em função de sua temática excessivamente européia e o seu formato nada consoante com o cinema americano daqueles anos 70.
O Último Imperador (1987) consolidou a carreira internacional de Bertolucci. O reconhecimento veio por meio de dois Oscars (melhor direção e roteiro adaptado) e pela conquista definitiva das bilheterias e da crítica. Temos ainda o razoável O Céu que nos Protege (1990) onde o grande encontro de Bertolucci foi, a meu ver, com a magnífica fotografia, muito embora a interpretação de Debra Winger e John Malkovitch seja louvável - souberam tratar a idiotice burguesa do pós-guerra com precisão dramática, fluidez na interpretação e dramaticidade (para um roteiro meio fraco).
Por fim, eu gostaria de lembrar o primeiro grande sucesso internacional que citei logo acima. Trata-se de O Conformista recentemente restaurado e remasterizado. Trata-se de uma adaptação do livro de Alberto Morávia que narra a estória de um transtornado cujo objetivo é ser um sujeito absolutamente assemelhado à sociedade. Quer ser normal, um transeunte pelo mundo que passa despercebido. O extraordinário deste filme é que o personagem estrelado pelo brilhante ator francês Jean-Louis Trintignant  é que há uma projeção do pessoal para o político muito bem encaminhado por Bertolucci. O filme se passa nos anos 30, na Itália fascista, onde a batuta do Estado de Mussolini prevalecia. O indivíduo que mergulha no conformismo é igual ao silêncio social relativo ao regime ditatorial. De certa forma, o filme dirigido por Marco Bellocchio, Vincere (2009), comentado anteriormente neste Paidéia, que trata da trágica relação entre Mussolini e sua amante Ida Dalser, é tematicamente um "descendente" do filme de Bernardo Bertolucci. Vale a pena ver. Nele, já podemos registrar a maestria do amante do cinema, este italiano que promete voltar a filmar. Bertolucci é o cineasta do encontro do político com a arte, da angústia com o amor, da burguesia com a vulgaridade, do cinema com a humanidade. Suas imagens não resvalam para nenhuma construção que não seja o próprio íntimo do homem, o mesmo íntimo do espectador que assiste aos seus filmes.
Volta Bernardo!!!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Maria Schneider e o Seu Último Tango


Infelizmente O Último Tango em Paris, filme do italiano Bernardo Bertolucci sempre é comentado a partir de uma cena pouco relevante, embora marcante, aquela da penetração anal de Paul em Jeanne com o auxílio de uma providência boba, no caso, a lubrificação do ato libidinoso com manteiga. Pois bem: foi desta (desnecessária) cena que se espraiaram os dissabores maiores em relação à obra de Bertolucci. Da censura à vulgar baixaria dos comentários, como se tudo fosse papo de botequim.
O mais importante dissabor do filme foi o trágico destino que seguiu a carreira de Maria Schneider, a atriz que interpretou com talento o papel de Jeanne no filme. A manteiga foi usada para fritá-la em fogo alto e longo. Desde O Último Tango em Paris nenhum papel relevante foi entregue para a interpretação da atriz francesa. Os melhores convites para filmar eram para, digamos, "fazer ginástica" em filmes pornôs, aqueles quase ginecológicos. Tudo por causa dos assombros preconceituosos saídos de todos os poros, inclusive dos críticos de cinema, desde 1972 quando o filme foi rodado e lançado. Contou certa feita Maria Schneider que dentre os poucos telefonemas que recebia de artistas e diretores, um dos mais reconfortantes era do próprio Marlon Brando, seu companheiro ator n´O Último Tango. Logo Brando, quem destestava o filme de Bertolucci e com quem rompeu por quase vinte anos - Bernardo Bertolucci e Brando só voltaram a conversar em 1993.
O Último Tango em Paris é um filme esplendoroso, muito embora esta seja uma opinião largamente minoritária em meio aos cinéfilos e críticos. A meu ver, este filme projeta uma angústia existencial sobre a dialética da vida e da morte de um modo poético e perfeitamente compreensível, seja do ponto de vista cenográfico, seja do ponto de vista do roteiro. Tudo isto regado a uma trilha brilhante, escrita e interpretada pelo músico argentino Gato Barbieri (1934 -       ). As imagens de Maria Schneider e Marlon Brando são especialíssimas, escolhidas como uma obra renascentista que, ao mesmo tempo, esconde e revela a idéia central. Sobram sentimentos de amor e desespero, tortura e esperança, desespero e luz, vida e morte.
Não sei se a vida imita a arte ou vice-versa. Apenas sei que há coisas que andam certo na escuridão, até sob a luz de apenas um vagalume. Há outras que, uma vez iluminadas pela intensa luz do verão, sucumbem como se aquela luz viesse da chama firme e alta do inferno. Maria Schneider, atriz que será esquecida dada a sua irrelevância para o cinema, conheceu o inferno desde O Último Tango. A notícia de sua morte em 3 de fevereiro passado, aos 59 anos, ressucitou em mim uma certa raiva em relação ao preconceito do qual Maria foi vítima. Naqueles loucos e deselegantes anos 70, a droga campeava os ambientes "modernos", fazia-se amor ao ar livre, os seios das mulheres despencavam em praça pública, os homens usavam roupas horrorosas e os intelectuais tragavam o marxismo como se cigarro fosse. Ora, ora! Os comentários sobre "a manteiga de Marlon", foram longe demais.
Nos obituários de sua morte há pouquíssimos comentários relevantes, afinal o que haveria a comentar? Todavia, na lápide de seu túmulo, caso exista, em não hesitaria de pregar um epitáfio como este: "Aqui repousa Maria. Uma mulher que o preconceito tragou."
O Último Tango em Paris foi realmente o último de Maria Schneider. Tiraram-lhe a chance como se fosse um sopro rápido do saxofone tenor de Gato Barbieri: melancólico, mesmo que belo.
Para Maria dedico-lhe uma quadra do poeta romântico francês Alfred du Musset (1810-1857), denominado Tristeza:

Eu perdi a minha vida e o alento
E os amigos e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer em meu talento.





quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

De Volta à Cozinha: Um Vitello Tonnato

De volta à cozinha. Não é a mesma cozinha como os mais próximos sabem. Aquela já se foi, tal o tempo. Resta-nos o espaço, porquanto o tempo se esvai. É no espaço que reencontro a cozinha na qual posso retornar à confecção de meus queridos pratos para os meus muitos queridos. Já é outro lugar, não mais aquele. Poeticamente, posso retornar às panelas e assadeiras, colheres e garfões. Volto à luta. De novo. De volta à cozinha.
Como nos ensina Michel Foucault em um magnífico texto de 1967 (De Outros Espaços): " (...) acredito que a ansiedade da nossa época tem a ver fundamentalmente com o espaço, muito mais do que com o tempo. O tempo aparece-nos como apenas uma das várias operações distributivas que são possíveis entre os elementos que estão espalhados pelo espaço." Eis uma bela reflexão que me ocorre quando depois de certo tempo, volto à cozinha. Eis um novo espaço.
La Cité de la Lumière já desposou de novo a minha alma. Belo encanto este de uma cidade que me faz falta. Sempre. Bem, mas a hora é de retomada. Para tanto a escolha vai para outra terra: "a terra no sopé das montanhas", o Piemonte. 
Tenho uma relação pessoal com o Piemonte. Nos caminhos daquela terra deixei um pouco de mim, especialmente em Torino, cidade fria, mas que esquentou as minhas esperanças em tempos difíceis e incertos. Diante da lareira, gastei muita conversa com velhos e novos amigos. Uma elegia à vida que sobrevive dentro de mim até os dias de hoje.
A cozinha piemontesa é por vezes "acusada" de ser uma cópia da francesa. Muito embora existam inequívocas influências francófilas, seria falso reduzir os prazeres da culinária daquela terra fria à esta preconceituosa referência em função da Dinastia de Savóia que governou o Piemonte por 800 anos aproximadamente . (Há preconceituosos fingidos de liberais por todos os lados nos dias de hoje).
Dito isto, vamos à receita que reservo para os amigos. Trata-se do Vitello Tonnato.
Frite bem um lombo de vitela (700-800 gramas) numa panela grande. Não exagere no óleo (pode usar um belo azeite). Deite 500 ml de vinho branco seco juntamente com a pimenta e o sal (ambos ao seu gosto, sem exageros, basta bom senso). Depois de alguns poucos minutos (dois ou três) de finalizada a fritura, junte dois talos de aipo e duas folhas de louro, além de um dente de alho (inteiro). Tudo isto deve ficar por 50 minutos submetido ao fogo médio. Depois deixe esfriar com paciência e sem ansiedade.
Prepare um maionese com duas gemas de ovo, azeite extra virgem (de preferência um Kalamata grego) e o suco de um solitário limão. Bata a maionese e passe ela num passador com 200 gramas de atum em conserva, dois filetes de anchova finamente recortadas e as alcaparras (que podem ser acrescidas após tudo correr pelo passador).
Corte a carne já fria em fatias bem fininhas e as coloque num prato grande e raso. Cubra a carne com a maionese e coloque num lugar fresco por duas ou três horas. Doce, muito doce descanso. 
Na hora de servir abra um belo tinto. (Se a ocasião e o bolso permitirem pode escolher um vinho piemontês, um barolo, ou um barbaresco ou, ainda, um barbera. Caso contrário, tente um Carmenère, por exemplo).
Você estará diante de uma das entradas mais tradicionais do Piemonte. Como no início do século XIX. Rodeado de amigos, da família, de seu amor e assim vai. A vida, sem mistificações, mas cheia de esperança e elegância... 




  

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Chet Baker e Suas Memórias Perdidas

Chet Baker (1929-1988), nascido Chesney Henry Baker Jr,  abusou da sua própria capacidade musical. Ele foi um dos maiores jazzists das décadas de 1950 e 1960. Um gênio musical que somou uma incrível simplicidade musical com um extraordinário repertório de interpretações magistrais. Suas notas saíam do trompete e do flugelhorn como uma garrafa de champagne desce doce e suave pela garganta dos apreciadores da bebida francesa.
A vida de Baker foi o oposto de sua suavidade musical. Percorreu prisões por conta das muitas (e múltiplas) drogas que experimentou por quase todas as vias possíveis. Perdeu os dentes depois de um espancamento por não ter saldado suas dívidas com os fornecedores de drogas. Mesmo assim, o vento doce (e cheio de talento) de sua garganta nunca deixou de percorrer o fluxo por dentro do trompete e o flugelhorn. Na literatura jazzística, Chet Baker ocupa lugar maior, marcante e sedutor. Sua voz, experimentada em memoráveis músicas, tais como, But Not For Me ou I Fall in Love Too Easily, arregimentava amantes da música e da vida na curtição de beijos e mais beijos. Simplesmente lindo e para quem sabe das coisas. Ezra Pound (1885-1972), o genial crítico literário norte-americano, escreveu em ABC of Reading, uma espécie de "manual sobre literatura", que "(...) o canto clarifica a literatura quando ambos se conservam unidos. Força o ouvinte a atentar para as palavras, quando mais não seja pela repetição, e isso até a extrema deliqüescência, em que o músico, desesperado possivelmente de encontrar um autor inteligente, abandona as palavras de todo e usa sons inarticulados." Nada mais apropriado para falar de Chet Baker, seja o cantor, seja o músico dos sopros suaves. Com uma ressalva: a sua "inarticulação" sonora é a própria coerência amorosa das notas da partitura. Um gênio, enfim.
Por estes dias, em viagens intermináveis de avião, pude ler Chet Baker - Memórias Perdidas (Jorge Zahar Editor, 2002) . Trata-se de um compêndio, meio desarticulado no que se refere ao tempo, coletados pela esposa de Baker, Carol, que teve a grandeza de projetar um pouco da alma do músico por meio de seu "diário sem compromissos com dias, datas ou ordem." As memórias foram publicadas em 1997 e jogam um pouco de luz sobre aquele homem cheio de angústias, sofrimentos e comportamentos enlouquecidos. Interessante nestes extratos é notar que a percepção de Baker para a importância destes não é nada banal. Ao contrário: de fatos comuns ele revela a importância destes para a sua própria existência (ou desejo de existência). Não é um livro fascinante. Nada disso. É um livro revelador que se lido aos sons de Baker nos colocam diante de uma dialética que combina o tufão de uma vida com a maestria doce de suas músicas. Nada mais misterioso. Nem sempre a arte imita a vida, não é mesmo?
Se fosse possível, de minha parte, eu pediria que Chet Baker jorrasse de sua eternidade um pouco de luz sobre a sua morte a 13 de maio de 1988. Seu corpo despencou da janela do hotel em que estava hospedado em Amsterdã e chocou-se contra a calçada. Foi suicídio, acidente ou crime? Bem, a polícia deixou-nos algumas conclusões, mas o mistério sobre Chet, sua vida e morte estão à solta para os amantes do jazz. Por estes dias da vida de viajante passei pela Rue de la Huchette em Paris  onde Chet Baker tocou no Le Chat Qui Pêche. As coisas por ali não estão muito mudadas. Em meio aos bares e pontos de encontros não há nem o silêncio para verificarmos se sobrou alguma nota de Chet no entorno da rua e nem o ruído estrondoso de sua existência. Há apenas a elegância rara de Paris que soma movimento e o destino literário de suas ruas e vielas. Uma espécie de lembrança que define bem quem foi Chet Baker...     

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Além da Vida" de Clint Eastwood Trata da Vida

Clint Eastwood é daqueles atores e diretores de cinema que melhoram como os vinhos: o tempo lhes é um benefício e elevam os seus elementos a uma órbita superior. No caso de Eastwood este processo de superação enquanto diretor iniciou-se, do meu ponto de vista, a partir de Unforgiven (1992), com o qual ganhou o Oscar de melhor direção. Há mais: Clint Eastwood conseguiu evoluir preocupando-se com os detalhes e retalhos de cada cena de seus filmes. Não confecciona, mas se comporta como um alfaiate. Seguiu o padrão do grande diretor que se comporta verdadeiramente como um autor de talento de livros e romances. A cada palavra (cena) ele consegue apurar à perfeição a melhor tradução em forma. Sobra-lhe elegância num mundo do cinema onde impera a agilidade fácil com a cena e, desta forma, propaga-se a vulgarização da idéia por meio da forma. (Não nos demoramos a descobrir isto, não é mesmo?).
Em Além da Vida (Hereafter, 2010, EUA, com Matt Damon, Cécile de France e Lyndsey Marshal) encontramos não apenas a direção elegante de Clint Eastwood. Neste filme propaga-se a beleza com que é tratada uma estória que tinha tudo para resvalar para o lugar comum. O roteiro conta a relação das pessoas com a morte. Há em cada um dos personagens uma procura específica pelo que acontece do outro lado da vida. As transformações pelas quais os personagens passam são, pouco a pouco, entronizadas em seus cotidianos os quais se tornam diferentes frente às possibilidades que aparentavam existir antes de perderem os seus entes queridos ou contemplarem a morte de perto. Um tema delicado tratado com mais delicadeza ainda.
De fato, o filme não trata daquilo que está Além da Vida. (Neste sentido o título em inglês Hereafter é muito mais feliz a meu ver). O roteiro é simplesmente fantástico. Consegue "projetar para trás" o evento da morte. Há um enorme encontro entre as pessoas e a sua própria humanidade. A impossibilidade de compreender a perda de alguém é um fator que  é apurado a favor do ser humano e não contra ele. Os personagens são acomodados em seus próprios sentimentos e, por conseguinte, o roteiro explora cada um a partir de sua própria intimidade. Tudo muito lindo e, quando transformado pelas belas imagens de Eastwood, o filme ganha um traçado ainda mais encantador. Sobra emoção. A compreensão consiste em entender a si mesmo, a perceber que não existe nada que justifique a nossa opressão interior Na Vida e não Além da Vida. Uma inversão de concepção dificílima de ser feita, mas que Peter Morgan, o roteirista, consegue fazer com arte e destreza, seja pelo conteúdo, seja pelo ritmo impecável dos diálogos. Não há exibicionismo ou ostentação em relação ao tema. Apenas a armadilha de nos jogar com sutileza em frente da vida e não da morte. Cada um é cada um diante da vida que é de todos (e a morte também).
Cécile de France é o destaque entre o elenco, muito embora a atuação de Matt Damon seja excelente. Todavia, a atriz francesa está segura e consegue segurar os suspiros perante sua beleza provocante por meio da fortaleza dos sentimentos de esperança, abnegação e coragem que projeta. Um presente dos deuses. No começo do filme ela é ressuscitada. Ao seu final ela nos ressuscita. Dá uma vontade louca de abraçá-la. (Quem assistir ao filme entenderá o que estou a dizer).
Honoré de Balzac, faz reaparecer em cada uma das obras que compõe A Comédia Humana os personagens que fazem parte de outras criações. Esta "ressurreição" foi uma das maiores revoluções literárias de todos os tempos e o nascimento de um estilo de romance copiado por outros grandes escritores. No filme de Clint Eastwood, mal comparando com Balzac, as personagens ressuscitam: elas saem de dentro de si e ganham a tela. Quem viver, há de emocionar. Alguns até as lágrimas. 



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Facebook Revela Não Apenas o Rosto, Mas o Corpo Todo

O grande mérito do filme A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010, dirigido por David Fincher, com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Tiberlake, Joseph Mazzello) é o fato de que não há preocupações de posicionar o Facebook como um "paradigma político-social", nem mesmo como uma "superação cultural". De fato, a coisa toda é fabulosa do ponto de vista tecnológico e de negócios. E pára aí. Todavia, quando nos transportamos para além do filme, vemos que não apenas a face do website é revelada. O corpo inteiro acaba desnudado... 
Basta verificarmos o que está a ocorrer em relação ao WikiLeaks para percebermos que o Facebook não tem nenhum significado que ultrapasse de forma significativa os limites de sua própria utilidade. O WikiLeaks é um paradigma político, social e cultural. Dele decorre a exposição das vísceras do poder, da bestialidade das grandes potências, da leviandade da diplomacia e por aí vai. Interessante que o idealizador do WikiLeaks utilizou-se da mídia tradicional (jornais, TVs, etc.) para projetar para o mundo como este de fato funciona nas mãos dos poderosos. Isto evidencia a junção momentânea entre o novo e o velho. Tal qual a burguesia e a nobreza nos tempos da Revolução Francesa. 
Mark Zuckenberg, o fundador do Facebbok,  é o genial partícipe do mundo dos negócios por meio de sua capacidade de ver a "utilidade" de um sistema que coletou a adesão de 500 milhões de pessoas. Além disso, soube fazer as maldades certas nos momentos certos. E dane-se qualquer escrúpulo. Certamente o WikiLeaks não conseguiria tanto, pois afinal, quem realmente se importa com o funcionamento das estruturas de poder? As pessoas trocam visões sobre o Poder pelo relacionamento virtual, incluindo o sexo e a vulgaridade. Até aí não há novidades: a política do panis et circenses é a marca registrada da manutenção da paz social ao longo dos tempos. Se antes eram os gladiadores e os cristãos engolidos pelos leões agora temos o Facebook e as suas feições pantagruélicas. Bem, muitos pensam diferente. (Não estou a me referir a "utilidade" que tem o website. Estou a refletir sobre os valores sociais que são atribuídos, inclusive por parte da intelligentsia,  à rede social). 
O filme é banal na minha visão. Não há nele nada que possa ser tão meritório para que já tenha arrecadado tantos prêmios e, obviamente, uma bela bilheteria que garante a Zuckenberg  um perfil de mito moderno. A direção é competente, mas não é brilhante. O elenco é razoável e sabe fazer os trejeitos dos esterótipos propostos pelo autor do livro no qual se baseia o filme Bem Mezrich. É daqueles filmes que divide a avaliação do público como se este torcida fosse: os que adotam e "amam" o facebook acham o filme espetacular. Os outros acham que não há nada demais nele... Bem, vale a pena testar de que lado você fica.





segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Woody Allen Tenta Enganar. Mas, Não Consegue.

Há aqueles que julgam o cineasta Woody Allen um gênio do cinema. Nunca me incluí dentre estes. De fato, a sua filmografia inclui filmes muito bons, tais quais, Bananas (1971), Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar (1972), Noivo neurótico, noiva nervosa (1977), Interiores (1978), Zelig (1983), A era do rádio (1987) e Vicky Cristina Barcelona (2008).
Se olharmos o conjunto de sua obra, concluiremos que em grande parte dela Allen se ocupa em trazer para a tela o cotidiano e refleti-lo de forma às vezes dramática e às vezes cômica dentro de uma moldura padrão. Ele, no geral, abusa da própria forma de ver o cinema, dando-lhe um ar próprio, mas por vezes chato e óbvio, para não dizer cansativo. Parece ter um conjunto de falas programado no seu computador e, de repente, o saca conforme a necessidade de cada cena de seus filmes. Neste sentido, ele parece como os improvisadores  da commedia dell´arte do século XVI com as suas pantomimas. Na maioria de seus filmes, o enredo corre como uma improvisação no qual os autores seguem uma série de falas pré-programadas que podem ser utilizadas em variados espaços e tempos.
No que diz respeito à temática, Woody Allen apela sempre para a crítica deslavada dos valores sociais. Em seu lugar nada coloca. Deixa aquele vazio que todo mundo sabe que existe, que as vezes sentimos e por vezes conversamos a respeito. Quer ser Freud, mas acaba mesmo sendo Groucho Marx. Pouco existe em seus filmes de seus cineastas prediletos: Ingmar Bergman, Felini, De Sicca ou Godard ou Truffaut. Há um monte de gente que vê todos estes gênios (estes sim!) por detrás de Allen. Para mim não passa de ilusão de óptica para dizer o mínimo.  
No seu último filme,  Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010, EUA, You Will Meet a Tall Dark Stranger, com Antonio Banderas, Josh Brolin, Freida Pinto, Naomi Watts e Gemma Jones,), Woody Allen não apenas abusou da velha fórmula como passa a sensação de tentar enganar a todos de uma só vez. O filme é pretensioso (a começar pela citação inicial de Shakespeare), tem uma história ridícula que não deveria inspirar o menor cuidado dramático, não tem ritmo, é mal repartido no que se refere ao correr das cenas e o velho jogo rápido da câmera acaba por jogar o seu velho recurso de imagem no lixo. O pior de tudo é ver o magnífico elenco tentando salvar cada cena. Fico imaginando se Allen os orientou em relação à execução do roteiro. Não deveria, pois não há o que salvar nos diálogos. Até as suas velhas piadas, conseguiram ficar mais velhas a despeito de arrancar algumas risadas do fundo da platéia. (Há quem se divirta sempre).
O melhor a fazer neste filme é ir embora antes, com a sensação de que o dinheiro do ingresso deveria ser reposto de forma instantânea.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"José e Pilar": Um filme (não apenas) Sobre o Amor

Quando dizemos a outrem que assistimos a um documentário vem logo a pergunta: sobre o que ou quem era o documentário? Se fosse um filme de ficção a pergunta recairia sobre o desenrrolar do roteiro, os personagens, os atores, etc.
José e Pilar (2010,Brasil/Portugal, dirigido por Miguel Gonçalves Mendes) mostra a intimidade do casal José Saramago e Pilar del Rio, em suas viagens internacionais e, sobretudo, na Ilha de Lanzarote na Espanha onde o escritor português morou por longo período e ali morreu. O filme demorou três anos para ser concluído, entre a captação das imagens e diálogos e a correspondente edição. Foram mais de 200 horas de gravação.
Confesso que eu não saberia dizer exatamente sobre o que é o documentário. Digo isto de maneira bastante singela e sem a pretensão de desqualificar o filme. Ao contrário: há todo um frescor nesta história toda, uma intimidade bem retratada e sem esnobismos estéticos. O diretor do filme, Miguel Mendes, em entrevista ao jornalista Luiz Zanin do Estadão em junho deste ano, diz que o "este filme é sobre o amor que se estabeleceu entre José Saramago e Pilar Del Rio". Maria del Pilar del Rio Sánchez é a jornalista espanhola com quem José Saramago casou-se em 1988 e com ela permaneceu até a sua morte em junho deste ano. Bom, de fato há uma boa dose de amor na relação mostrada no filme entre José Saramago e a esposa dedicada. Todavia, parece-me que reduzir o filme a esta relação seria empobrecê-lo. Não é o caso. 
O documentário não tem a menor pretensão de situar o autor em relação à sua obra criadora, apenas mostra a banalidade da vida de um Nobel em sua casa, em suas viagens e (também) com sua esposa. Ela sim protagoniza uma relação direta entre a sua obra (organizar a vida do escritor português) e a sua vida (a intimidade litarária,inteligente e cheia de opiniões). Frente à figura de Pilar, José não parece um vice-rei. Parece mais um súdito que contempla a vida imaginativa, enquanto Pilar coloca o cotidiano frente-a-frente com aquelas imensas lentes dos óculos de Saramago. O feijão e o sonho. É o que me parece.
De outro lado, há um momento literariamente interessante que é quando o escritor português inicia e termina (depois de uma demorada doença e convalescença) o livro "A Viagem do Elefante." Há poucas e boas cenas que retratam o ato sofredor, intenso e torturoso da criação literária. Não afirmaria que é o ponto alto do filme, mesmo porque não consigo identificar um ponto alto neste filme que conta uma história plana, mesmo que cheia de significados.
Quanto ao escritor, não há brilho propriamente nas imagens captadas. O que vi foram suas velhas obsessões com a morte, a insignificância do ser humano, com Deus e com Portugal. Saramago destila novas frases sobre estes temas, mas a temática já é por demais conhecida. Acho até mesmo que por detrás de suas opiniões há umas reticências de vaidade extraída de sua sabedoria. Sei lá! Foi o que me pareceu. Posso estar errado, é claro!
Em certo momento, fiquei comovido quando Saramago (que estava aqui no Brasil) diz que se pudesse pedir algo ele pediria tempo. O tempo necessário para continuar fazendo suas coisas e obras e, da mesma forma, para estar com Pilar. O tempo sempre foi uma obsessão para mim. Trato-o por meio de formas poéticas porquanto eu não consigo entendê-lo racionalmente. Para Saramago, o tempo parece fazer parte da insignificância do mundo e do homem. Para mim, o tempo me parece uma espécie de castigo de Deus, uma cerca de fazenda, para nos fazer relevante perante o mundo. Saramago diz que Homero não sobreviverá ao tempo. Eu digo que Homero apenas existiu porque o tempo assim permitiu. Mas, isto tudo é outra coisa. Não é o caso...
Voltemos ao filme. Ao contrário de muitas pessoas, especialmente as mais "cultas e privilegiadas", eu tenho particular atração pelas declarações de amor. Refiro-me não aquelas que estão contidas na literatura, em particular, ou nas artes, em geral. Digo daquelas em que as pessoas, famosas ou não, olham nos olhos das outras e declaram o seu amor. Considero este momento raro. Isto em função de sua banalização, diga-se. E é este exatamente o desafio dos amantes: puxar do fundo d´alma aquilo que dizem ser o Amor, sem cair no banal, no piegas ou no fingimento ocasional. De alguma forma indescritível, José e Pilar conseguem traduzir em uma declaração, silenciosa ou não, o amor que sentem um pelo outro. Isto é muito belo e vale a pena ver e sentir. Mesmo para aqueles que se julgam céticos como o escritor português. Por isto mesmo acho que Homero vive...

domingo, 14 de novembro de 2010

"Contos da Era Dourada" Trata de Uma Era Trágica.

Recentemente repassei trechos da magnífica biografia política de Josef Stálin, escrita pelo consagrado escritor marxista Isaac Deutscher,(1907-1967) que além de sua famosa obra sobre Stálin também biografou  LéonTrotsky e fez reputados ensaios sobre o Império Soviético. Um trecho me chamou à atenção em especial. Fazia referência ao escritor Maxim Gorki (1868-1936), famoso escritor e revolucionário, companheiro de primeira hora de Lênin no seu projeto de instalação do regime comunista na Rússia. A certa altura, depois da ascensão de Stálin ao poder , Gorki passou a criticá-lo por meio de seu jornal Novaia Jizn. A resposta de Stalin foi feroz, vulgar e insultante. Em discurso perante seus correligionários afirmou literalmente:
"A revolução russa derrubou muitas autoridades. Seu poder se expressa, entre outras coisas, no fato de que não se dobra diante de "grandes nomes". A revolução recrutou-os a seu serviço ou reduziu-os a nada se não desejavam a aprender com ela." (O grifo é meu).
O filme romeno Contos da Era Dourada (2010, dirigido por cinco diretores romenos, Cristian Mungiu, Hanno Höfer, Constantin Popescu, Ioana Uricaru e Razvan Marculescu) trata exatamente da redução ao nada sobre o qual pregou Stalin. Os contos são uma criação que parece exótica sobre a realidade da Romênia nos anos 80 quando o país estava submetido à ditadura de Nicolae Ceausescu (1918-1989). O filme assume de forma irreverente a forma de comédia muito embora esteja a tratar da mais pura realidade social e política daquele feroz regime comunista. 
Em meio às crises de desabastecimento, à falta de dinheiro e de oportunidade para os mais jovens, à ausência de satisfação mínima aos anseios individuais dos cidadãos e à crise moral que reveste os aparelhos do Estado, os diretores conseguem destilar um refinado espírito crítico cheio de humor e ironia. Uma missão que parece relativamente difícil, mas de fato não é. Afinal, o que se chamava de regime proletário não passa de uma combinação trágica e, ao mesmo tempo, cômica de uma realidade objetiva e incontestável. O lado cômico diz respeito às faces histrônicas e pretensiosas do Poder espalhado pelo território que ocupa. A face trágica diz respeito ao atolamento dos indivíduos pelo regime e a violência que se expressa no cotidiano mais singelo às transações políticas mais nefastas. Tudo sob o silêncio oculto e imperativo de um regime personalíssimo (tal qual no tempo de Stalin).
Ainda é tempo de se fazer uma reflexão sobre o desenvolvimento dos projetos daquilo que outrora se denominou de regimes revolucionários. Neste filme temos os feitos contados por meio de humorados contos cinematográficos. Todavia, há muito mais que ser falado. Os regimes comunistas nos provaram que a a Utopia do proletariado se descarrilou em ditaduras cruéis que escravizaram o povo e cultivaram e cultuaram as personalidades mais obscuras do século XX (Stalin, Mao liderando o ranking) juntamente com Hitler. No final das contas tivemos a destruição de velhas ordens por meio da barbárie e a instalação de regimes novos que foram a barbárie. Há ainda no mundo que encoste o seu pensamento na ilusão de que havia ali algo civilizatório na política e no desenvolvimento social. Nunca houve. Apenas o ovo da serpente brotou e trouxe as suas conseqüências mais horrendas. Estamos hoje livres para constatar isto, mas ainda não estamos livres daqueles que ainda acreditam nestas moléstias.
Os contos deste filme não são dourados e nem a era é dourada. Apenas o humor é nobre. Exatamente para tratar de aspectos e fatos sórdidos. Dura ironia.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

"Dois Irmãos": Um Filme Cheios de Sutiliezas

O cinema me parece uma das últimas resistências, senão a última, ao processo de "padronização" do pensamento ocidental. De fato, parece que a história acabou, mesmo que saibamos que esta afirmação é uma farsa. O pensamento, a reflexão, a introspecção na alma do homem, são formas nobres de trabalho. (Mas, quem deseja trabalhar?). Nele a mais-valia nada mais é do que aqueles saltos que damos para pensarmos na realidade e na sua correspondente transformação. Ok! Eu sei que estou fazendo uma pregação quixotesca quando olhamos a barbárie que cerca a humanidade, a falta de delicadeza, a ausência de espírito crítico e assim vai. Seria ótimo que alguns loucos (mesmo que poucos) se ocupassem das trincheiras da resistência à banalização fácil do pensamento.
Cinema, assim como literatura, é "estranhamento". Diante de uma realidade objetiva e banal se pode extrair transgressões que nos fazem pensar e ir além. A vida vale a pena por isto. Se se cai no vazio da existência, acabamos sabendo completamente os fatos (basta ir ao google), mas pouco sabemos dos fatos. Um pouco sutil, mas a vida é cheia de sutilezas. A bem da própria humanidade.
O diretor argentino Daniel Burman em Dois Irmãos (Argentina, 2010, com Graziela Borges e Antonio Gasalla) consegue atingir o "estranhamento" dos fatos de forma delicada, inteligente e com uma ironia suave e aguda ao mesmo tempo. Este filme tem traços da nouvelle vague, não propriamente na temática amoral, mas na ausência de lineraridade entre os personagens e suas estórias. Trata de dois irmãos como reza o título. Ela é uma uma corretora de imóveis, sempre cercada de si mesma, sempre marcada pelo ceticismo e por uma ausência de intensidade. Tudo lhe parece óbvio e capaz de fornecer frutos que possam lhe satisfazer o próprio ego. A vida não tem sutilezas e nem a fortuna de ver além da própria existência "careta" e burguesa.
Já o irmão é revestido de sensibilidade, seja no tratamento carinhoso e generoso à mãe, seja na sua atividade de artesão. A cada passo que dá, ele extrai os temperos da vida, edifica além dos tijolos disponíveis e escassos. O que poderia se esperar de um aposentado? Ele nos prova que muita coisa, inclusive a capacidade de traduzir para si e para os outros os mais profundos significados da existência. 
O filme não é um show e nada tem de pretencioso. Ao contrário: tem o ritmo de uma peça bem encadeada e que a cada cena faz o espectador se entregar a si mesmo. Um espécie de jogo de sedução. As impossibilidades da realidade humana vão se traduzindo em amplos salões que podem ser percorridos por nós mesmos.
Do choque de visões entre os dois irmãos nasce um questionamento raro no cinema, sobretudo naquele que é produzido nas periferias de Hollywood. Não é um jogo de Caim e Abel. Trata-se de um filme inacabado, de fato. O diretor não se preocupa com a paródia, mesmo que esta lhe seja útil. Há uma dialética nada cansativa onde as diferenças se entrelaçam e criam um novo momento. Em certo momento a peça grega Édipo Rei é utilizada com rara beleza, porquanto cria um novo e surpreendente momento, magnificamente encarnado pelo ator Antonio Gasalla. Ali, vemos que a memória e o esquecimento dos fatos se transporta para a própria vida.
Daniel Burman consegue fazer a sua parte e resistir á onda que dilacera a arte cinematográfica. Faz um filme sem chatices, mesmo que acabe por sobrar alguma chateação para aqueles que vêem a vida com a amargura e o niilismo projetados pela também excepcional atriz Graziela Borges.
O saber que provem do cinema é, ao mesmo tempo cognitivo, (conhecemos a realidade) e reflexivo (vamos à essência daquilo que vivemos). Nem sempre é assim, é claro. Somente para aqueles que sabem que existem sempre Dois Irmãos  que nos perseguem em nós mesmos. Felizmente ou infelizmente sempre acabamos por ter de escolher um deles. Não dá para fugir. Mesmo que corramos o mundo todo...  

domingo, 24 de outubro de 2010

Os Dois Outonos do Momento

Nestes tempos de outono no hemisfério norte, veio a releitura de O Outono do Patriarca (Editora Record, tradução de Remy Gorga, Filho, 15ª edição, 2003). Neste texto de 1975 o Nobel Gabriel Garcia Marquez refaz o seu estilo realista-fantástico para colocar de novo o dedo na ferida social do homem, em especial o latino-americano. Trata-se de uma reflexão implacável sobre o poder, a corrupção, as práticas delirantes e a loucura que leva o homem a caminhar como um rei entre os destroços sócio-políticos da comunidade da qual ele próprio emerge. Ora, nada mais atual neste turno de eleições no Brasil quando a leitura dos jornais nos coloca dentro de uma bolha de vidro da qual não conseguimos discernir onde está a verdade dos fatos, mas, que de outro lado, sabemos que sejam quais forem os fatos, lá está intacta a verdade. Nua e crua.

Li este livro há cerca de dez anos. Resolvi relê-lo para verificar se conseguia escapar de certa desesperança que bate à porta quando Marquez escreve sobre a realidade latino-americana. Fiquei novamente estonteado pelo estilo belo e poético do escritor colombiano. Depois de ler As Travessuras da Menina Má do rival pessoal de Marquez, o também Nobel Mario Vargas Llosa, considero a hipótese de me debruçar por entre livros menos substanciosos. Pelo menos por algumas semanas. De ilusão também se vive, não é mesmo?
Também é outono em Nova York. Viver este outono é tarefa bem mais suave e romântica, mesmo que nos intervalos das andanças por Manhattan estejamos a carregar o livro e a lê-lo nos cafés mais charmosos do Soho. Nova York para mim é uma lição de paciência e perseverança, por entre uma tardia esperança nascida da capacidade do ser humano em se superar. Muito seduz e quase tudo nos conduz a terrenos arqueológicos do nosso interior. O jazz do Soho e do lendário Blue Note, o jantar dos pequeninos bistrôs dos arredores das avenidas com numeração mais baixa, os notáveis restaurantes gregos que tanto amo, os shows surpreendentes de velhos ícones e uma inesperada conversa com o ator Jeff Bridges. Nada melhor. Ademais botar nos ouvidos o recém-adquirido iphone e escutar Ella Fitzgerald, o velho Sinatra e Chet Baker, cada um no seu sedutor estilo, cantando ou tocando Autumm in New York. É tudo transbordante e magnífico. Podemos apreciar muito além das aparências do consumo desenfreado e dos friorentos cantos do Central Park. Sorte. Muita sorte. Estar vivo e sóbrio (nem sempre!) para sentir tudo isto. Meio renovado e meio moído. É a vida. Estes dois outonos preenchem a minha vida. Por aqui, fico esperando o verão e seu sol belo e quente. Com a benção de Deus.


Deixo aos amigos um poema que escrevi há dois anos, mas que faz parte de meu centenário interior. Era inverno. Um longo inverno que ainda não acabou.

A Grande Maçã


Se tens as cores e contornos da maçã
Se és uma pequena cidade azul
Ou, ainda, se és o cinza de teus edifícios
Pouco sei ou hei de saber.

Sinto-me possuído de minhas sensações e sentimentos neste mundaréu
Que preenchem uma pequena ilha, assuntada por um rio e um escondido mar
Não vejo a altura dos andares dos prédios por quanto estes despencam
Não vejo as bandeirolas de seus hotéis – são tantas!
Tudo sai dos múltiplos ventres de tuas avenidas e ruas
Todas tão simétricas quanto desigual é tua gente
Como esquecido, sinto-me às vezes em catacumbas.
Só escuto ecos como se estes resvalassem em gargantas
Não há sons em teus ventres, apenas murmúrios
Incompreensíveis, diga-se
Tudo a se derramar...
Até as pontes que pretensiosamente tentam ligar terra a tanta terra
Vãos que carecem de vida e sorrateiros protegem os desprotegidos
Gargântulas estão por todo lado
A consumir tudo ao redor
Sem piedade ou qualquer graça
Da desgraça também se alimenta
Pantagruel incomensuravelmente insaciável
Que draga gente
Que rumina variados vegetais e remédios
Gente, gente, gente e gente de toda raça, de toda terra
Cidade nua que se veste em cada esquina
De sabores confusos e olfatos dúbios
De fedores e esplendores
De longos corredores e museus nus e revestidos
Placas comemorativas e nomes, nomes, nomes, nomes
Quantos beneméricos pode ter uma cidade?
Quanto dinheiro pode ter um benemérito?
Quanta benemerência as carências de tanta gente merecem?
Tantas vias preenchidas de fumaça
Mulheres secas, mulheres cheias, mulheres negras e incolores
De seios pequeninos ou fartos a alimentar sonhos
E tão poucas crianças
Crianças pálidas de pálidos sorrisos
Por entre praças se entrelaçam com pouca mata
Ah a mata! Aquela mata central
Tal qual uma vulva invulgar
Infértil, mesmo que se propague por toda a cidade
De resto, aquela mata que justifica tanto cimento,
Tanto asfalto,
Tanto descaso.
Não há deuses por lá, mas há templos
Resvala certa espiritualidade cheia de esperanças e devaneios
Sem realizações, sem registros, sem livros sagrados e sem cemitérios
Tudo é desejo naquela cidade
Desejo do bem, da glória, da vitória, da saúde e do dinheiro
Tudo é desejo e algum sonho
Sonhar por entre céus sem horizontes
Nas suas lojas, nas suas bodegas, nas mesas de bares
E tudo jaz.
E tudo jazz
Com seus negros atléticos e frenéticos
Seus expectadores e esterótipos
A comida gorda que se esparrama por entre as mãos negras de negras serventes
Aquela batida metronômica, nove notas, nove horas
(Nove?) músicos
A música
De um povo sem nação, de uma terra sem governo e de uma nação sem língua
Jargões e mais jargões
Palavras e mais palavras
Sacudidas nas bocas cheias que expelem sabores confusos pelos trens e salões
É muito cheiro, é muito bafo, é muita saliva
E come, come e come
E bebe, bebe e bebe
E fala, fala e fala
Ninguém escuta
Japonês, tailandês, norueguês, português, chinês, francês, inglês
Clichês, clichês, clichês e clichês
Ideologias e mais ideologias
A justificar quase tudo, mesmo que não haja totalidade.
Tantas luzes, raios e trovões travestidos de canhões
Será a Cidade das Luzes?
Quanta filosofia em vão...


Existem refúgios em meio aquelas ruas e avenidas.
Tantos refugiados
Fugitivos daquela sensação evocada em cada esquina
De que há tantos lugares para ir
Melhor esperar
Por aquilo que não se sabe, não se vê e não se sente
Apenas existe
Furtivamente.

New York, Dezembro 2008





domingo, 12 de setembro de 2010

A Menina Má de Mario Vargas Llosa e de Todos Nós

Mario Vargas Llosa é um escritor genial, dotado de quase todas as virtudes requeridas de um escritor. Todavia, acumula uma versatilidade no uso dos ingredientes que tornam um romance numa obra de envergadura dramática. Em Travessuras da Menina Má (2006, Editora Objetiva, Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht) Llosa consegue escrever sobre um tema - ou será uma idéia? - grandioso, mas que se enquadra na natural estreiteza da caracterização de cada personagem. Uma tarefa nada fácil e que pressiona o escritor a cada parágrafo, sob o risco e a sanção de que perca a necessária tensão da escrita e da idéia que prende o leitor. Neste romance, Mario Vargas Llosa conta em primeira pessoa uma história de amor e desamor entre um tradutor (Ricardo Somocurcio) e a sua fugidia amada ("Menina Má).
Confesso que este livro permaneceu em minhas prateleiras por pelo menos três anos. Fiquei entre a falta de tempo para me ocupar da leitura e a tentação de experimentar mais uma vez a grandeza de Llosa. Resolvi pegar o livro e, pouco a pouco, nas noites e madrugadas, preencher a minha insônia. Resultado: fui dragado pela leitura do livre e pela sua provocação nada gratuita. Caiu como uma luva, como um encontro entre os olhos daqueles que desejam ser desejados.
Tão logo comecei a ler as Travessuras lembrei-me da obra A Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho. Neste livro, Dumas conta-nos sobre a frivolidade social típica da segunda metade do século XIX na França quando a expansão econômica da burguesia espalhava-se pelos costumes sociais da época. A cortesã Marguerite Gautier utiliza-se do amor para obter dos pares sociais o reconhecimento. De muitas formas, seu intento se realiza sob a complacência dos que a rejeitavam.  Por sua vez, Armand, parte da burguesia de então, é o homem apaixonado que busca enquadrar os seus sentimentos ao status quo do qual é vítima e algoz ao mesmo tempo. Não há compatibilidade exterior entre as ambições e o amor de cada um deles. O ponto é desencontro e não o encontro.
Mario Vargas Llosa em Travessuras  faz uma opção ainda mais arrojada do meu ponto de vista. A incompatibilidade entre a menina má e Ricardo é interior. O amor é uma impossibilidade inexplicável do ponto de vista dela e é algo absolutamente consolidado no coração dele. A cada encontro amoroso por diversas cidades do mundo (Paris, Londres, Tóquio, etc.) há um correspondente desencontro destas almas. A pergunta mais óbvia é: por que menina má você não é capaz de amar? A resposta não vem e não vem...
Nestes nossos tempos não é raro e sequer difícil cairmos no abismo da absoluta descrença no Amor. Refiro-me ao tema, genérica (como ideal humano) e especificamente (o amor de um homem por uma mulher). Llosa tece um enredo espetacular para estontear os amantes e causar açodamento aos descrentes do cupido. Usa o amor de um homem por uma mulher para mostrar que talvez tenhamos mais razões para duvidar que acreditar. E vice-versa.
O interessante é que nenhum sofrimento de Ricardo diante dos desprezos da menina má interrompe a capacidade dele de prosperar e persegui-la, mesmo que quem o procure seja ela. As suas declarações de amor são tidas por ela como algo brega. O fato é que em lugar destas declarações bregas a menina má nada coloca. Há um completo vazio existencial. Talvez ela saiba que o amor é assim mesmo: parece uma entrega sem charme, sem a aparência lustrada dos tempos modernos, sem os cálculos em relação às palavras e aos interesses, sem o sentimento prévio das vantagens que se retirará do outro, o dinheiro, a vaidade, a ingratidão, etc....
A menina má não cede: ela irá gozar os bons momentos com Ricardo e o descartará sem mito, censura ou candura. Não consegue amá-lo, nem a ele e nem a ninguém. Em cada amante encontra um interesse e o extrai, seja qual for o custo, seja o seu corpo sedutor ou a sua capacidade camaleônica de saber se portar perante cada um. Fatos e sinas. Tristes fatos, tristes sinas, diria Ricardo Somocurcio.
Se em Dumas temos o arquétipo do amor pequeno-burguês em Mario Vargas Llosa temos a essência eterna do Amor, vivida por Ricardo, e a inconsciência construída da menina má que não quer amar por pura conveniência. Parece duro, mas prestemos atenção: o mundo é isto mesmo. Descarta-se não apenas o Amor, mas a própria possibilidade de que ele possa persistir. É preciso trabalhar por ele, mas há muito mais que é priorizado: das coisas frívolas do cotidiano até a ambição de conseguir o que se quer, seja qual for o custo a se tomar. Ricardo, ao contrário do personagem de Dumas (Armand), não é algoz. É a vítima de sua própria crença. É daqueles que acham que a sua bondade para com o Amor há de recompensar. Não recompensa. Não há mal entendidos entre o amante Ricardo e a frieza da menina má. Tudo parece claro a cada encontro, mesmo que existam mistérios,  magnificamente bem explorados pelo escritor peruano. O grande equívoco do romance já é dado pela visão antagônica dos dois sobre o Amor e o equívoco dela que seja possível viver sem ele. Resta saber quais dos dois é o mais lúcido.
Tenho a impressão que os leitores deste romance optam por Ricardo na leitura, mas talvez muitos ajam como a menina má. É claro que isto é uma presunção e tanto, mesmo que os efeitos sobre as relações humanas estejam despejadas por aí, entre tantos desencontros amorosos. Bem, como disse, é uma presunção. Para terminar deixo um trecho das Cartas a um Jovem Poeta  de Rainer Maria Rilke cuja essência tivesse penetrado a alma da menina má talvez o amor merecesse melhor fortuna:


"Parece-nos que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver os nossos sentimentos que nos tornaram estranhos..."





terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Beleza de Jolie e a Paranóia Americana

A beleza sexy e reluzente de Angelina Jolie é o que há de melhor no filme Salt (EUA, 2010, direção de Phillip Noyce, com Liev Schreiber e Chiwetel Ejiofor). De fato, Jolie evoluiu na beleza, reduziu o peso e, aparentemente, expandiu os seios. É um colírio em meio a centenas de efeitos cênicos e especiais, muita ação e uma filmagem cuidadosa do ponto de vista de cenários e explosões (literais). A coisa pára por aí: o filme tem dois problemas que jogam o filme para um destino desastroso. O primeiro é um roteiro confuso e que não cria a tensão que a força das cenas exorbita. Simplesmente a estória não acontece, fica tudo numa promessa completamente vazia. A saída foi simples e coroa a falta de mínima coerência do roteiro: inventa-se um destino para a principal personagem (Salt), o que promete outro filme, mas torna tudo ainda mais confuso. O roteiro somado às cenas é um desastre.
O segundo ponto notável deste tipo de filme é a busca frenética dos autores, sejam eles os diretores, os produtores e todas as equipes, por um inimigo imaginário dos EUA. Se durante a Guerra Fria ou mesmo após a II Guerra Mundial, o tal do "inimigo" era absolutamente detectável, o que se nota é que a queda do Muro de Berlim foi um completo desastre para a filmografia neurótica dos EUA. Como se sabe, há muitos inimigos que podem atingir os EUA - Bin Laden provou isto -, mas não há nenhum que possa destroçá-lo. Não obstante, a patota de Holywood precisa inventar um "inimigo comum e externo" que seja capaz de permear o imaginário da sociedade americana (e correlatas). O que sobrou foi Cuba (pequena demais para assustar), a Coréia do Norte (longe demais para perturbar as mentes) e o terrorismo islâmico (muito batido em Hollywood). Ora, Salt consegue ressucitar a ex-URSS. Acreditem, a ressureição soviética comunista acontece na tela!


Fico imaginando o rol de interesses que motivam um escritor de roteiros a ir tão longe. Nem é preciso associar isto à indústria armamentista, afinal a "guerra ao terror" já é suficiente para jorrar milhões para muito tigre industrial. Acredito que há algo mais no ar: a segurança nacional norte-americana não é mais algo buscado por razões "legítimas" de interesse do país. A coisa já invadiu os cantos cerebrais do norte-americano comum que precisa de alguma excitação para que os seus vetores paranóicos funcionem. Não fosse isto, não se cultivaria tanto a neurose da filmografia com os temas bélicos. O problema é que, ao contrário do bom e charmoso James Bond, é provável que a audiência saia convencida de que aquela baboseira toda possa sair da tela e acabar nos quintais gramados dos subúrbios da classe média yankee. Numa dessas, os hispânicos, negros e pobres (ou tudo isto junto) terão de ser deslocados com suas armas para enfrentar o "inimigo".
Fico imaginando Angelina Jolie, tão fiel aos seus afazeres humanitários, em meio às filmagens. Será que ela se ressente de estar propagando algo tão nefasto às mentes do mundo afora, especialmente dos americanos? Perdoe-me a incursão em tema tão sério e diante de filme tão bobo, mas é que não acredito nesta separação tão nítida entre a fantasia e a realidade...
Salt náo serve sequer para divertir, mas não sejamos tão egoístas: é deste filme que depende o salário de Jolie e ela merece! Recentemente, se tornou uma das top five mais bem pagas do cinema mundial. Ela pode não ter muito talento artístico, mas cada um usa o que tem, não é mesmo?