domingo, 23 de maio de 2010

Robin Hood: Scott Mostra Serviço

"Magna Charta Libertatum seu Concordiam inter regem Johannen at barones pro concessione libertatum ecclesiae et regni angliae". Este é o nome do documento em torno do qual gravita o roteiro de Robin Hood (EUA, 2010, dirigido por Ridley Scott, com Russell Crowe, Cate Blanchett, Max Von Sydow e William Hurt). Trata-se da "Grande Carta das liberdades, ou Concórdia entre o rei João e os Barões para a outorga das liberdades da Igreja e do rei Inglês", ou simplesmente "Carta Magna" de 1215, assinada na Inglaterra entre o rei João Sem Terra e os nobres de seu reinado. Tal documento foi o primeiro, dentre os mais importantes, a traçar os limites básicos do constitucionalismo moderno. Nela estão contidos os deveres e direitos relacionados à aplicação da justiça, à cobrança de impostos, ao direito de ir e vir (habeas corpus) e à disposição generalizada da justiça e do direito aos cidadãos.

No contexto político de então, Ridley Scott arma o seu cenário: Robin não é ainda Hood, mas Locklsley. Não vive na floresta de Sherwood, mas inicialmente na companhia do Rei Ricardo Coração de Leão e, posteriormente, sente-se moralmente obrigado a cumprir uma missão de lealdade, a partir da qual, o filme segue mais celeremente e de forma empolgante. A alternativa escolhida por Scott não deixa de ser notável, na medida em que fugiu das mesmices que acompanham os filmes produzidos posteriormente aos malabarismos de Errol Flynn no filme "As Aventuras de Robin Hood" de 1938. Há na filmografia de Hollywood pelo menos cinco filmes que tentaram, em diferentes épocas, construir a imagem do "bom ladrão" de Sherwood. Mais recentemente (1991) Kevin Costner criou um patético Robin, mais afeito às temperaturas amorosas que aos recantos de Sherwood.
Se, de um lado, Ridley Scott, consegue fugir ao tradicionalismo dos roteiros do herói, de outro, este passo não é neutro: o que vemos na tela é um personagem mais sóbrio, menos romântico  (troca pouquíssimos beijos com o seu par romântico) e muito mais cavalheiro que cavaleiro. Sua flecha continua precisa nos intentos justiceiros que empreende, mas este é mais um recurso de imagem que o "centro" do roteiro. Há, mesmo sendo um filme para o grande público, traços políticos neste Robin. Sua percepção está alinhada com o povo que o cerca e ele é um credenciado político entre o baronato e o instável e sanguinário rei. Sabe ser republicano - perdoe-me o trocadilho.
Apesar do rosto mais sério de Robin Locksley, o filme é divertido e consegue entreter, apesar do barulho da pipoca do vizinho e de sua mastigada sonora. A fotografia é perfeita, os cenários, sobretudo os externos são adequados às pretensões de Scott, e os fatos contados estão muito bem editados do ponto de vista do tempo e do espaço. Interessante notar que os velhos truques cênicos e de câmera de Ridley Scott estão todos reproduzidos no filme. Em certos momentos a comparação com Gladiator são inevitáveis, ou mesmo, há sensação de que regressamos ao antigo filme sobre o Império Romano decadente.
Cinema foi feito para divertir, mesmo que isto não lhe retire o dever de esposar a alegria de estar diante da tela com certo espírito crítico e elevado. O Robin Hood de Scott consegue cumprir a sua parte. Acertou no alvo.

Um comentário:

Unknown disse...

Algumas pessoas adoram mastigar a pipoca de boca aberta, esquecem da educação quando as luzes se apagam, hahahaha.
Muito bom o Filme. Até agora nossos gostos estão aprecidos, os filmes que você comenta ser bom, eu vejo e gosto.

Abçs
Danilo Pina