segunda-feira, 5 de abril de 2010

Nelson Rodrigues e o Caráter do Brasileiro

Poucos pensadores brasileiros conseguiram apreender o caráter mais profundo do brasileiro. Não foram poucos aqueles que buscaram penetrar na alma brasileira e dela retiraram os genes que explicam o nosso comportamento antropológico e político.
Sem maiores pretensões e sem um critério científico aplicado à tarefa de listar estes pensadores, tomo a liberdade de citar aqueles que julgo os mais notáveis: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro. Suas principais obras se constituem individual e conjuntamente o que de melhor o Brasil pode respirar em termos de pensamento. Freyre, com a sua Casa Grande & Senzala, Buarque de Holanda com Raízes do Brasil e Faoro com Os Donos do Poder. Nestas obras não encontramos a universalidade humanista, mas o mais nítido universo da brasilidade, seja do homem comum, seja das elites. Do universo para o subúrbio.
Tenho para mim que poderíamos incluir mais um "pensador" neste rol. Trata-se de Nelson Rodrigues. Muito embora a sua dramaturgia esteja para além das muradas acadêmicas, ele soube construir uma obra que no seu mosaico constrói de forma espetacular o caráter (ou a ausência dele) do brasileiro. Certamente ele rejeitaria a empreitada de "pensador".
Ler Nelson Rodrigues é, além de um prazer literário, uma descoberta a cada linha e parágrafo. Uma revelação da personalidade brasileira, retirada e reiterada no seu gesto mais particular.
Rodrigues foi um escritor que confrontou com esmero lingüístico e factual uma visão própria e moral da vida com as evidências mais notórias e inconfundíveis do cotidiano do brasileiro urbano e suburbano. Nesta paisagem as elites do país ficam em posição muito desconfortável:  se o povo tem as "suas cáries morais e éticas" (nas palavras de um amigo), as elites podem ser categoricamente descritas como burras, incompetentes, cínicas e incapazes de ir além de poucas invenções que lhes servem à dominação.

Os personagens das crônicas de O Óbvio Ululante, A Vida Como Ela É, Sob a Sombras das Chuteiras Imortais, bem como a sua obra teatral (sobretudo, A Falecida, Vestido de Noiva, Bonitinha, mas Ordinária e Álbum de Família) sequer parecem  flutuar entre a ficção e a realidade. O mérito rodriguiano é cavar as fissuras dos homens e mulheres brasileiras e numa excepcional valsa com a língua dizer o que tem de ser dito. De fato, não há nada ficcional. É o hipertexto da própria realidade. Trata-se de um espelho límpido de nosso caráter. Ao leitor não cabe sequer tentar salvar a própria pele e dizer que o espelho está quebrado. Não está não! Até mesmo não chegamos a nos espantar com o que vemos. Como diz Nelson: "Reparem como o brasileiro se espanta cada vez menos. Somos um povo de pouquíssimos espantos." Escreveu isto em fevereiro de 1968.
É bom rir junto com Nelson Rodrigues. Tão incrível é ver a atualidade de sua obra. O Brasil não é país afeito às transformações das suas camadas de pele mais profundas. Nunca nos aproximamos dos músculos que devem nos sustentar. Ao contrário, o intenso processo de urbanização, o advento da internet, o aumento monumental do consumo, a sexualização alavancada pelos meios de comunicação, a redução do protecionismo econômico não produziram tantas transformações antropológicas quanto imaginamos. Pelo menos no que tange ao caráter social do povo e de suas "moderninhas" elites. Nem mesmo a democracia é um fato. Ela é apenas um evento eleitoral que renova a maior parte da arquitetura arcaica do país. Provaremos mais deste cálice nos próximos meses.
No dizer do próprio Nelson: "O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte." Fica o dito pelo próprio dito.

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