sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cidadão Kane: O Retrato do Poder

Ao assistir novamente Cidadão Kane  lembrei-me das últimas linhas de Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray que narram o assassinato de Basil Hallward e a destruição da tela que tanto atormentava Gray. No último parágrafo há uma lapidada sentença de Wilde: "No chão jazia o cadáver de um homem em traje a rigor com uma faca cravada no peito. Ele estava lívido, enrugado e repugnante. Só pelos anéis é que os seus criados conseguiram identificá-lo."
Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941, dirigido por Orson Wells, com Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Everett Sloane e outros) foi a faca empunhada por William Randolph Hearst  que matou a carreira de Orson Wells. Até o final de sua vida ele não conseguiu mais fazer nenhum filme significativo. Suas últimas "obras" foram comerciais de TV sugerindo o consumo de bebidas que jamais ele tomaria. Tinha 24 anos quando concluiu Cidadão Kane - foi o seu auge.
William R. Hearst (1863-1951), um dos maiores magnatas da imprensa norte-americana e mundial até os anos 40, destruiu a carreira de Wells, mas não conseguiu, como Dorian Gray, destruir a "tela" que tanto atormentou.
Cidadão Kane é uma obra que se projeta até hoje como uma magnífica interpretação cinematográfica das entranhas do poder, da manipulação da opinião pública, da megalomania frenética dos poderosos e da ausência de escrúpulos e limites éticos nas relações pessoais, sociais e políticas. Isto mesmo: tudo isto.
É tarefa hercúlea fazer restrições de qualquer natureza ao filme de Orson Wells. Ele não é a perfeição porquanto esta não existe. Todavia, a equação que Wells montou e decifrou para montar o filme é genial. 
O filme conta a trajetória de Charles Foster Kane, herdeiro de uma imensa fortuna, mas que prefere iniciar a sua carreira profissional a partir de um pequeno jornal. Desde sempre, Foster sabia que era mais importante controlar as mentes do que os meios de produção mais aparentes, suas minas, fábricas e imóveis. Kane é o retrato de Hearst, mas ao escolher esta história, Wells sabia que estava indo além dos limites biográficos daquele poderoso magnata. O poder é indescritível, mas as suas manifestações e mecanismos são passíveis de serem conhecidos. Maquiavel já tinha nos legado este ensinamento, não é mesmo?
O roteiro, do qual o próprio diretor é co-autor juntamente com Herman J. Mankiewicz, foi inovador ao selecionar um fato específico e desconhecido (a descoberta do significado da última palavra pronunciada pelo protagonista antes de sua morte "Rosebud") para encaminhar toda a estória. Tudo começa com a morte do personagem principal, também estrelado por Wells. A partir daí segue-se uma longa e detalhada descrição dos fatos da vida daquele poderoso chefão da mídia. Wells vai a fundo e escolheu meticulosamente os fatos e as cenas que melhor instruíam o público na direção do que desejava transmitir.
É possível achar defeitos em Cidadão Kane, mas esta é tarefa hercúlea: as tomadas das câmeras são excepcionais e inovadoras, a luz e os cenários são quase sempre perfeitos e a atuação do elenco - sem celebridades, exceto o próprio Orson Wells - é exemplar. Sente-se em todos os cantos da tela o toque genial de Wells, o menino de 24 anos. No filme, há uma mescla de teatralidade com uma calculada artificialidade, ou seja, ao assistir o filme, nota-se que Wells não se preocupou em ser realista do ponto de vista cênico. Ao contrário. Para ele o que era importante era criar o cenário, o diálogo , a fotografia, a música e as tomadas, como elementos "necessários" para que a "idéia" do filme chegasse não somente aos olhos dos espectadores, mas também às suas mentes. O resultado é tão explosivo quanto foi a raiva de William R. Hearst ao ver as suas tripas expostas pelo jovem diretor.
O tempo para Cidadão Kane continua a passar muito lentamente. O argumento do filme é não somente eficaz para a sua execução. Os seus efeitos permanecem no tempo: o poder e a sua manipulação pela política e pela mídia continua a ser assunto prioritário nesta era em que a democracia parece vazia de valores e com suas estruturas corrompidas, arcaicas e sem a representatividade imaginada pelos gregos.
Cidadão Kane ganhou apenas um Oscar (o de melhor roteiro), muito embora tivesse sido indicado para oito  (ator,direção de arte, fotografia, montagem, trilha sonora, filme e som)  - Orson Wells concorria a quatro. Hollywood estava comprometida com Hearst e seduzida pelo seu poder. No dia da entrega do maior prêmio do cinema americano vaiou o filme a cada vez em que ele foi mencionado. O filme apenas se consagrou aos final dos anos 50 e início dos 60. 
Orson Wells morreu ao 70 anos (em 1985) amargurado com a idéia de que sua carreira tivesse "se encerrado" aos 24 ou 25 anos. Lamentou em uma entrevista concedida em 1982 que tivesse continuado na indústria cinematográfica depois de Kane. Disse ele que "nesta indústria se gasta 2% do tempo fazendo filmes e 98% fazendo politicagem". Ele sentiu nas suas entranhas obesas o peso do poder relatado em seu brilhante filme. Mostrou as entranhas do poder, mas possivelmente não as tenha decifrado por completo. 

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Woody Allen: a Velha Piada Ainda Faz Rir

Lá se vai outro filme do cineasta norte-americano Woody Allen. Depois de Vick Cristina Barcelona (2008) e Match Point (2005), ele retoma o seu velho estilo em Tudo Pode Dar Certo (2010, EUA, Whatever Works, com Larry David, Michael McKean e Carolyn McCormick).

O filme conta a estória de um velho professor de física quântica que aposentado, ensina xadrez a jovens os quais julga imbecis e incapazes de articular as menores idéias. Em meio à pregação diária e rabugenta que faz contra a humanidade, a religião, a arte, a convivência social, etc. ele vem a conhecer inusitadamente a sedutora Melodie  St. Ann Celestine, uma sulista recém-chegada à Nova York. Ela lhe pede abrigo por uma noite, mas ele descobre que se trata de um abrigo (quase) permanente. Depois de algum tempo, ela se manifesta apaixonada pelo velho professor e o toma por esposo. Daí por diante começa o inferno dele: a jovem é encontrada pela mãe e pelo pai, conservadores cristãos, os quais passam a conviver com o novo (e surpreendente) casal. Nova York há de revelar aos seus novos moradores as angústias e faces mais escondidas. Woody Allen não é apenas um discípulo de Freud. É talvez a sua maior vítima na história do cinema mundial.
Woody Allen sempre teve como seu ponto mais forte a escrita de seus diálogos que combinam uma invejável vastidão de conceitos, preconceitos e afetações. Tudo isto numa velocidade impressionante e numa combinação frasal a qual não escapa sequer à sonoridade das palavras - estas parecem em muitos momentos cuidadosamente rimadas no ritmo new yorker. Além disto, ele mantém, assim como na maioria de seus filmes, desde Bananas (1971), uma saída estratégica: quando o personagem principal está a gastar a sua verborragia e a situação cênica não permite os diálogos com os outros personagens, a câmera é a saída. Na maior simplicidade, o personagem começa a falar com a platéia como se diálogo fosse. Note-se que, neste contexto interativo, o óbvio soa muito engraçado e, assim, sobrevive um ar de "participação" da platéia. Pouco importa que o distinto público seja eventualmente a "parte imbecil" a recepcionar as graças de Allen e seus esquizofrênicos personagens.
O elenco deste filme é, em geral, muito bom, mas não seria condição necessária o talento especial de cada um. O roteiro é tão forte, bem como o personagem principal, que o resto do elenco fica meio obscurecido. Do limão, Allen faz a limonada.
Há ainda a trilha musical que incide como elemento "dramático" especial quando os personagens estão a falar de sexo, religião, psicologia e, no caso deste filme, da imbecilidade que é o ser humano. De Beethoven até a nossa Bossa Nova a conjunção entre a imagem e a música é realmente algo especial. Ele cuida disto como se fosse um filho fosse.
De resto, sobra o velho Allen. O filme não agrega muito à filmografia do cineasta. Há muita repetição neste filme dos seus velhos truques, sendo o principal deles a forma dos diálogos conforme escrevemos acima. Além da indignação permanente dos personagens diante das coisas mais banais. O coloquial se soma ao banal. A palavra eleva a ambos. 
Se não fosse a sofisticação e inteligência Woody Allen o filme seria daquelas chatices que fazem com que olhemos para o ingresso e nos arrependamos nas entranhas por ter ido ao cinema. Afinal, este tipo de filme de Allen não têm outros recursos senão os que o consagraram. 
Ele age como os trapezistas ou os palhaços do circo. A platéia inteira sabe o que eles vão fazer, mas todo mundo se diverte e ri diante das coisas óbvias que os artistas estão a fazer. Com a diferença que Woody Allen é suave na forma e agudo na caracterização: o homem é quase sempre imbecil, mas não perdeu a capacidade de rir de si mesmo. 

domingo, 25 de abril de 2010

Lembrando o Centenário de Noel Rosa e Adoniran Barbosa

Escreve Eric J. Hobsbawn em A História Social do Jazz (The Jazz Scena, 1989): "(...) a essência do jazz é não ser uma música padronizada ou produzida em série (embora a música popular influenciada pelo jazz o seja) e, em segundo lugar, o jazz tem muito pouco a ver com a indústria moderna." Acredito que esta observação sobre o mais importante estilo musical da América seja possível de ser enquadrado à perfeição em relação ao samba no Brasil.
Muito embora o samba tenha evidente nascente africana, a sua batida e ritmo estão mergulhados em mistérios: de uma dança ritualística africana passou a integrar a linguagem popular por meio da difusão originada nas entranhas da escravidão da era do açúcar. Da favela do morro desceu à cidade e invadiu o Rio de Janeiro, e daí, passou a ser o ritmo do Brasil. No mundo, inclusive.
De outro lado, temos de reconhecer que o samba desperta certos preconceitos entre as elites brasileiras. Narizes são torcidos e dedos mudam a estação de rádio quando toca o ritmo mais genuíno do país. Mas, o samba vive e continua a sem poder ser contido seriado ou padronizado. Tal qual o jazz, o samba desfila uma capacidade extraordinária de manter sua raiz e ao mesmo tempo transmitir seus genes por diversos estilos - deita raízes. O samba é o nosso jazz.
Foi exatamente esta a sensação que recuperei na mente e na alma ao assistir ontem (24/04) a apresentação da Orquestra Jazz Sinfônica, regida pelo maestro João Maurício Galindo tendo como solista a excepcional cantora Fabiana Cozza. Era um concerto que comemorava o centenário de nascimento de nada menos Noel Rosa e Adoniran Barbosa.

Adoniran é daqueles mistérios brasileiros. De uma presumida malandragem exala uma poética popular, um cantarolar diferente que mistura samba e certos vestígios "italianados" da Paulicéia Desvairada. Interessante cantar Adoniran Barbosa (cujo nome verdadeiro era João Rubinato): entre os versos podemos destacar seu inconfundível humor e ao mesmo tempo uma lírica sofisticada. Vejamos em Bom Dia Tristeza:


"Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar"



Ou ainda em Carolina:


"Ela escreveu um livro
Sobre a vida de um cortiço
O que ela escreveu
Tá causando reboliço
Carolina é um sucesso
Vão levá-la pra cidade
Até querem que ela faça
Conferência na Argentina."


Eis a tristeza que se assenta numa mesa de bar e uma Carolina que abandona o morro, afinal o seu sucesso é o fim de uma "estação da vida". Tudo respira humor e afaga o lirismo daquilo que se perde em meio à turbulenta vida de um favelado ou maloqueiro. Adoniran é o gênio que  dispensa o seu olhar à realidade e desta traga o que há de mais óbvio numa forma inovadora. É o samba que lhe permite isto.
Noel Rosa é certamente, ao lado de Chico Buarque de Holanda, o maior letrista da música popular brasileira. Assim como Nelson Rodrigues fez na literatura e na arte dramática, Noel Rosa soube captar o espírito mais provinciano, malandro e eufórico do Rio de Janeiro. Ele foi tão a fundo nesta missão que suas músicas se tornaram transcendentais: canta-se até hoje suas belas e bem acabadas letras. Noel soma, por assim dizer, a expressão mais popular com as redondilhas mais especiais. Noel Rosa é um gênio que espanta qualquer discussão que não parta desta premissa. São mais de 300 músicas em pouco mais de sete anos de vida artística. O boêmio esteve aqui de passagem (morreu aos 26 anos), parece que tinha por única missão deixar o melhor acervo do samba nacional. Ele é a prova mais viva de que a assertiva de Hobsbawn cabe como uma luva no samba. Vejamos em Minha Viola a sofisticação da linguagem e a transmissão exata da idéia que persegue, além de um humor inconfundível:

"Eu tive um sogro cansado dos regabofe
Que procurou o Voronoff, doutô muito creditado
E andam dizendo que o enxerto foi de gato
Pois ele pula de quatro miando pelos telhado
Adonde eu moro tem o Bloco dos Filante
Que quase que a todo instante um cigarro vem filá
E os danado vem bancando inteligente
Diz que tão com dor de dente
Que o cigarro faz passá."

Em Mentiras de Mulher Noel Rosa consegue ao mesmo tempo ser o autor da descrição e o seu partícipe mais ativo (da própria idéia). É talvez a sua melhor marca e de onde sempre partiu para refinar seu repertório. Vejamos:

"Esta mulher jamais se cansa,
De fazer trança,
Na mentira é um colosso,
Sua visita tão cacete,
Que escrevi no gabinete:
"Está fechado para almoço".

Este centenário duplo de Noel Rosa e Adoniran Barbosa (sobre a sua data de nascimento há dúvidas) foi magnificamente bem lembrado pela Orquestra Jazz Sinfônica e pela paulista Fabiana Cozza. Uma pena mesmo é que esta lembrança seja modesta frente a importância destes dois para a música popular brasileira e para o samba. 
Seria uma benção para o país se se cantasse mais Noel e Adoniran. Olhando para o passado o país poderia construir um futuro mais promissor para a sua música popular. 


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Zona Verde, Um Filme Que Deixa Hollywood Vermelha

Comentamos no dia 16 de fevereiro deste ano, neste blog, o filme "Guerra ao Terror", talvez o maior ganhador do Oscar deste ano. Na ocasião escrevemos:
"Na essência é um filme fraco, sem idéia conseqüente, sem brilho de interpretação e com uma direção bem tradicional no que diz respeito aquilo que se vê em outros filmes. O mais incrível de tudo, é que a diretora (e seu filme) Kathryn Bigelow é comemorada entre a tigrada de Hollywood como a grande sensação deste período pré-Oscar." 
Além disto, naquela ocasião comentamos que "o sofrimento do Iraque e dos americanos nesta desastrada invasão de Bush Jr. é um poço de oportunidades para se construir roteiros criativos e inteligentes."
Pois bem: eis que chega a temporada de Zona Verde (Green Zone, 2010, dirigido por Paul Greengrass, com Matt Damon, Yigal Naor e Said Faraj). Trata-se de um filme de ação que soube ser construído dentro de um roteiro criativo e que é recheado de enormes, evidentes e catastróficas verdades de tudo o que ocorreu na segunda invasão do Iraque por parte do famigerado George W. Bush.

O sub-tenente Miller (Matt Damon) é responsável por achar as tão famosas "armas de destruição em massa". Para isto serve-se de relatórios da inteligência militar, produzidos antes da invasão norte-americana pelo Pentágono. Pouco a pouco, o patriota subtenente vai descobrindo que há algo errado naqueles relatórios de vez que os lugares indicados não passam de instalações irrelevantes do ponto de vista militar. Pergunta-se para si mesmo: "onde estão as armas de destruição em massa?"
Bom, esta pergunta é muito óbvia tanto quanto a sua resposta: simplesmente elas não existem a despeito do case feito pelo Governo Bush para se justificar perante à ONU e à opinião pública norte-americana e mundial. Sempre se soube que aquilo tudo não passava de uma farsa de quinta espécie e que sequer obedecia aos princípios da raison d´état tão caros ao velho Cardeal Richelieu. Afinal, as ameaças aos Estados ocidentais da parte do Iraque não passavam de puro interesse econômico e, em alguma medida, geopolítico. Nada havia relativo à segurança americana.
O filme, a partir da constatação do subtenente Miller, tem a coragem de ir à fundo na questão: denuncia não somente a farsa, mas expõe com surpreendente nudez os mecanismos de poder e as artimanhas que construíram a tomada do Iraque. Vidas humanas foram sacrificadas em torno de um complô internacional liderado por Bush e seu aliado transatlântico Tony Blair.
Há ainda uma particularidade no filme que me parece relevante: dentre as engrenagens maquiavélicas que operaram naquela invasão está a imprensa, tantas vezes chamada de Quarto Poder (como no filme homônimo do diretor grego Costa-Gavras). Não foram poucas as desculpas que órgãos de imprensa importantes tais como o New York Times, Washington Post, Wall Street Journal, CNN e BBC tiveram de pedir sem solenidades ao distinto público (ou será "opinião pública"?). Todavia, que fique bem claro: Zona Verde nos ensina que não está ainda na hora de dizermos "estão desculpados" para esta patota do Quarto Poder. Seu papel foi vergonhoso não somente pela incompetência, mas também pela associação privada que fizeram com o complô de Bush e Blair. Nas barbas dos parlamentos mundiais.
Por fim, quem deveria sair ruborizada do cinema era a claque de Guerra ao Terror. Aquele filme conta algo que parece eletrizante, mas, de fato, esconde a verdade. Serviu a capacidade midiática da diretora do filme (Kathryn Bigelow) para que o filme parecesse inovador e arrojado, inclusive do ponto de vista do roteiro. Zona Verde é, por seu turno, eletrizante e joga no rosto de espectador aquilo que foi (e é) a realidade iraquiana.
Hollywood, neste caso, deveria sair da Academia de Cinema e ir para a de ginástica. Afinal, sobraram malabarismos e contorções em torno de Guerra ao Terror. Ou, ainda, poderiam ir dar um pulinho no cinema mais próximo e assistir Zona Verde. Ninguém veria os membros da tal academia ruborizados no escurinho do cinema. 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mark Twain: O Centenário de Um Fundador Literário

Comemoraremos dia 21 de abril o centenário da morte de Mark Twain, pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens, certamente um dos maiores escritores norte-americanos. Ou para ilustrar melhor o seu papel histórico, uso uma frase cunhada por ele mesmo: I am not an American, but I am the American.
Mark Twain nasceu em 30 de novembro de 1835 na Flórida e morreu a 21 de abril de 1910. Em ambas as datas o cometa Halley pôde ser visto a olho nu na terra. Uma das razões justas para rememorá-lo é o fato do próprio Twain sempre ter cultivado a expectativa de que fosse relembrado ao longo do tempo. Sua auto-biografia, publicação póstuma de 1924 teve redobrada atenção do escritor em seus últimos anos de vida.
Vários livros foram lançados para comemorar o centenário da morte do escritor. Muitos aspectos são abordados neste compêndios biográficos (a relação de sua obra com sua vida, suas viagens, seus amores, sua vida mais íntima). Todavia, há um traço comum sempre que nos defrontamos com um escrito sobre Twain: foi ele o fundador da moderna literatura norte-americana e, assim, perpetrou a alma dos mais importantes escritores modernos norte-americanos. O próprio Ernest Hemingway relevou este papel e reconhece que inspirou-se na obra de Twain.
Certamente, este caráter fundador da obra de Twain deriva de seu profundo repertório sobre o arquétipo do Homo Americanus conforme cita o ensaísta norte-americano H.L. Mencken. De muitas formas, Mark Twain acreditou no American Dream, na possibilidade de que um simples mendigo pudesse se tornar um príncipe, apesar de nunca ter alcançado a fortuna material. A força literária desta idéia reforçou em vários momentos a ideologia política sobre o tema. Quase todos os presidentes norte-americanos do século XX utilizaram citações e o próprio espírito de Twain para dar moldura a seus discursos sobre a gênese do povo americano. De Theodore Roosevelt a Barack Obama. Interessante notar que a crença de Twain no espírito americano se revelou a despeito de todas as dificuldades que vivenciou na sua infância após a morte de seu pai o qual deixou elevadas dívidas. Este espírito que marcou a sua trajetória literária não sucumbiu à realidade factual de sua própria família. Ao contrário, forjou a personalidade de sua realidade e ficção.
Do ângulo estritamente literário, não deixa de ser muito notável que não foram muitos livros do autor que transbordaram este espírito americano vanguardista e crente no futuro, muito embora outros tenham tratado de estórias e histórias sob a mesma temática. Basicamente, foram dois: The Adventures of Tom Sawyer e Adventures of Huckleberry Finn. O grande Charles Dickens, apesar de sua imensa obra marcada pelo espírito do capitalismo inglês, não conseguiu trilhar o caminho que levou Twain a inaugurar uma nova era literária. Ao contrário, não há nenhum crítico literário que eleve Dickens a este patamar. Twain é e tido quase de forma unânime como portador deste título de "fundador".

No centenário deste gigante, gostaria de ressaltar dois aspectos marcantes em sua obra e que, nos dias atuais, tornam a sua leitura tão necessária quanto crítica: o seu humor e a sua reflexão despreocupada com as conseqüências aparentes que pudessem provocar.
No que se refere ao seu "humor" o que se vê em seus principais livros não tem o objetivo de arrancar risadas de seus leitores, mas utilizar uma linguagem coloquial e engraçada para tratar dos fatos. Como bem disse Ernest Hemingway quando recebeu o seu Prêmio Nobel em 1954, "Mark Twain não foi um autor cômico, mas um verdadeiro humorista". Adiante em seu discurso de aceitação do Nobel, Hemingway ressalta que dificilmente Twain lograria o prêmio da Academia Sueca dada esta característica a qual não é tão apreciada pelos literatos e os críticos. As reflexões consideradas mais profundas dos diversos grandes escritores sempre foram dissociadas da mescla de humor, realidade e ficção, muito embora em Twain este estilo tenha servido largamente para a consolidação de seus personagens como tipos notáveis de seu tempo. Twain foi, como Charles Chaplin no cinema, um observador e crítico voraz do imperialismo, da discriminação e da realidade contraditória da sociedade vigente em seu tempo. De maneira coloquial, ele soube extrair o melhor "estranhamento literário", necessário para que emergisse o significado real de seus relatos. Ao lê-lo, respira-se o exato espírito no qual estão mergulhados seus personagens. O seu maior feito estilístico é o próprio humor contido nas linhas de seus livros.
De outro lado, os escritos de Mark Twain eram recheados de expressões particulares, de uma aparente vulgaridade que até hoje motivam correntes que pregam o seu banimento das leituras obrigatórias no sistema de ensino norte-americano. Ora, esta matiz enraizada no "popular" é sinal vigoroso de seu vanguardismo. Os "politicamente corretos" julgam-na como discriminatória. Coitados, não sabem do que estão a falar, pois a "correção política" na maioria das vezes está ligada a um superficialismo pouco analítico e incapaz de penetrar na essência dos signos literários. Para além da lingaugem, temos a "mensagem".
A irreverência de Twain faz falta nos dias atuais. Refiro-me a irreverência que vai além da aparente vulgaridade, mas aquela que é capaz de traduzir por meio da "linguagem popular" e "esculachada" a realidade social mais profunda e injusta. No mundo de hoje, os intelectuais perderam esta capacidade e submergiram nas facilidades do lugar-comum, da ideologia fabricada e nas ligações com os interesses mais imediatos de seu público ou patrocinadores.
Neste centenário de Samuel Langhorne Clemens, o Mark Twain, vale a pena lê-lo e aprender mais além do que ele escreve. A irreverência que inaugurou uma nova época literária na América pode servir de exemplo neste país abaixo do Equador.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Caso Isabella Nardoni: Sentença Proferida, Justiça Feita?

A prisão já acalenta a mais acentuada das paixões que pode ser despertada quando nos deparamos com um crime bárbaro: a necessidade de que haja vingança aquele que cometeu o delito. Refiro-me ao pathos que nos move como se justiceiros fôssemos, sem que nos importemos muito a fundo se se praticou a Justiça enquanto valor e virtude social da criação humana.
Escrevo, já com certa distância do momento, sobre o julgamento do casal Nardoni. Há nos eventos que levaram à morte daquela menina Isabella algo de diabólico. Quem poderia negar? Uma menininha despenca andares abaixo por força de outrem e morre, devastada em seu primeiro momento da idade. Eis a tragédia instalada.
Aí vem a comoção social, pois afinal estamos diante de um fato ainda mais assustador: seriam os pais os assassinos, um casal associado por um pacto que foi feito em minutos, pois afinal este foi formado entre o momento em que a criança foi esganada pela madrastra e os minutos seguintes quando se decide jogá-la daquela janela de apartamento. Fosse uma peça teatral, os fatos sairiam da pena brilhante de Nelson Rodrigues.
A cobertura da imprensa e a reclamação popular sobre o caso foram igualmente espetaculares. A lide entre um procurador, representante da Lei, e aqueles jovens pais foi resolvida por uma sentença que jogou os réus no cárcere por alguns (longos?) anos e de alguma forma lhes destruiu as próprias vidas. A coisa toda terminou como em jogos de futebol: a multidão vaiava não somente os criminosos condenados, mas, até mesmo, os advogados que os representavam. A razão pelos lados do Fórum de Santana em São Paulo não era abundante. O que valia mesmo era a paixão. As falas dos procurador da Lei Francisco Cembranelli eram como jogadas de Garrincha, a alegria do povo.
Fazer justiça é algo complexo. É quase impossível que alguém consiga se aproximar demasiadamente dos fatos reais. A verdade é sempre obscura, às vezes mais clara, às vezes mais turva. Ainda mais difícil é nos aproximarmos dos réus o que permitiria conhecimento mais profundo, conseguir entendê-los e vê-los mais além do protagonismo mais importante e trágico de suas vidas. Afinal, é quase certo que tenham cometido o crime. Todavia, é preciso que se reconheça que isto não os torna essencialmente assassinos. Anna Jatobá e Alexandre Nardoni não me parecem assassinos, muito embora tenham matado aquela inocente. Espero que estejam me entendendo...

O mais incrível para mim foi a turbação espalhada nos arredores daquele fórum. Que sobravam torcedores a pulular e gritar não resta dúvida. Importa a estes a Justiça enquanto um dos valores supremos de uma sociedade? Tenho dúvidas.
A sociedade brasileira é uma das mais violentas do mundo. Basta que nos defrontemos com os números de crimes e assassinatos para nos certificarmos de que nós, enquanto Nação e Estado, nos aproximamos muito da imagem de criminosos. Somos Narcisos às avessas. Eis um fato, não um mito. Também parece-me verdadeiro que somos uma sociedade carente de Justiça: nossas prisões nos envergonham, o sistema judicial está afogado e é lento, a repressão policial é de péssima qualidade e a injustiça social é, sem dúvida, a moldura mais ilustrativa de todo este mecanismo defeituoso.
É possível e legítimo que se faça várias análises e se teça variadas retóricas sobre o julgamento de Anna Jatobá e Alexandre Nardoni. Faço meu o direito de também fazê-las.
Permito-me suspeitar da severidade das penas aplicadas. Refiro-me não a boa-fé dos envolvidos no processo de julgamento, mas a inegável influência que aquela multidão apaixonada teve sobre o sentenciamento dos réus.
Acredito que o casal assumiu a representação de algo muito maior do que os próprios fatos daquele crime: eles encarnaram a demanda por Justiça de uma multidão que se identificou extraordinariamente com o caso e desejou extrair daquele júri penas além do critério da proporcionalidade. O caso Nardoni não é um paradigma de justiça. É apenas um trágico caso de homicídio. Bastaria-nos verificar o que corre nas varas criminais de todo o país. Todavia, a morte de Isabella foi tratada sob a influência de um "espírito social" que reclama Justiça a um custo que não necessariamente obedece aos preceitos de proporcionalidade das penas e de respeito ao condenado. Os Nardonis foram à época de seus julgamentos o amálgama da carência mais profunda de Justiça. O perigo é que esta pode vir descaracterizada e esfarrapada pelas paixões de cidadãos que se tornam "torcedores" às portas dos tribunais.
O livro Dos Delitos e Das Penas de Cesare Bonesana, o Marquês de Beccaria (1738-1794) foi um grito estrondoso no Iluminismo a favor da Justiça e da proporcionalidade das penas. Diante da crueldade de então, ele soube criar uma rebelião construtiva em favor de todos, inclusive daqueles que cometeram crimes. Para ele "o homem deve ser sempre tratado como pessoa, nunca como coisa, objeto". Ou seja, o homem é sempre fim e não meio. Esta humanização do sistema judicial não é apenas necessário. Ela deve ser um caminho em prol da solidariedade e da ética. Fazer justiça, sempre! Particularizá-la, jamais!
O Judiciário já exerceu o seu papel punitivo e a multidão pareceu estar satisfeita. Todavia, parece-me legítimo que nos perguntemos à luz da razão serena e justa: os Nardonis não foram de muitas formas "coisificados" pela mídia e pelas multidões? Mais adiante: eles não se tornaram "meios" de justiça (demandados por um povo sem Justiça) e não o seu fim? A sentença não pode ter sido influenciada por estes fatos questionados?
Nem sempre a questão é sabermos quem matou. Mesmo que saibamos quem matou Isabella é preciso averiguar se fizemos justiça com proporcionalidade sob os raios da razão.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Solista: Elegante Não Tropeça no Simplismo

Na sociedade contemporânea é possível e está se tornando cada vez mais provável que se banalize aquilo que se chamava "norma culta", a língua, as artes, a literatura e assim vai. Uma coisa é a popularização e o maior acesso de todas as classes sociais aquilo que há de melhor na produção cultural. Outra coisa é a crença na capacidade de que quase tudo que emerge "do povo" possa se tornar parte do itinerário da arte. Não pode. Ademais, é preciso que se entenda que a reflexão sobre a problemática social, política e econômica não pode ser entendida como algo óbvio ou banal. O mundo é, por definição, complexo e o pensamento que surge desta realidade requer sofisticação na análise para que se possa revelar respostas mais aproximadas à verdade.
O filme "O Solista" (The Solist, 2009, EUA, França e Reino Unido, direção de Joe Wright, com Robert Downey Jr, Jamie Foxx e Catherine Keener) nos conta a história de Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), um mendigo que percorre os logradouros de Los Angeles tocando música clássica em instrumentos de cordas. Ele é um ex-aluno da respeitadíssima The Julliard School, localizada no Lincoln Center em Nova York, e que forma os melhores artistas da América. Ayers é "reconhecido" em meio a um túnel pelo jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr.) do Los Angeles Times. Ao escutar as elegantes notas emitidas pelo mendigo, Lopez passa a se interessar pela sua história e descobre suas origens, bem como o brilho de seu talento. A partir destas constatações expõe a história a seus numerosos leitores que reconhecem naquele mendigo um pouco da sociedade em que estão situados. 
Ocorre que Ayers sofre de esquizofrenia o que lhe impede de conviver socialmente, bem como foi a causa para o seu auto-abandono e seu trágico destino.
Temos neste filme a colisão das imensas possibilidades de um talentoso artista e a as suas impossibilidades sociais, psicológicas e também econômicas. Tudo isto sem nenhum populismo. O talento musical de Nathaniel Ayers é estrondoso e a sua paixão é pelo melhor de Ludwig van Beethoven, suas sonatas e concertos. Não há sob o manto da esquizofrenia de Ayers nenhuma concessão quando o assunto é música: ele ama o que há de melhor e persiste encantado pelas notas que exalam o sabor da vida e obra do compositor alemão.
Lopez quer ajudá-lo e neste tarefa se defronta com a magnitude do problema social de Los Angeles. Há naquela cidade uma multidão ao redor de cem mil pessoas de desamparados e abandonados. Pessoas que estão submetidas, no centro do maior capitalismo mundial, à humilhação, ao completo desamparado, ao consumo desenfreado de drogas e à indiferença da classe política. (Isto lembra outro lugar?).
É certo que não há salvação para a esquizofrenia de Ayers. Tão certo quanto o fato de que seu talento não pode ser removido. O mais sugestivo deste filme é que não há nenhum tropeço do diretor para a análise "populista" da questão. Todo o tema é exposto com sinceridade de propósito, mas nada resvala para a simplificação do contexto do personagem e da realidade que o cerca. Ao contrário, o sofrimento é passado por meio da lente cuidadosa de Wright, o diretor, sem concessões a nada que seja piegas ou que contenha o mau hálito do simplismo. Nesta história não é o "povo" que contém sabedoria, um jargão político tão utilizado. É Ayers, um esquizofrênico pobre que caiu nas traças do mundo, que carrega o seu talento que, por sua vez, é reconhecido e divulgado. Não há da parte do jornalista nenhuma vantagem extraída de seu achado: ele se concentra na realidade factual, sem contornos ou palavras que a neguem, mas sem resvalar nas facilidades da simples denúncia.
Estamos diante de um filme sublime, elegante, bem contado e excepcionalmente bem desempenhado pela dupla Foxx-Downey Jr. Quando terminamos de ver o filme sabemos que o mundo pode ser mau, mas ainda há o som da beleza da arte culta que nos salva de nossa própria esquizofrenia.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Nelson Rodrigues e o Caráter do Brasileiro

Poucos pensadores brasileiros conseguiram apreender o caráter mais profundo do brasileiro. Não foram poucos aqueles que buscaram penetrar na alma brasileira e dela retiraram os genes que explicam o nosso comportamento antropológico e político.
Sem maiores pretensões e sem um critério científico aplicado à tarefa de listar estes pensadores, tomo a liberdade de citar aqueles que julgo os mais notáveis: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro. Suas principais obras se constituem individual e conjuntamente o que de melhor o Brasil pode respirar em termos de pensamento. Freyre, com a sua Casa Grande & Senzala, Buarque de Holanda com Raízes do Brasil e Faoro com Os Donos do Poder. Nestas obras não encontramos a universalidade humanista, mas o mais nítido universo da brasilidade, seja do homem comum, seja das elites. Do universo para o subúrbio.
Tenho para mim que poderíamos incluir mais um "pensador" neste rol. Trata-se de Nelson Rodrigues. Muito embora a sua dramaturgia esteja para além das muradas acadêmicas, ele soube construir uma obra que no seu mosaico constrói de forma espetacular o caráter (ou a ausência dele) do brasileiro. Certamente ele rejeitaria a empreitada de "pensador".
Ler Nelson Rodrigues é, além de um prazer literário, uma descoberta a cada linha e parágrafo. Uma revelação da personalidade brasileira, retirada e reiterada no seu gesto mais particular.
Rodrigues foi um escritor que confrontou com esmero lingüístico e factual uma visão própria e moral da vida com as evidências mais notórias e inconfundíveis do cotidiano do brasileiro urbano e suburbano. Nesta paisagem as elites do país ficam em posição muito desconfortável:  se o povo tem as "suas cáries morais e éticas" (nas palavras de um amigo), as elites podem ser categoricamente descritas como burras, incompetentes, cínicas e incapazes de ir além de poucas invenções que lhes servem à dominação.

Os personagens das crônicas de O Óbvio Ululante, A Vida Como Ela É, Sob a Sombras das Chuteiras Imortais, bem como a sua obra teatral (sobretudo, A Falecida, Vestido de Noiva, Bonitinha, mas Ordinária e Álbum de Família) sequer parecem  flutuar entre a ficção e a realidade. O mérito rodriguiano é cavar as fissuras dos homens e mulheres brasileiras e numa excepcional valsa com a língua dizer o que tem de ser dito. De fato, não há nada ficcional. É o hipertexto da própria realidade. Trata-se de um espelho límpido de nosso caráter. Ao leitor não cabe sequer tentar salvar a própria pele e dizer que o espelho está quebrado. Não está não! Até mesmo não chegamos a nos espantar com o que vemos. Como diz Nelson: "Reparem como o brasileiro se espanta cada vez menos. Somos um povo de pouquíssimos espantos." Escreveu isto em fevereiro de 1968.
É bom rir junto com Nelson Rodrigues. Tão incrível é ver a atualidade de sua obra. O Brasil não é país afeito às transformações das suas camadas de pele mais profundas. Nunca nos aproximamos dos músculos que devem nos sustentar. Ao contrário, o intenso processo de urbanização, o advento da internet, o aumento monumental do consumo, a sexualização alavancada pelos meios de comunicação, a redução do protecionismo econômico não produziram tantas transformações antropológicas quanto imaginamos. Pelo menos no que tange ao caráter social do povo e de suas "moderninhas" elites. Nem mesmo a democracia é um fato. Ela é apenas um evento eleitoral que renova a maior parte da arquitetura arcaica do país. Provaremos mais deste cálice nos próximos meses.
No dizer do próprio Nelson: "O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte." Fica o dito pelo próprio dito.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Na Páscoa, Festa da Vida, Uma Receita de Cannoli

A Páscoa é a mais importante festa do cristianismo. De fato, não haveria a maior religião ocidental não tivesse Cristo ressuscitado de sua tumba, luminoso e glorificado. A Ressurreição forma a identidade do homem que nunca morre em espírito. É eterno como Deus.
Para o judaísmo é o símbolo da liberdade da escravidão do Egito, o início da caminhada em direção à Terra Santa. Não existindo liberdade, não há o homem que sob Deus descobre a vida e a alegria.
Para os que crêem este é o significado da Páscoa. Para os descrentes não razão para não comemorar a vida e a alegria de viver. Para estes, a Páscoa persiste como centro da reflexão sobre a nossa vivência entre os nossos próximos e iguais. Para todos é a festa da família que se reúne para erguer os brindes em louvor à vida.
Para comemorar a Páscoa, selecionei da Sicília uma tradicional receita de doce. Naquela ilha ao Sul da Itália, a santidade da vida se mistura com a sedução dos festejos. Tudo em torno da boa mesa. Muitos santos são comemorados (São Martinho, Santa Lúcia e São José são os mais importantes), além das festas mais marcantes do calendário cristão, onde a Páscoa e o Natal pontificam. A sedução do açúcar se mistura com as conversas das famílias tagarelas. Os sabores dos pratos recai sobre a consciente percepção de que a vida vale a pena e a alegria não é apenas uma virtude: é uma espécie de destino que tem de ser cultivado diariamente.
Vamos à receita do Cannoli. Nossa receita é para 15 pessoas, afinal na Páscoa a casa está sempre cheia.

Prepare inicialmente a massa. Bata a manteiga (25g-35g) e o açúcar (25g) até fazer espuma. Logo depois misture um ovo grande, quatro colheres de vinho branco seco, açúcar baunilhado (duas colheres de sopa) e uma pitada de sal. Tudo com carinho. Depois despeje 150g de farinha de trigo e bata até que fique elástica e bem lisinha. Reserve um lugar fresco e deixe-a descansar coberta por duas horas. Depois deste justo período, estenda a massa com uns 2 milímetros de espessura e recorte-a em quadrados de 12 a 15 centímetros de largura. Posicionando estes quadrados na posição de losangos, role-os com um rolo de metal (2cm de diâmetro e 15 de comprimento) e forme  tubos, fechando-os com ovo batido (eis o selo do confeiteiro!). Não retire os tubos nesta fase. (Os tubos podem ser também de bambu).
Siga para o fogão. Pegue uma panela grande , aqueça óleo vegetal (na quantidade que possa cobrir os cannoli). Depois que o óleo estiver fervendo, mergulhe de três a quatro cannoli por cerca de 1 e 1/2 minuto a 2 minutos. Depois de fritos, deixe-os secar no papel absorvente e depois de estarem totalmente frios, retire os tubos cuidadosamente. 
Agora chegou a vez do recheio. Mexa vigorosamente a ricota (500g) com um garfo. Em seguida despeje açúcar (100g), uma colher de sopa de açúcar baunilhado e a água de folha de laranjeira (2 colheres de sopa). Mexa e mexa até que a ricota fique com uma consistência cremosa. Depois, coloque casca de limão e laranja cristalizadas e bem picadas (50g no total) e de 90g a 100g de chocolate amargo em pedaços mínimos (quebre a barra com as próprias mãos). Misture tudo até que pareçam bem distribuídos. Não perca tempo. Recheie os cannoli com esta massa de recheio e polvilhe com açúcar em pó. Sirva frio, mas nunca, jamais, coloque esta especialidade siciliana na geladeira. Seria um pecado mortal em plena Páscoa.
Para servir, coloque os cannoli no centro da mesa, certo tempo depois do final da refeição principal. Deixe que cada um se sirva. De preferência coma os cannoli com a presença de um belíssimo Moscato di Pantelleria. Este vinho de sobremesa licoroso recheia a vida juntamente com os recheados cannoli. Feliz Páscoa. Viva a Vida!

terça-feira, 30 de março de 2010

"Ilha do Medo", Um Abuso de Forma de Martin Scorcese

Pode-se destacar muitas qualidades em relação ao diretor Martin Scorcese e por aí há uma imensa lista de críticas dispensadas ao mestre do cinema norte-americano. Eu destacaria duas entre todas as possíveis: o domínio absoluto do planejamento, da execução e da finalização das cenas e a simbiose entre Scorcese, os atores e os personagens.
Pois bem: em Ilha do Medo (Shutter Island, 2010, dirigido por Martin Scorcese, com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max Von Sydow), Scorcese evidencia com ênfase estes dois talentos com grande maestria. Chega a ser impressionante como é vibrante o andar (ou os sobressaltos) da câmera do grande diretor. Ao mesmo tempo em que tudo parece perfeito, àquele que está a assistir o filme sobram inúmeros detalhes em cada cena que demonstram inequivocamente a destreza e o esmero dispensado pelo diretor. É ele o grande artista mesmo que fora de cena.
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Leonardo DiCaprio é o agente Teddy Daniels, um policial federal que é enviado juntamente com um parceiro novato para a ilha Shutter onde há um manicômio onde pacientes psiquiátricos são tratados na expectativa de que sejam curados pelos métodos inovadores de então - a estória se passa em 1954. Daniels vai à ilha investigar o desaparecimento de uma paciente e se defronta com situações que não apenas contradizem a sua autoridade policial como também o envolve em situações que o levam a se defrontar com a própria loucura. Se em Huis Clos, Sartre é categórico ("o inferno são os outros"), na Ilha do Medo o inferno pode estar tão próximo quanto na própria alma. Daniels vê-se cercado por todos os lados e não apenas por estar numa ilha. Até mesmo o terrível Senador Joseph McCarthy que liderou o Comitê de Atividades Antiamericanas é ressuscitado na ardente metáfora de Scorcese. O cenário é completamente ajustado aos tormentos de Daniels: as sombras e nuvens do filme dão-lhe um ar realmente perfeito para as perigosas introspecções humanas.
Todos os atores apresentam-se com brilho, na medida exata do que lhes é proposto. Interessante de se ver é o amadurecimento cada vez maior de DiCaprio que apesar de manter o seu rosto juvenil conseguiu fugir dos estigmas de ator de "um papel apenas". Ben Kingsley e Max Von Sydow não surpreendem, mas não precisam mesmo fazê-lo. Ao contrário, dá até para ficar esperando os trejeitos de cada um deles diante das lentes. 
O filme é baseado no livro de Dennis Lehane que também escreveu Sobre Meninos e Lobos que tornou-se filme sob a batuta de Clint Eastwood. E é no roteiro adaptado por Laeta Kalogridis que residem os maiores (e não tão pequenos) tropeços do filme. Este não consegue acompanhar o ritmo cênico de Scorcese. Ao contrário: o filme acaba dominado completamente pelo desenvolvimento das cenas e o "mistério" do filme acaba sendo revelado (ou escondido) sem que haja a tensão necessária para que o espectador se envolva com a estória. Ou seja, a câmera está a serviço do diretor, mas o roteiro parece não lhe servir para enquadrar o próprio (e belo) projeto das cenas. Até mesmo a música consegue esconder o roteiro. Quem assiste ao filme fica como que procurando o "mistério", mas este não lhe é nunca mostrado pela simples razão de que este não existe, mesmo que de fato acabe sendo revelado. Assim, o todo belo do filme vê-se reduzido pela pouca fricção dos diálogos com as cenas. Este ponto fraco do filme não o condena, mas tira-lhe o atributo de "mais um filmão de Scorcese". Há um "abuso de forma da cena em relação ao roteiro". Apesar de tudo sentar na cadeira e ver Scorcese é um prêmio dos deuses. 

quinta-feira, 25 de março de 2010

Revisitando Laranja Mecânica de Kubrick

Quando o escritor Anthony Burgess escreveu A Clockwork Orange em 1962 se iniciava um processo de substancial elevação do nível da violência urbana na sociedade moderna. Refiro-me a violência que afeta diretamente ao cidadão no seu dia-a-dia, o assalto, o estupro, o roubo e as agressões. Burgess soube em seu livro fugir da apreciação fácil deste processo tormentoso que atribui à transgressão criminosa causas aparentes e visíveis a olho nu. A violência é espelhada em seu livro como um processo amplo e com conotações antropológicas, culturais, sociais e, notadamente, política em seu sentido clássico associado à pólis. Tudo com uma ênfase hiperbólica aos conflitos éticos que marcam os homens em sua história.
Em 1971, recaiu sobre o livro de Anthony Burgess o brilho criativo, iluminado e iluminista de Stanley Kubrick, cineasta morto em 1999 e autor de memoráveis filmes como  O Iluminado, Nascido Para Matar e 2001: Uma Odisséia no Espaço. O filme homônimo de Kubrick é de uma atualidade surpreendente, seja do ponto de vista objetivo (roteiro, a fotografia impecável, a direção de arte, os figurinos, etc), seja do ponto de vista dos valores intrínsecos reportados pela câmera.  
Alex DeLarge, representado com brilho por Malcolm McDowell, é a personificação das contradições da hipermodernidade. Não à toa, todo o caminho de perversidade e transgressão percorrido por Alex é ilustrado por trânsfugas que misturam a musicalidade de Beethoven à candura de Singin` in the rain (com Alex dançando e sem o magistral Gene Kelly). As cenas de violência de rua e, sobretudo, o estupro da mulher do escritor marcam o desencontro dos significados e significantes dos atos daquela gang à qual pertence Alex: não há futuro e não há passado para aqueles jovens. Há o viver o presente não apenas de forma descompromissada, mas saber combinar à hipermodernidade uma hiperviolência já presente na própria sociedade. Pouco importa a lei, pois se tudo já está pré-determinado naquela ambientação (britânica?), resta a eles novos rumos compatíveis com aquela realidade. Somente assim se sentirão escutados e, quiçá, admirados.



Eis um filme que não fala de sentimentos. Aliás, estes são excluídos ou plastificados de tal sorte possa surgir um "homem novo" que sem saber dosar misturas, extrai do nazismo às notas do velho Ludwig, o suficiente para comparecer à orgia com moças pouco incautas certo tempo depois de estuprar outra na presença do marido golpeado, mas ainda de olhos abertos. Se há crueza e se esta parece crua, há que se notar que o filme apenas dá uma acelerada nas imagens que estavam a crescer naqueles idos de 1971 quando o filme se realizou. Não há mentiras no filme.
Depois de Ludwig Van Beethoven, vem Ludovico, o tratamento experimental que converterá o detento  Alex DeLarge (pena de 14 anos na jaula) em alguém digno da convivência, digamos, social. Ora, a cura vem pela hiperexposição de Alex às cenas (obrigatórias) de hiperviolência. Se nas ruas tudo era ocasional, eis que o tratamento de recuperação é institucional. Goza os benefícios do Estado que a todos protege, não é mesmo?
Alex saiu da prisão. Não tem pai nem mãe, não tem casa, não tem os velhos amigos - estes já estão a trabalhar na corporação policial!. O pobre Alex cai (por acaso?) nas mãos do escritor cuja mulher foi estuprada e morta no passado. Se sua vingança era "social" no seu passado criminoso, agora a vingança é na sua veia e é particular. Submete-se à tortura e tenta o suicídio. Não fez direito... Desemboca num hospital e, de repente e finalmente, aparece a "sociedade" que o instala num leito. Vira o herói moderno convertido pela própria multidão que o condenou. Ludovico passa a ser questionado enquanto "tratamento de recuperação" e põe em risco o establishment. Em troca de uma bela "aposentadoria" arranjada pelo ministro conservador, Alex apóia a eleição daqueles que criaram Ludovico. Esta feita a história: Alex agora é parte boa da sociedade muito embora quase nada tenha funcionado em sua vida. Agora pode sonhar com a nona de Beethoven e participar novamente de orgias sob o olhar sereno do cavaleiros vitorianos. 
Tudo neste filme parece surreal, mas definitivamente não é. Depois de mais de 40 anos de sua estréia, Kubrick continuar a jogar na nossa cara que a fé naquilo que chamamos de civilização é apenas uma quimera. Como nos ensinou Nietzsche "a fé é querer ignorar tudo aquilo que sabemos ser verdade." Estamos a falar da violência das ruas, mas também daquele escudo que não nos protege e, ao contrário, instalou a violência da hipermodernidade, do excesso de consumo e bebida, do hedonismo desmedido, da arte coisificada, das transações interesseiras e  das relações desinteressadas entre os homens. Eis a violência travestida.
Laranja Mecânica (A ClockWork Orange, 1971, com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates eWarren Clark, dirigido, produzido e roteirizado por Stanley Kubrick) é mais que um espelho atual de onde chegamos. É um libelo pela liberdade, um alerta para o nosso futuro e um filme que tenta nos converter sem que tenhamos de apelar para o Ludovico de nosso cotidiano. 

sexta-feira, 5 de março de 2010

Uma Receita do Mar da Ligúria: Bagnum di Acciughe

Os pescados dos 350 km da costa marítima da Ligúria, região noroeste da Itália, são a representação mais loquaz da personalidade desta terra: é o símbolo da confiança dos habitantes da região no seu próprio destino. A combinação mais usual dos pescados são as ervas aromáticas, os diversos legumes frescos e os ovos. Tudo naquela terra bela fundeada por uma paisagem sem igual é particular e sem outra referência em toda a gastronomia.
Um dos pratos mais especiais da Ligúria é o Bagnum di Acciughe, feito de anchovas mergulhadas em tomate. A origem deste especialidade vem do mar e de seus proprietários, os pescadores que regressados de suas aventuras marítimas esperavam que a as redes secassem. Durante este ócio (criativo, não?), comiam esta pequena refeição preparada por entre os espaços dos pesqueiros. Vamos à receita.


Use sempre anchovas italianas e jamais as confundam com os produtos "anchovados" de outros pescados (por exemplo, as sardinhas). As anchovas importadas e já preparadas para o uso culinário podem ser conseguidas nos bons supermercados brasileiros. Coloque numa frigideira dois alhos (extirpados de sua parte central que causa aquela sensação desagradável) e uma cebola juntamente com o azeite extra virgem (4-5 colheres de sopa). Refogue até os ingredientes ganharem a conotação amarelada. Corte em pequeninos pedaços os tomates (300g aproximadamente) sem cascas e sementes e junte ao refogado de cebola e alho. Junte a gosto a pimenta do reino e o sal. Tenha paciência e deixe que tudo se faça por dez minutos. Adicione meio copo de vinho branco e reduza o fogo para que a porção cozinhe mais e se torne um molho.
Pegue as anchovas (800 gramas), coloque-as numa panela oval e acenda o fogo brando. Como fossem flores as regue com a outra metade do copo de vinho branco e cubra as anchovas com o molho. Polvilhe com abundante porção de salsa picada. Salpique sal e pimenta a gosto. Permaneça cozinhando as anchovas por dez minutos. Durante estes longos dez minutos nos quais a boca já está a salivar, torre no forno com fogo médio fatias de pães brancos. Depois os retire e esfregue alho neles como se estivesse usando uma pequena lixa. Depois deposite as anchovas mergulhadas no molho nestas torradas (bagnum). Sirva com vinho branco seco. Eis aí um singelo prato, revestido de sabor e cheio de sabores para despertar os deuses que saem do mar da Ligúria para invadir as mentes daqueles que sabem o valor do bom viver.

terça-feira, 2 de março de 2010

"Simplesmente Complicado": Rir e Não Pensar

Eis um filme para divertir e quase nada a mais - será?. Simplesmente Complicado (It´s Complicated, EUA, 2009, direção e roteiro de Nancy Meyers, com Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin) cumpre o papel de comédia romântica com o brilho do desempenho de Alec Baldwin e com moderadas participações de Streep e Martin - este último de fato está sofrível no filme.
Trata-se da estória de Jane, mãe de três filhos pós-adolescentes, e que depois de dez anos de separação está a descobrir novos prazeres, da cozinha à cama, e, eventualmente pode ter um amor. A sorte (ou o azar) é que o seu ex-marido (Baldwin) constata, por razões oblíquas, que o seu verdadeiro amor é a ex-mulher. Entre os dois se interpõe o arquiteto Adam que está a projetar as novas dependências da (enorme e charmosa) casa de Jane. Adam também é separado e seu divórcio foi fruto de uma traição amorosa de sua ex-esposa durante uma viagem à Toscana, (Triste sina a de Adam).
Meryl Streep e Alec Baldwin, em cena do filme

Bom, os lances do filme são fruto de episódios engraçados dos encontros amorosos de Jane com o ex-marido e a tentativa de conquista do coração de Jane por parte de Adam. O roteiro não chega a ser preciso, pois a estória tem seguidos altos e baixos, mas isto não compromete o razoável resultado final. Até parece que a diretora Nancy Meyers apostou alto no elenco para compensar certas fragilidades de seu roteiro. É preciso fazer acontecer...
O interessante deste tipo de filme é que cada vez mais os homens são colocados em uma posição desconfortável perante si mesmos e o (inferno) dos outros. Ora Jake está a coletar esperma para tentar a gravidez com a nova esposa, ora vê-se inferiorizado pela alegre e realizada ex-mulher. Para Jane, o destino é fugir de qualquer esterótipo que possa enquadrá-la no velho "padrão" feminino. Se ela cozinha, é porque é profissional. Se ela revela as intimidades sexuais com o ex-marido, é porque é "livre", se ela é mãe é porque conta com a preferência evidente dos filhos, etc. e tal. Tudo sempre com ar de sutil superioridade. Coitado de Jake. Ele anda por aí com o seu moderno Porsche e com uma esposa jovem e bonita. Todavia, nada disso está relacionado com poder. Ao contrário: são exatamente estas as suas fragilidades. O que ele quer mesmo é ser amado, uma boa dose de sexo e um lar com boa comida e com os filhos ao redor. Como se vê, algo muito "doméstico" na falta de outra palavra que melhor o descreva.
Do ponto de vista amoroso, Jake está casado, mas a sua escolha é clara: deseja a ex-mulher e tudo é uma questão de tempo. Se no passado errou, isto não é parte de um inconsciente sobrecarregado - é uma experiência vivida e que não seria repetida. Já no caso de Jane, a coisa é diferente: ela pode ter o homem que quiser na sua cama e braços e, no caso, há dois disponíveis. Para ela não basta reconhecer que o ex-marido é o cara. É preciso recordar as mazelas do passado e enquadrá-las de tal forma que o ex seja sempre lembrado de que ele era isto e era aquilo. Bom, a certa altura do filme ela pronuncia com cuidado que também errou durante os vinte anos de casamento. Mas, e daí?
A vida é sempre uma escolha, mas para Jane é preferível ter opções.É claro que os homens já estiveram em melhor forma. Agora estão barrigudos, submetidos às intempéries dos relacionamentos e sem muita opção, apesar das aparências.
Como já disse, eis um filme que diverte. Pouco importa as sutilezas que marcam os comportamentos sexuais. Afinal, rir dos homens é divertido. Já rir das mulheres pode ser sexismo. Ao invés de cair no perigo mortal deste tipo de constatação é melhor sentar na poltrona, mandar uma pipoca com coca-cola e rir do filme. Viver é mais importante que pensar.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Ótimo "O Segredo de Seus Olhos" Não Tem Segredo

Por detrás da forma doce e elegante da lente do filme O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Espanha-Argentina, 2009, dirigido por Juan José Campanella, com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino e Guillermo Francella) há outra realidade. Desejar não basta. É preciso ir na direção daquilo que desejamos (ou amamos).
Benjamin Esposito (Darín) investigou crimes ao longo de sua carreira judicial. Aposentado, decide se tornar escritor e retorna aos fatos e mistérios de um estupro e assassinato ocorrido há muitos anos. Trata-se de um caso resolvido, mas sem solução. Explico: após uma investigação que se inicia a partir de um álbum de fotografias, Esposito chega ao assassino. Prende-o e, assim, faz justiça ao sofrimento do noivo da jovem assassinada. Ledo engano: em pouco tempo o homicida é liberto para trabalhar para a repressão pós-golpe militar de 1976 na Argentina. Soma-se em Esposito uma sensação de completude (os fatos conhecidos) e de falta de entendimento sobre o desfecho do caso (a liberdade do criminoso). Mas, isto tudo é apenas aparência. Ao longo da estória, Esposito vê-se diante de um amor irrealizado, incompleto como o próprio caso policial. Sua chefe Irene Hastings não é apenas bela, mas é um poço de esperança de que Esposito revele seu amor e a tome nos braços e coloque-a em seu coração. Tudo é delicado e ambicioso naquele amor, mas falta a coragem de se revelar e partir para o cultivo do amor.
Todavia, o tempo passa e o agora aposentado Esposito vai de encontro ao tempo passado. 
Em O Segredo de Seus Olhos a estória transcorre com alguma passividade. O mistério não é grandioso. O espectador não fica em nenhum momento boquiaberto com as revelações que o roteiro faz. Ao contrário, há um óbvio transcorrer dos fatos. O segredo só pode mesmo estar nos olhos e não naquilo que vemos.



O diretor Campanella (o mesmo de O Filho da Noiva) soube sair da obviedade dos fatos para investir na tensão entre os personagens que se amam (Irene e Esposito). Se o investigador criminal foi rápido e preciso em selecionar dentre os suspeitos do assassinato um homem a partir de seu olhar numa fotografia, no caso de seu próprio amor, apenas os olhos de Irene não bastaram. Foi preciso que Esposito fosse carcomido pelo tempo para que ele reconhecesse muito além dos olhos de Irene, o próprio amor entre eles. Campanella, com habilidade metódica e cuidadosa consegue criar a tensão necessária para que ao assistir o filme possamos prender a respiração e esperar que Esposito se manifeste. Esta é a essência do segredo.
A sua forma, como já escrito acima, é elegante e apenas isso já faz muito de vez que há escassez de elegância nas artes em geral e no cinema em particular.
O cinema argentino está de parabéns há algum tempo. É incrível a qualidade não apenas da produção (que conta com os recursos espanhóis), mas sobretudo a versatilidade artística dos atores, bem como a sua expressão dramática. Não há as moças com silhuetas bem moldadas do cinema brasileiro, mas é fantástica a beleza cinematográfica daqueles lados portenhos. Por aqui sobra nudez e violência. Os argentinos estão a nos ensinar a fazer cinema, muito além do investimento em grana. Corro o risco de dizer, sem medo de errar, que não há atualmente nenhum ator com o porte dramático de Ricardo Darín entre nós. Que eu seja perdoado pelos eventuais Policarpos Quaresmas do cinema nacional, mas eu não consigo ver nenhum ator com as virtudes do protagonista de O Segredo de Seus Olhos. O mesmo valeria para Soledad Villamil se pelos nossos lados não tivéssemos Fernanda Montenegro. Solitária, que fique claro! Se no futebol, Pelé nunca foi superado por Maradona, no cinema somos um time de segunda divisão perante os hermanos
Não sei os méritos de O Segredo dos Seus Olhos o levarão à glória do Oscar. O jogo em Hollywood é barra pesada. Mas, uma coisa é certa: este filme supera a si próprio. Com um roteiro simples, o diretor carregou os excelentes atores para além dos personagens. Não é isto que esperamos quando nos sentamos no escuro para assistir as projeções?



"Educação": Nada de Novo no Front

T.S. Eliot, o grande poeta anglo-americano, escreveu em 1951 Notes Towards the Definition of Culture (Notas Para a Definição da Cultura) que devemos "combater o delírio de que os males do mundo modernos podem ser consertados em um sistema de instrução. Uma medida que é desejável como paliativo, pode ser injuriosa se apresentada como cura (...). Há também o perigo que a educação - que na verdade está sob a influência da política - tome sobre si a reforma e a direção da cultura, em vez de se manter em seu lugar como uma das atividades por meio do qual a cultura se realiza." Desse ponto de vista a educação não pode ser a muleta que tenta corrigir a visão cultural de uma sociedade, mas é por ela, de forma não-exclusiva, que a cultura se realiza. 
O desenvolvimento da cultura de massas a partir dos anos 50, e sobretudo, nos anos 60 do século passado, proporcionou uma mudança radical na cultura e no comportamento. Dentre as múltiplas transformações cabe destacar aquela que mitificou a matéria e arrastou consigo o comportamento. Se no período anterior do século XX os valores sociais e pessoais "controlavam" o valor das coisas na sociedade burguesa, a partir dos anos 50, as coisas passaram ao campo espiritual, ou seja, adquiriram valores que antes eram dos homens. Estes últimos passaram de sujeito para objeto. Não à toa, toda fascinação passou a ser dispensada aos carros, às roupas (algumas exóticas), às casas e edifícios e à própria arte. Para que os homens "fossem" era preciso "possuir". Por sua vez "possuir" não significava manipular o valor das coisas, mas ser manipulado por elas. Docemente se realizou o que a revolução cultural tentava violentamente evitar. Havia algo de novo à frente, mas os homens passaram a ser vistos pelo retrovisor das estruturas que produziam em massa. 
É ao redor desta temática que transcorre o filme Educação (An Education, Inglaterra, 2009, dirigido por Lone Scherfig, com  Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina e Dominic Cooper). O filme é baseado nas memórias (com o mesmo título do filme) da jornalista inglesa Lynn Barber.
O filme conta a história de uma excelente estudante (Jenny) de uma escola tradicional inglesa que ao conhecer um homem mais velho (David), com seus 30 anos, se envolve não apenas com ele do ponto de vista afetivo, mas como passa a conviver com o "estilo de vida adulto deste". A freqüência aos concertos de música clássica, aos leilões de arte, às viagens de fim de semana, aos bons restaurantes londrinos tomam conta do imaginário daquela adolescente.
Seus pais compunham com ela o que se poderia chamar de uma "família tradicional de classe média", cujos valores passam a ser o contraponto à nova situação da jovem enamorada. Todavia, o charmoso David é hábil o suficiente para consolidar a sua sedução perante todos. Afinal, o fato de ser aparentemente abastado e com as "novas virtudes" demandadas pela sociedade em transformação dos anos 60 são capazes de converter não apenas Jenny, mas também o seu pai que ambiciona "o melhor" para a vida da filha, inclusive um bom casamento, e a sua mãe, uma dona de casa cercada de muralhas sociais por todos os lados e que vê uma oportunidade de ouro para que sua filha escape de seu próprio destino.
O mais notável desta trama é que a facilidade que temos para entender o que está a ocorrer com Jenny é a mesma que temos para compreender o porquê. De um lado se apresentam, o dicionário de latim, as aulas de literatura, o cultivo da boa música, da dança de salão e dos bons costumes. Tudo muito enfadonho para uma jovem fascinada com os tempos que terá de percorrer. De outro lado, temos o próprio "mundo novo", com as suas liberalidades sexuais, comportamentais e culturais. Neste "novo mundo", a arte não tem mais o valor intrínseco da expressão de um tempo ou de um sentimento. O valor da arte está expresso em libras esterlinas e corre solto pelos salões de leilões. O mesmo vale para os livros, a música, a gastronomia. Coitada de Jenny: é ela a ponte que liga toda a significação das coisas ao significante vazio deste novo mundo. David, fruto de uma paixão juvenil, e seus amigos dão valor a esta estudante menina-moça. O valor que está contido nas entranhas dos livros ou nas palavras precisas de seus professores de literatura servem a eles desde que lhes seja possível transformar em cifrões o conteúdo intelectual e estético da mocinha.
Jenny é tratada nos padrões escrupulosos de seus pais e na limitação evidente dos recursos materiais. Mesmo assim, lá no horizonte está Oxford, a faculdade que lhe elevará o padrão social. A classe média sonha e pode realizar, mas se houver facilidades pelo caminho tanto melhor. O atalho pode ser mais curto. Fosse assim, a sorte prevaleceria sempre e não seria uma exceção.
Dos anos 60 para cá temos de reconhecer que as aparências têm (muito) valor. Tanto ou mais valem quanto em relação à época que as revoltas e revoluções desejaram superar. Se houve progresso com as "revoluções culturais e políticas" dos famosos anos 60 temos de nos sujeitar ao fato de que não foram poucas as chagas que ficaram. A liberalização sexual, a individualização, a prevalência do hedonismo enquanto valor, etc, têm seu custo muito embora poucos estejam dispostos a calcular. Em lugar das aspirações liberais passou-se a ser aspirado pelas coisas. Alguma liberdade e outro tanto de novas obrigações perante a nova ordem. Como sempre foi.

Jenny aprendeu isto a duras penas. O seu querido David não era lá essas coisas: faltava-lhe o caráter de quem realmente deseja, sabe, conquista e liberta. Sequer a Paris imaginada pela adolescente versada na língua gaulesa escapa desta fatalidade. A Cidade das Luzes nada mais foi que o rito de passagem da menina para mulher. Sem pudor e, provavelmente, sem amor. 
É certo que o tempo não regride. O paradoxo mais sensível no campo temporal é aquele que nos dá a chance de sermos autores de nossa história, mesmo que o mais provável seja que nos tornemos vítimas dela. O único "retorno" que nos é possível é na direção de nossos valores. Diga-se: os nossos melhores valores. Pois bem: é retornando de seu exílio "moderno" e "vanguardista" que Jenny volta aos livros e à convivência com as suas aparentes dificuldades cotidianas: a escola, o estudo em sua escrivaninha, os trajes escolares e assim vai.
É quase impossível acreditarmos que se pode escapar da sedução do "novo". Quando estamos a falar da "nova era" ou da "nova cultura" torna-se imperativo que experimentemos do novo cálice de vinho. Ou melhor, da tragada da maconha. A educação por sua vez parece se tornar, num contexto de "superação dos tempos", um processo obsoleto, sofrido, penoso e sem esperança. Não há nos bancos escolares nenhuma satisfação para as novas aspirações juvenis. Este talvez seja o maior dilema de nossos tempos no que diz à educação. Talvez tenha sido sempre assim. Todavia, como nos ensina T.S. Eliot não cabe a educação ser aquela que corrige a cultura. Cabe-lhe o papel de realizá-la da maneira mais nobre. Quem sabe possamos nos reconciliar com aquilo que na Padéia grega era o centro da vida educacional: o bom, o belo e o justo. Parece simples, mas não é.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Batalha do Iraque no Território Americano

Enquanto a turma que pretende ser avant-garde de Hollywood faz a apologia de Guerra ao Terror (sobre o qual já comentamos neste blog), outro filme encara de frente a Guerra do Iraque. Guerra ao Terror pretende documentar fatos da vida dos guerreiros americanos na vergonhosa invasão norte-americana do Iraque. Acaba por tropeçar na própria pretensão e cai no vazio e nada lá é drama, é apenas tensão deslocada da realidade.
Em O Mensageiro (The Messenger, EUA, 2009, dirigido por Oren Moverman, com Ben Foster, Eamonn Walker, Jena Malone, Samantha Morton e Woody Harrelson), os personagens não precisam estar sob o fogo escaldante do deserto iraquiano para mergulhar no sombrio mundo da guerra. Podem estar nos subúrbios ou áreas centrais das cidades americanas, mas lá estarão no Iraque também.

O filme mostra a convivência entre um veterano da 1ª invasão do Iraque em 1990 (estrelado por Ben Foster), promovida pelo velho Bush e um outro veterano (personificado por Woody Harrelson) da guerra forjada por Bush Jr., o pior presidente da história norte-americana. Ambos estão engajados na fúnebre função de informar pessoalmente a morte dos soldados norte-americanos aos seus parentes. Tudo em nome da humanização de um fato desprovido de humanidade. Os soldados morreram numa guerra estúpida. Ponto. Todavia, para os ideólogos da belicosidade imperial dos EUA não basta o fato. É preciso tecer algumas poucas palavras e atos em prol dos falecidos. Para satisfazer às necessidades da aparência e  tentar salvar um pouco a cara de Washington, a capital.
De um lado, Will Montgomery (Foster), o veterano mais velho, vê tudo com o niilismo que cabe à situação, muito embora ele ainda redunde a sua visão aos limites de suas viseiras de obediente militar. Já o capitão Tony Stone (Harrelson) vê tudo aquilo com a angústia das contradições dos próprios fatos e pessoas. Ele sabe que a guerra é trágica e que aqueles parentes precisam mais do que informações sobre a morte dos soldados e as datas de seus respectivos funerais. É preciso salvar os vivos já que os mortos se foram. Ponto. 
Na convivência entre os dois veteranos o que se vê não é propriamente um conflito pessoal, mas a absoluta impossibilidade de conciliar as suas respectivas visões. Na caserna pode até existir a convivência pacífica e amiga entre os soldados. Contudo, na hora de informar pais, namoradas, esposas e parentes de que o retorno de seus queridos será num caixão (ou saco de cadáver), não pode haver acordo. Will parece a salvo de tudo: basta-lhe falar com quem de direito e ir embora. Na realidade, Will caiu no poço e lá no fundo construiu o seu mundinho. Dever cumprido, vida perdida. Tony, por sua vez, parece sucumbir à Gestalt. Está envolto nos fatos e tenta se entrelaçar nas histórias das pessoas. Tudo muito sofrido. Todavia, ele consegue emergir de seu poço e - quem sabe! - pode encontrar uma saída para si mesmo.
O filme toca consciências, é isto que realmente importa. Sua forma é simples, mas nada simplória. O elenco é, digamos, preciso. A excelente interpretação de ambos os protagonistas não merece reparos. Ben Foster estiliza o seu personagem com precisão e arte, mas não cai no exibicionismo de certos filmes de "guerra". Já Harrelson consegue expressar todos os seus transtornos pessoais, mas quando incluído na aparente calma de certos momentos cênicos, consegue um domínio dramático surpreendente. Outro ponto alto: a direção de arte. O filme consegue levar a audiência a mergulhar na vida mediana do americano que entrega seus filhos para a aventura das guerras do Império. Não há glamour neste povo. Há apenas os latinos atrás de cidadania legal, os negros seduzidos pela ascensão social, a classe trabalhadora meio desinformada e a ignorância sobre as raízes dos fatos que mataram os seus entes queridos. Do figurino, aos cenários, passando pela forma de agir e andar, tudo no filme tem contornos precisos em relação ao que está a transmitir. Se a América mostrada não é aquela das profundezas e áreas extremamente pobres, de outro lado, as pessoas que transitam pelo filme não atingem o padrão "imaginado" de pequenos-burgueses. Estão apenas tentando ter uma casinha, uns móveis úteis e um emprego que se some ao soldo do enviado ao Iraque. Tudo muito certo no filme e triste de ver no Império.
Por fim, pergunto: será que os cidadãos norte-americanos ao assistirem um filme como O Mensageiro são capazes de perceber a ambição dos projetos dos poderosos da América? Ou será que ficam um pouco menos tensos que em A Guerra ao Terror e esquecem do espírito crítico que o filme tem e é capaz de transmitir? 
Bem, como sabemos, nos dias de hoje, a comunicação não é apenas um problema do emissor que mente, corrompe, distorce e torna tosco o que quer transmitir. Há muito tempo, os receptores são parte decisiva a suportar muita coisa ruim no cinema, na literatura, na imprensa, nas artes plásticas... É melhor parar por aqui. 

Lições de Nossas Partidas

Em Quarta-Feira de Cinzas o poeta anglo-americano T.S. Eliot nos recita por meio de uma bela poética (na tradução de Ivan Junqueira):


"Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma".


A morte é uma das maiores angústias humanas e aquela que ao lado do amor mais foi e é revestida dos rituais humanos e divinos. Somente a morte contém a dicotomia daquilo que sabemos na plenitude - que vamos morrer - e o que nada sabemos - para onde vamos e por que morremos. Há uma combinação metafórica e real entre o nosso destino fatal e a completa ignorância factual sobre qual o caminho que tomaremos a partir de então.
O filme A Partida (Japão, 2008, dirigido por Yoshiro Takita, com Masahiro Motokim, Tsutomu Yamazaki, Kazuzu Yoshiyuki e Kimiki Yo) é ao mesmo tempo o clímax da morte e o seu anti-clímax, a escolha pela vida. Ao mergulhar no universo da morte por meio das cerimônias e os funerais, A Partida propõe uma saída para a fatalidade. Ao mesmo tempo nos deixa com a necessidade de fazer as escolhas que realmente importam.

Um violoncelista fica desempregado em função da dissolução da orquestra em que toca. Sabe de seu novo status depois de um concerto no qual respingaram as belíssimas notas da Sinfonia nº 9 de  Beethoven e os versos cantados da Ode à Alegria (An die Freude) de Friedrich Schiller. Assim, o violoncelista se vê compelido a abandonar a carreira eventualmente promissora de músico e a arranjar um novo emprego. Uma mudança brusca de planos cujo saldo é um endividamento em função da aquisição de seu instrumento musical.  Por meio de um anúncio de jornal, acaba por ir trabalhar numa pequenina empresa especializada em preparar cerimônias fúnebres. Ali, seduzido pelo salário atraente vê-se confrontado com os rituais de passagem da vida para a morte. Um ofício aparentemente sofrido e inquietante não apenas do ponto de vista pessoal, mas também pela ausência de prestígio social na nova profissão. Tem um mestre a lhe ensinar e uma esposa que oscila entre a recusa em aceitar a nova situação do marido e o amor abnegado por ele.
Há muita descobertas ao longo deste trânsito de atividade e profissão. Tudo muito longe das suas expectativas iniciais. Como sempre é.
O aprendizado mais custoso ao iniciado é aquele que ensina que não há pesar na morte. Ao contrário, pouco a pouco a leveza vai tomando conta dele na sua relação com a morte. Se há fato pesaroso a ser tratado e confrontado é a própria vida. A vida daqueles que ficam.
A certa altura do filme, seu mestre o convida a comer em sua casa. Em meio a deliciosa refeição ele diz que "para viver é preciso comer. E se é assim, melhor que seja algo saboroso." Deste diálogo muitas coisas confluem para a mente daquele que já não é um violoncelista. É preciso lidar com a brevidade da vida. Não apenas a brevidade temporal, mas a brevidade que os homens constroem para não gozar a plenitude da vida. Nas palavras de Sêneca: "Ocupam-se para poder viver melhor: armazenam a vida, gastando-a! Fazem seus planos a longo prazo; no entanto protelar é do maior prejuízo para a vida: arrebata-nos cada dia que se oferece a nós, rouba-nos o presente ao prometer o futuro."
Sempre percebi o cinema japonês como difícil de ser permeável e se fazer permeável às relações de diferentes culturas. Afora uns poucos e excelentes filmes nipônicos que pude assistir, falta ao cinema oriental em geral e ao japonês em particular a universalidade humana do cinema ocidental, sobretudo o europeu e norte-americano. Um visão pessoal, é claro. Todavia, A Partida consegue transpor ao mesmo tempo a intenção de ser inédito no seu argumento - coisa que não é - e a barreira cultural: o filme é universal, belo, delicado, suave e agudo. Tem uma fotografia exemplar e uma música que passeia com enorme cumplicidade com o roteiro. 
Não há afetação na interpretação desta estória poética e o trabalho coletivo dos atores é brilhante - pouco importa o que se possa opinar sobre cada um deles.
Por fim, voltemos a morte e a superação desta. Não há segredos a compartilhar com um morto que é velado. Todavia, muitos de nossos segredos mais profundos se sobressaem quando estamos a velar os nossos amigos e parentes. A cerimônia do adeus a um morto, não é rito fúnebre no sentido lato de sua significação. É rito para a vida que nos pesa e a qual nos cabe libertá-la para o nosso bem e uso. A Partida nos ensina que quando dizemos adeus, estamos a dizer  "até logo". Quando pensamos que tudo acabou, descobrimos que existe um recomeço a cada minuto que nos persegue. Resta saber se o tempo presente brevíssimo vale a pena ser vivido. Por nós mesmos. Como diz Eliot "nada retorna à sua forma".